Cada vez mais famílias trocam Belo Horizonte por essa cidade mineira a 110 km da capital, onde nasceu Carlos Drummond e a vida corre devagar entre casarões coloniais e ruas com poesia fixada no chão
A cidade mineira a 110 km de BH onde uma montanha de 1.385 metros desapareceu e nasceu o maior poeta do Brasil
No coração do Quadrilátero Ferrífero, a 110 km de Belo Horizonte, Itabira guarda uma das histórias mais singulares de Minas Gerais. A cidade viu nascer Carlos Drummond de Andrade, deu origem à Companhia Vale do Rio Doce em 1942 e perdeu, no caminho, uma montanha inteira de 1.385 metros de altitude. O resultado é um município de ritmo de interior, IDH alto e identidade marcada por contradições entre o ferro e os versos.
O Pico do Cauê e a cratera estampada na bandeira
O Pico do Cauê se erguia a 1.385 metros acima do nível do mar, com um brilho azulado que guiava viajantes desde o século XVIII. O nome do município vem do tupi e significa pedra que brilha, em referência ao minério de ferro exposto na rocha. Os irmãos Francisco e Salvador de Faria Albernaz fundaram o povoado por volta de 1720, em busca do ouro que descia dos córregos da base do pico.
O ouro secou no fim do século XVIII, mas o ferro estava apenas começando. Em 1911, a inglesa Itabira Iron Ore Company obteve a concessão das jazidas. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas nacionalizou as minas e criou a empresa que hoje atende pelo nome de Vale. Em 1973, a mina já era a maior frente de extração de minério de ferro do hemisfério ocidental. No início dos anos 1980, o pico não existia mais. No lugar da montanha, ficou uma cratera profunda, hoje estampada na bandeira municipal.

Como é a rotina de quem mora ali com calma e estrutura?
A cidade combina o porte de um município médio com o ritmo do interior. Conforme o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 113.343 habitantes em um território de 1.254 km², com Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,756, considerado alto.
O PIB per capita chega a R$ 65.590, sustentado pela mineração, e a taxa de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos atinge 98,64%. A cidade está a 795 metros de altitude, conta com um campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), faculdades privadas e uma rede de saúde que atende municípios vizinhos. As ruas largas, os casarões coloniais e a circulação tranquila entre bairros explicam a procura por novos moradores em busca de sossego.

O berço do maior poeta brasileiro
O escritor Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902 e viveu na cidade até os 13 anos. Da janela de casa, enxergava o Pico do Cauê. Em 1930, no livro Alguma Poesia, escreveu o verso que virou marca do município: cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê. Em 1973, publicou A Montanha Pulverizada, sobre o desaparecimento da serra.
A cidade retribuiu o poeta com uma rede de espaços culturais coordenada pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, mantida pelo município. O Memorial Carlos Drummond de Andrade, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1998, fica na encosta do Pico do Amor e guarda primeiras edições, correspondências e objetos pessoais do poeta. Pelas ruas do centro, o Museu de Território Caminhos Drummondianos reúne 44 placas-poema em ferro fundido espalhadas por um percurso de cerca de 7 km.
O que fazer pelos distritos e serras do entorno?
O município reúne arquitetura colonial, museus, cachoeiras e trilhas pela serra. As principais atrações ficam a poucos minutos do centro, segundo o Portal de Turismo da Prefeitura.
- Caminhos Drummondianos: museu a céu aberto criado em 1997 com 44 placas-poema, percorrível com guias e os jovens do Projeto Drummonzinhos.
- Memorial Carlos Drummond de Andrade: projeto de Oscar Niemeyer no alto do Pico do Amor, com vista de 360 graus da cidade.
- Fazenda do Pontal: propriedade rural da família do poeta, hoje centro cultural e ponto final do roteiro Drummondiano.
- Distrito de Ipoema: vilarejo a 42 km do centro por onde passa a Estrada Real, com cerca de 50 cachoeiras catalogadas no entorno.
- Parque Estadual Mata do Limoeiro: 2.056 hectares de Mata Atlântica e Cerrado preservados, voltados ao ecoturismo.
Quem deseja descobrir curiosidades sobre a terra do poeta Carlos Drummond de Andrade, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Paulo Araújo, que conta com mais de 37 mil visualizações, onde são mostrados 25 fatos essenciais sobre a cidade de Itabira, MG:
Reserva da Biosfera reconhecida pela UNESCO no entorno
O município integra a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 2005. A área compõe uma rede mundial com mais de 400 reservas em 100 países e foi a primeira do tipo a englobar o bioma Cerrado em sua totalidade.
A reserva abrange parte do território de Itabira e dezenas de outros municípios mineiros, com paisagens de serras, campos rupestres e nascentes de rios importantes para o abastecimento da região Sudeste. A cidade também faz parte do Circuito do Ouro e da Estrada Real, dois roteiros oficiais de turismo de Minas Gerais.
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Como o clima se comporta ao longo do ano?
O clima tropical de altitude rende verões quentes e chuvosos e invernos secos e amenos. As temperaturas médias variam entre 12°C e 28°C ao longo do ano, com manhãs frias entre maio e agosto.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à terra de Drummond saindo da capital mineira?
O município fica a 110 km de Belo Horizonte pela BR-381 seguida da MG-129, cerca de 2 horas de carro. Linhas regulares de ônibus partem da Rodoviária Governador Israel Pinheiro, em Belo Horizonte, ao longo do dia. O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Internacional Tancredo Neves (Confins).
Vale a pena criar os filhos na terra do maior poeta brasileiro?
A cidade combina IDH alto, ensino universitário público, rede de saúde regional e um patrimônio cultural raro: a memória viva do escritor que ajudou a definir a literatura nacional. A vida corre devagar entre casarões coloniais, serras preservadas e ruas onde a poesia está literalmente fixada no chão.
Você precisa atravessar a serra até essa cidade mineira e entender de perto o que Drummond quis dizer quando escreveu que cada itabirano carrega um pedaço do Cauê no peito.
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