Casas de pedra de 1880 e cantinas de famílias italianas contam a história da cidade gaúcha que cresceu entre parreirais e virou Capital Brasileira da Uva e do Vinho
Casas centenárias, vinhedos e antigas cantinas preservam a história de famílias que transformaram a agricultura em tradição e atração turística.
Entre morros cobertos de parreirais, Bento Gonçalves cresceu ao redor das casas que imigrantes italianos ergueram com pedra, madeira e trabalho de família na Serra Gaúcha. Muitas dessas construções continuam de pé e hoje recebem visitantes para servir vinho, queijo e massa caseira nas mesmas cantinas onde várias gerações aprenderam a transformar uva em sustento.
Como as famílias italianas moldaram a cidade da serra?
A cidade nasceu do trabalho de famílias vindas do norte da Itália, que trouxeram para a serra a vinicultura, as receitas e o jeito de receber. Segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, essa herança explica a gastronomia farta e o título de Capital Brasileira da Uva e do Vinho, nome pelo qual o município é apresentado no turismo gaúcho.
As casas de pedra erguidas por volta de 1880 são o registro mais visível desse começo. De acordo com o guia de atrativos do Turismo RS, a Cantina Strapazzon, construída pelo imigrante Giovanni Strapazzon, mantém as paredes de pedra irregular da primeira geração e depois passou a abrigar a produção e a guarda do vinho. O mesmo guia lembra que Giuseppe Benedetti, vindo de Lovara, na província de Vicenza, chegou em 1877 à Colônia Dona Isabel, nome original de Bento.

Alguns números ajudam a medir o tamanho desse legado na cidade de hoje:
Uma cidade de feiras, agroindústria e vinho avaliado
O calendário da cidade vai muito além da colheita. Feiras e congressos nacionais e internacionais ocupam o Parque de Eventos ao longo do ano, com pavilhões preparados para encontros de grande porte. É em Bento que acontecem a Avaliação Nacional de Vinhos, maior evento do gênero na vitivinicultura brasileira, e o Concurso Internacional de Vinhos do Brasil.
No interior do município, a produção que nasceu para abastecer a casa virou agroindústria familiar. Sucos de uva integrais, doces de figo, queijos, grappas e licores são vendidos muitas vezes no porão das casas antigas, onde as famílias guardavam a colheita. Essa economia de pequenos produtores convive com o comércio movimentado do centro e mantém o campo habitado por quem herdou a terra dos pioneiros.
O que fazer em Bento Gonçalves além de provar vinho?
O roteiro mais conhecido é o Vale dos Vinhedos, dividido entre Bento, Garibaldi e Monte Belo do Sul. Ali funcionam mais de três dezenas de vinícolas, das pequenas cantinas familiares às empresas com participação internacional, e muitas abrem as áreas de produção para visitas guiadas.
A cidade, porém, guarda outros caminhos para entender a imigração, muitos deles em localidades do interior, como Faria Lemos e São Pedro. Algumas experiências dependem de reserva, ingresso ou horário marcado com as propriedades.
Roteiros entre trilhos, mirantes e casas de pedra
Entre os passeios que mostram a cidade por trás da taça, alguns concentram a melhor experiência:
- Caminhos de Pedra: casas centenárias com moinhos, teares e casa de massas, onde o visitante pode até moer a erva-mate do próprio chimarrão. Ver roteiro.
- Maria Fumaça: trem a vapor que parte da estação de Bento e percorre 23 km em cerca de 2 horas, com música italiana e gaúcha até Carlos Barbosa. Ver passeio.
- Parque Temático Epopeia Italiana: recria o cotidiano das famílias que chegaram à serra no século XIX. Ver parque.
- Museu Histórico Casa do Imigrante: quase 10 mil itens doados pela comunidade, distribuídos em sete salas temáticas. Ver museu.
- Ferradura do Rio das Antas: mirante a 15 km do centro, onde o rio contorna um morro e desenha uma ferradura gigante. Ver mirante.
- Mirante do Campanário: depois de 55 degraus, a vista alcança o povoado de Faria Lemos e vales inteiros bordados de parreirais. Ver mirante.
Para conhecer a cidade de Bento Gonçalves, suas paisagens e seu cotidiano, acompanhe este vídeo do canal Bora com RafaLu:
Por que a entrada da cidade tem um barril de 17 metros?
O pórtico tem formato de pipa, o barril usado para guardar vinho, e foi construído em 1985 para avisar a quem chega que ali começa a terra da uva. Com 17 metros de altura, a Pipa Pórtico virou o cartão de visita de Bento.
Os detalhes menos famosos estão nas casas do interior. A Casa Righesso, de 1889, tem pedras de basalto unidas por uma mistura de feno, palha de trigo e estrume de vaca, e um sótão chamado de granaro, que guardava grãos e ajudava a isolar o frio. Na mesa, a herança aparece no café colonial servido em casarões de pedra e na gasosinha, o refrigerante caseiro que os imigrantes preparavam para a família.

Como é o clima de Bento Gonçalves ao longo do ano?
Bento Gonçalves tem quatro estações bem definidas, com máximas médias perto de 27°C no verão e mínimas médias de 8°C em julho. A chuva se distribui por todos os meses, sem período seco, e outubro e janeiro aparecem como os mais chuvosos na série de 30 anos.
Bento Gonçalves em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e paisagens bem diferentes nos parreirais:
Faixas baseadas nas médias climatológicas de 30 anos do Climatempo. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte a previsão do Climatempo.
A serra que guarda o sotaque dos pioneiros
Bento Gonçalves cresceu sem apagar o próprio começo. As paredes de basalto levantadas pelas primeiras famílias seguem abrigando vinho, massa e encontros de família, enquanto a cidade ao redor ganhou pavilhões, comércio e um calendário que atrai gente de todo o país.
Nas manhãs de inverno, quando a geada cobre os vales e o apito do trem atravessa os parreirais, fica fácil perceber que a história da cidade não está guardada em vitrines, mas nas casas onde ela continua acontecendo.
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