A vila conhecida como a “Hollywood Nordestina” com clima de deserto que se tornou o maior cenário de cinema do Brasil
Menos de 300 mm de chuva por ano: a cidade mais seca do Brasil virou o maior cenário de cinema do país
Céu azul permanente, luz forte o dia inteiro e uma paisagem árida que parece saída de roteiro. Cabaceiras, no Cariri Paraibano, transformou a escassez de chuva em vantagem competitiva e se tornou set de filmagem a céu aberto para mais de 50 produções audiovisuais.
Por que Cabaceiras quase nunca vê chuva?
A resposta está na geografia. O município fica na parte mais baixa do Planalto da Borborema, a cerca de 300 metros de altitude, cercado por serras que barram a umidade vinda do litoral. O resultado é uma média pluviométrica anual próxima de 278 mm, a menor registrada no Brasil segundo estudos da Revista Brasileira de Geografia Física (UFPE). Para efeito de comparação, cidades do litoral paraibano recebem cerca de 1.700 mm no mesmo período.
A vegetação de caatinga arbustiva domina a paisagem: xique-xiques, mandacarus e juazeiros compõem um cenário seco e fotogênico. Em janeiro de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou apenas 1 mm de chuva na cidade, o menor volume para o mês desde 2017.

Como o sertão virou Hollywood
A relação de Cabaceiras com o cinema começou em 1929, com um documentário institucional sobre a Paraíba. O salto veio décadas depois, nos anos 1990, quando o diretor Guel Arraes escolheu a cidade para gravar O Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna. A luz natural intensa e a ausência de nuvens garantiam mais horas de filmagem por dia, com economia de iluminação artificial.
Depois do sucesso do filme, vieram Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), A Pedra do Reino (2007), a novela Cordel Encantado (2011), a série Onde Nascem os Fortes (2018) e Cangaço Novo (2023). A lista já ultrapassa 50 títulos entre longas, séries, documentários e videoclipes. Em dezembro de 2025, o Governo da Paraíba sancionou a Lei nº 14.166, que reconhece oficialmente o município como Capital Paraibana do Cinema.
Quem é fã do filme O Auto da Compadecida, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Mundo Sem Fim, que conta com mais de 1,3 milhão de inscritos, onde Renan e Chel exploram a cidade de Cabaceiras, a famosa Hollywood Nordestina, localizada no Cariri paraibano:
A igreja que mudou de cor e nunca mais voltou ao original
Uma das curiosidades mais surpreendentes está na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, construída por volta de 1720. Para as gravações de O Auto da Compadecida, a equipe de produção pintou a fachada de azul, substituindo o bege original. A alteração agradou tanto aos moradores que a igreja permanece azul até hoje, segundo o portal de turismo da Prefeitura de Cabaceiras.
As casas do centro histórico passam por processo parecido. A cada nova produção, fachadas são repintadas e reformadas sem custo para os moradores. As casinhas coloridas do século XVIII viraram marca registrada da cidade e parte essencial do cenário que atrai visitantes o ano inteiro.
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Rochas de 500 milhões de anos com arte de 12 mil
A 19 km do centro de Cabaceiras, o Lajedo de Pai Mateus reúne mais de cem matacões de granito arredondados sobre uma imensa laje rochosa. Geólogos estimam que a formação tem mais de 500 milhões de anos, do período pré-cambriano. Algumas dessas pedras pesam até 45 toneladas e guardam pinturas rupestres atribuídas aos índios Cariris, com registros estimados em 12 mil anos.
A Pedra do Capacete, batizada pelo formato que lembra um elmo militar, é o matacão mais fotografado. O Ministério do Turismo reconheceu o Lajedo como um dos tesouros naturais da Caatinga. Segundo o site oficial do município, formações rochosas semelhantes só existem em outros três lugares do mundo.

O bode que governa a economia e a festa
Se o cinema deu fama, a caprinovinocultura sustenta a economia local. Cabaceiras abriga a Festa do Bode Rei, criada em 1999 e considerada o maior festival de caprinos e ovinos do Brasil. O evento acontece na primeira semana de junho e já chegou a atrair 150 mil visitantes em três dias, segundo dados do jornal A União.
O momento mais emblemático é a coroação do Bode Rei, quando o animal de maior porte recebe simbolicamente a chave da cidade. A gastronomia “bodística” domina o cardápio: bode assado no forno a lenha, buchada, queijo de cabra artesanal e a bodioca, uma tapioca recheada com carne de bode. Em 2025, o festival realizou sua 26ª edição com apoio do governo estadual e participação de criadores de Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Visite a cidade que transforma seca em cinema
Cabaceiras prova que identidade geográfica pode virar vocação criativa. Uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes, encravada no semiárido mais seco do país, conseguiu atrair o olhar do The New York Times e conquistar um título oficial de capital do cinema.
Você precisa cruzar o Cariri e conhecer de perto a Roliúde Nordestina, onde cada fachada colorida, cada pedra milenar e cada prato de bode assado contam uma história que só o sertão sabe escrever.
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