A cidade que parou no tempo e o queijo virou patrimônio da humanidade
O casario preservado ajuda a contar uma parte importante da história do Brasil
Em 8 de abril de 1938, um ofício do governo federal transformou um vilarejo mineiro em obra de arte protegida por lei. Não era Ouro Preto nem Diamantina. Era o Serro, a antiga Vila do Príncipe do Serro Frio, encravada na Serra do Espinhaço, que perdeu o ouro, perdeu a ferrovia e, justamente por isso, guardou intacto o desenho de uma vila do século XVIII.
1938: o ano em que uma cidade inteira virou monumento
O tombamento do conjunto arquitetônico e urbanístico do Serro foi registrado sob o processo nº 65-T-38, inscrição nº 25, no Livro de Belas-Artes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Segundo a Prefeitura de Serro, foi o primeiro município brasileiro a receber essa proteção integral.
A explicação para tanta preservação é quase melancólica. A cidade nunca foi alcançada pela malha ferroviária, ficou fora das rotas do progresso republicano e viu a economia do ouro secar no início do século XIX. O resultado é o traçado urbano da metade do século XVIII praticamente intacto, com ruas longitudinais acompanhando os ribeirões auríferos.
Fundada como arraial em 1702, a povoação virou vila em 1714 e cidade em 1838. O nome vem do tupi Ivituruí, que os cronistas traduziam como o morro de vento frio, referência ao nevoeiro denso que ainda invade a parte alta da serra.

O ouro branco que a UNESCO reconheceu
Quando as lavras se esgotaram, os moradores voltaram-se para o gado e para o leite cru. Nasceu o Queijo do Serro, apelidado de ouro branco, produzido em fazendas familiares há mais de três séculos.
Em agosto de 2002, o modo de fazer o queijo artesanal da região serrana tornou-se o primeiro bem cultural imaterial registrado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). Em 2008, virou patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN.
O reconhecimento máximo chegou em 4 de dezembro de 2024, na 19ª sessão do Comitê Intergovernamental realizada em Assunção. Os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal entraram na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Foi o primeiro produto da cultura alimentar brasileira a receber o título, abrangendo 106 municípios mineiros.
Como é viver em uma cidade de 22 mil habitantes espalhados por 1.217 km²
O Censo 2022 contou 21.952 moradores em um território de 1.217,813 km², o que resulta em 18,03 habitantes por km², conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para efeito de comparação, é uma densidade menor que a de muitas áreas rurais do país.
A escolarização entre 6 e 14 anos chega a 97,42%, também segundo o IBGE. O ritmo é o de uma vila: pouco trânsito, casario baixo, vizinhos que se cumprimentam pelo nome. Boa parte da renda vem do queijo, do turismo histórico e da agricultura familiar espalhada pelos distritos.
Vale um alerta honesto. A serra convive com pressão de projetos de mineração no entorno do centro histórico, tema acompanhado pela superintendência do IPHAN em Minas Gerais. A preservação, aqui, não é paisagem congelada, é disputa em curso.

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O que fazer entre ladeiras de pedra, cachoeiras e um pico de 2.002 metros?
O centro histórico se percorre a pé, em subidas curtas e íngremes. Fora dele, o município guarda distritos que parecem cenário de outro país e um dos pontos mais altos de Minas.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: templo setecentista com forro em pintura de perspectiva, técnica rara na arte colonial mineira.
- Capela de Santa Rita: no ponto mais alto do centro, alcançada por uma escadaria longa. A vista do casario compensa o fôlego.
- Museu Regional Casa dos Ottoni: sobrado do século XVIII, com estrutura de madeira e varanda com balaustrada, hoje aberto à visitação.
- Milho Verde: distrito a 25 km do centro, com ruas de terra, casinhas coloridas e a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, protegida pelo Estado.
- São Gonçalo do Rio das Pedras: a 30 km, guarda um antigo rancho de tropeiro e serve de base para cachoeiras da região.
- Parque Estadual Pico do Itambé: parte dele fica no município e abriga o pico de 2.002 metros, nascentes das bacias do Jequitinhonha e do Doce.
Todo o território integra a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO em 24 de junho de 2005 pelo programa Man and the Biosphere.
Quem quer descobrir as riquezas coloniais, as cachoeiras e a famosa tradição do queijo artesanal, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 1,4 milhão de visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra uma viagem completa pelas vilas históricas do Serro, em Minas Gerais:
Como é o clima na antiga Vila do Príncipe ao longo do ano?
A altitude e os campos rupestres deixam as noites frias mesmo no verão. O inverno é seco e ensolarado, temporada preferida por quem caminha pelas trilhas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo, que registra média de 15 mm de chuva em junho. Condições podem variar.
Suba a serra e prove o tempo parado
A cidade que a ferrovia esqueceu virou o primeiro conjunto urbano protegido do país e emprestou o nome a um queijo que o mundo inteiro passou a reconhecer. Entre a Capela de Santa Rita e as fazendas de leite cru, cabe uma história de três séculos que ninguém precisou reconstruir.
Você precisa conhecer o Serro e entender por que uma cidade só se preserva quando alguém decide continuar vivendo nela.
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