A cidade mística sobre rochas de quartzito a 1.440 metros onde OVNIs já foram avistados e as grutas guardam lendas de 300 anos
Onde as rochas de quartzito guardam lendas de 300 anos e o céu já foi cenário de OVNIs
No alto da Serra da Mantiqueira, São Thomé das Letras é uma cidade inteiramente construída sobre uma montanha de quartzito a 1.440 m de altitude, onde ruas, casas e igrejas nascem da mesma rocha que sustenta os avistamentos de OVNIs relatados há décadas e as grutas que abrigam lendas com mais de 300 anos de história.
Por que essa cidade de pedra nasceu de uma carta impossível?
Tudo começa no final do século XVIII. O escravo João Antão, fugido da fazenda do capitão João Francisco Junqueira, refugiou-se em uma gruta no alto da serra. Segundo a tradição oral preservada pela Prefeitura de São Thomé das Letras, ali apareceu um senhor de vestes brancas que entregou ao escravo uma carta com escrita perfeita, destinada ao capitão. O problema: João Antão era analfabeto. A carta chegou. O capitão visitou a gruta, encontrou uma imagem de São Tomé, ficou estupefato e concedeu a alforria ao escravo. Mandou construir uma capela ao lado da caverna. O vilarejo cresceu ao redor. As “letras” da carta impossível deram nome à cidade.
A Igreja Matriz erguida a partir de 1785 ainda guarda pinturas rococó do artista colonial Joaquim José da Natividade. A Gruta de São Thomé, ao lado da matriz, segue aberta e gratuita. Em 1985, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída por escravizados com pedras sobrepostas sem argamassa, foi tombada pelo estado. Em 1996, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) tombou o conjunto arquitetônico do centro histórico em quatro livros oficiais: arqueológico, belas artes, histórico e artes aplicadas.

OVNIs e portais para Machu Picchu: o que dizem as lendas da cidade mística?
São Thomé das Letras carrega o apelido de “capital ufológica do Brasil” com orgulho e cautela. Moradores relatam avistamentos de luzes no céu desde os anos 1980, e grupos de ufólogos organizam vigílias anuais nos mirantes da serra. A explicação mais citada é geológica: o quartzito, mineral piezoelétrico, geraria campos eletromagnéticos que interfeririam na percepção sensorial e atrairiam fenômenos inexplicados. A Ladeira do Amendoim, a 4 km do centro, colabora com o repertório: carros em ponto morto parecem subir sozinhos. O engenheiro cartógrafo Plínio Temba, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), já mediu a inclinação e confirmou que é uma ilusão de ótica clássica chamada “gravity hill”, mas a multidão de curiosos continua voltando.
A lenda mais famosa é a da Gruta do Carimbado, a 6 km do centro. Segundo o folclore local, seus túneis de quartzito levariam até Machu Picchu, no Peru, a quase 4 mil km de distância. Ninguém jamais chegou ao fundo. A Sociedade Brasileira de Espeleologia registrou 212 metros explorados. A gruta está atualmente interditada por determinação judicial, mas sua história ganhou alcance nacional com a minissérie Filhos do Sol, exibida pela Rede Manchete em 1991, que usou São Thomé como cenário para uma trama sobre extraterrestres. Em 2024, o quartzito da região recebeu o registro de Indicação Geográfica pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhecendo a qualidade exclusiva do material exportado para a Europa e outros continentes.

Vale a pena morar na Cidade das Pedras?
A vida em São Thomé das Letras não é para todo mundo, mas para quem busca ritmo de interior, natureza e comunidade alternativa, os números são surpreendentes. Com cerca de 7 mil habitantes, a cidade possui 98% de cobertura de esgotamento sanitário, índice muito acima das médias estadual (76%) e nacional (55%), segundo dados do Instituto Água e Saneamento. A economia se sustenta em dois pilares sólidos: a extração e exportação do quartzito, que movimentou cerca de US$ 7,8 milhões no mercado exterior em 2024, e o turismo, que responde por grande parte do comércio local. São cerca de 19 mil leitos disponíveis para uma cidade de 7 mil moradores, um dos maiores índices proporcionais do país, conforme dados da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais.
O perfil de quem escolhe morar aqui é marcante: artistas, espiritualistas, agricultores orgânicos e profissionais que trocaram a metrópole pelo ritmo das pedras. A Sociedade Brasileira de Eubiose instalou-se na cidade ainda no início do século XX. Comunidades intencionais e grupos de meditação compõem o cotidiano ao lado dos mineradores e dos moradores de gerações antigas. O custo de vida é baixo se comparado às capitais, mas as oportunidades de emprego formal são limitadas ao turismo e à mineração.
O que fazer em São Thomé das Letras além de esperar OVNIs?
A cidade concentra atrações em dois circuitos: o centro histórico de pedra, percorrível a pé, e as cachoeiras e grutas acessíveis por estradas de terra. O roteiro a seguir cobre o essencial em dois dias:
- Gruta de São Thomé: a caverna que originou a cidade, ao lado da Igreja Matriz. Visita gratuita com pinturas rupestres e vista do centro pelo topo. Ponto de partida obrigatório.
- Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário): construída por escravizados no século XVIII com lascas de quartzito sobrepostas sem argamassa. Patrimônio tombado desde 1985.
- Casa da Pirâmide e Parque Municipal Antônio Rosa: construção de quartzito dos anos 1980 no ponto mais alto da cidade. O pôr do sol visto dali é aplaudido como ritual diário pelos visitantes, ao som de músicos locais.
- Pedra da Bruxa: formação rochosa com perfil que a imaginação local associa a uma bruxa. Trilha íngreme com uma das vistas mais amplas da Serra da Mantiqueira.
- Cachoeira da Eubiose: uma das mais visitadas, com poço para banho e acesso por estrada de terra. Vegetação de campo rupestre ao redor.
- Cachoeira do Sobradinho: exige trilha mais longa, com salões de pedra e trechos com água. Indicada para quem busca imersão na natureza sem multidão.
- Ladeira do Amendoim: a 4 km do centro, o fenômeno em que carros parecem subir sozinhos atrai curiosos de todas as idades. Vale a pena ver, mesmo sabendo que é ilusão de ótica.
Quem deseja explorar a energia mística de Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 243 mil visualizações, onde o casal mostra um roteiro de 4 dias com dicas de cachoeiras, grutas e o pôr do sol na Pirâmide em São Thomé das Letras:
Qual a melhor época para visitar a Cidade Mística?
A altitude de 1.440 m garante noites frescas o ano inteiro. As estações dividem claramente as experiências possíveis:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. O inverno seco, entre junho e agosto, é o período favorito dos ufólogos pelo céu sem nuvens e a visibilidade noturna excepcional.
Como chegar à cidade construída sobre uma montanha de pedra?
São Thomé das Letras fica a 346 km de Belo Horizonte e a cerca de 370 km de São Paulo. O acesso principal é pela BR-381 até Três Corações, seguindo pelas rodovias LMG-862 e LMG-868, com trecho asfaltado até o centro. Para cachoeiras mais afastadas, como Sobradinho, as estradas são de terra e um carro com maior distância do solo oferece mais conforto. O aeroporto mais próximo fica em Varginha, a 70 km. Ônibus intermunicipais partem de Três Corações com horários limitados, por isso o carro próprio ou alugado é a opção mais prática.
Uma cidade que saiu da pedra e nunca mais largou o mistério
São Thomé das Letras é um daqueles lugares que não cabem em uma classificação só. É patrimônio histórico, destino esotérico, referência mineral exportadora e refúgio para quem quer desacelerar numa cidade onde cada muro conta uma história de 300 anos. A pedra que sustenta a cidade virou arte, exportação e lenda sem precisar escolher entre as três.
Você precisa subir a serra, entrar em uma gruta de quartzito e assistir ao pôr do sol aplaudido por desconhecidos para entender por que São Thomé das Letras resiste à lógica e ao tempo com a mesma firmeza de sua rocha.
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