A maior fortaleza portuguesa fora da Europa tem muralhas de 7 metros e fica escondida na Amazônia, a 730 km da capital
A fortaleza escondida guarda uma parte pouco lembrada da presença portuguesa
Portugal levou oito anos para erguer uma fortaleza de mais de 900 metros de perímetro no meio da floresta, às margens de um rio que separa o Brasil da Bolívia. Depois a abandonou. Em 1914, a expedição do marechal Cândido Rondon reencontrou a construção coberta de mato. O lugar hoje se chama Costa Marques, sudoeste de Rondônia, e continua sendo um dos destinos menos óbvios do país.
Por que uma fortaleza colonial foi erguida no meio da floresta amazônica?
A resposta é ouro e fronteira. A coroa portuguesa temia perder o oeste amazônico para a Espanha e, sob a política do Marquês de Pombal, ordenou a construção do Real Forte Príncipe da Beira a partir de 1776, na margem direita do rio Guaporé.
A obra custou cerca de 48 mil contos de réis e envolveu portugueses, indígenas e negros escravizados, segundo a Superintendência Estadual de Turismo de Rondônia (Setur). O traçado seguiu os conceitos do engenheiro francês Sébastien Le Prestre, o Marquês de Vauban, referência em fortificações do século XVIII. Duas investidas espanholas vindas dos Andes foram repelidas ali, o que consolidou a posse daquela fronteira, conforme registro da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Sete metros de muralha, um terremoto e um prisioneiro poeta
A muralha que circunda a praça de armas tem sete metros de altura e foi erguida em parte com pedras retiradas do próprio Guaporé. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o monumento em 1950, o primeiro bem cultural de Rondônia reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro.
Escavações iniciadas em 2008 revelaram paiol, estábulo, louças portuguesas, vidros e cerâmicas indígenas, além de vestígios de ocupação pré-colonial e afro-brasileira. O lugar também guarda uma história pessoal e estranha: o prisioneiro conhecido como Pacheco, mantido na masmorra, escreveu versos nas paredes da cela e deixou o único relato conhecido do terremoto que assustou a região em 1853, conta o Governo de Rondônia. A fortaleza é tão simbólica que aparece estampada na bandeira do estado.
Quem sonha em conhecer a maior e mais imponente construção militar portuguesa fora da Europa, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal COMANDO MILITAR DA AMAZÔNIA – EXÉRCITO BRASILEIRO, que conta com mais de 14 mil visualizações, onde os apresentadores mostram a história e a estrutura monumental do Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia:
O forte é candidato a Patrimônio Mundial da Unesco?
Sim. O monumento integra o Conjunto de Fortificações Brasileiras, um grupo de 19 fortes inscritos na lista indicativa da UNESCO como bem seriado, cuja candidatura destaca o Príncipe da Beira e o Forte Coimbra como marcos da fronteira oeste do país.
Na dimensão imaterial, o Vale do Guaporé tem outro trunfo. A Festa do Divino Espírito Santo, celebrada há mais de 130 anos, é a única romaria aquática do Brasil: percorre cerca de 1.360 km pelo Guaporé e afluentes ao longo de 50 dias, visitando comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e povoados bolivianos. A Lei estadual nº 5.252, de 2022, reconheceu a celebração como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Rondônia. O Iphan analisa o registro em âmbito federal.

O que ver e fazer no Vale do Guaporé
O município integra o Mapa do Turismo Brasileiro pelo polo Vale do Guaporé, ao lado de Pimenteiras do Oeste, Cabixi e São Francisco do Guaporé. Entre julho e setembro o rio baixa, os bancos de areia aparecem e a cidade vive sua temporada.
- Real Forte Príncipe da Beira: aberto à visitação, sob guarda do 1º Pelotão Especial de Fronteira do Exército Brasileiro. Os guias são voluntários da comunidade quilombola vizinha.
- Praia do Curralinho: praia fluvial a 2,5 km da área urbana, com área de camping, barracas e gaivotas circulando na areia.
- Festival de Praia de Curralinho: evento do calendário estadual, com shows, campeonato de pesca e concurso Garota Praia.
- Parque Estadual Serra dos Reis: floresta ombrófila com 152 espécies de aves e 24 de mamíferos registradas.
- Pesca esportiva embarcada: Costa Marques abriu a temporada 2024 do circuito Gigantes de Rondônia, que adota o sistema pesque e solte.
- Travessia até a Bolívia: o Guaporé é a fronteira natural, e comerciantes bolivianos cruzam o rio durante os festivais.
Quem sonha em conhecer a fronteira do Brasil com a Bolívia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viagem por Terra, que conta com mais de 36 mil visualizações, onde Loara e o apresentador mostram o Rio Guaporé, palafitas e o comércio em Costa Marques, em Rondônia:
Como é o clima e como chegar a Costa Marques?
O clima é equatorial, quente o ano inteiro, e a diferença real está na chuva. A janela seca, de junho a setembro, é quando as praias de água doce se formam.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O acesso rodoviário se dá pela BR-429, a cerca de 730 km de Porto Velho, com voos e ônibus interestaduais chegando à capital. Do centro urbano até o forte são 26 km pela RO-478, trecho recuperado em 2025 pelo Departamento de Estradas de Rodagem e Transportes (DER-RO) com roçagem, patrolamento e encascalhamento.
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Conheça o forte que a floresta engoliu e devolveu
Poucos lugares no Brasil reúnem uma muralha de sete metros, uma romaria de 50 dias sobre a água e praias que só existem quando o rio resolve baixar. O Vale do Guaporé guarda tudo isso longe das rotas turísticas de sempre.
Você precisa atravessar Rondônia até Costa Marques e ficar de frente para essas pedras, entendendo por que Portugal insistiu tanto em ficar aqui.
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