A cidade mineira que produziu mais de 18 milhões de veículos e virou capital automotiva do Brasil
A indústria mudou a economia e a paisagem urbana do município
Uma decisão tomada em Turim, em 1973, mudou para sempre a cara de uma pequena cidade a 30 km de Belo Horizonte. Betim, na região metropolitana da capital mineira, foi escolhida pela Fiat para receber a primeira fábrica da montadora fora da Itália. Cinco décadas depois, o complexo produziu mais de 18 milhões de veículos, transformou o perfil econômico de Minas Gerais e ainda guarda os traços de uma história que começou muito antes das linhas de montagem.
Como um bandeirante batizou o município no século XVIII?
A origem está registrada em 1711, quando Joseph Rodrigues Betim, cunhado do bandeirante Fernão Dias Paes Leme, recebeu do Conselho Ultramarino da Corte Portuguesa a Carta de Sesmaria referente ao Vale do Ribeirão da Cachoeira, hoje Rio Betim. Segundo a Prefeitura de Betim, o povoado passou a se chamar Arraial da Capela Nova de Betim em 1754, como parte do território da antiga Vila Real de Sabará.
A cidade viveu séculos como ponto de parada de tropeiros e produção agrícola para abastecer as regiões mineradoras. Foi elevada à condição de distrito em 1801 e a município autônomo apenas em 1938. O ritmo pacato duraria até a chegada, algumas décadas depois, das duas indústrias que virariam o município do avesso.

Por que a Refinaria Gabriel Passos foi um primeiro divisor de águas?
Antes da Fiat, veio o petróleo. A Refinaria Gabriel Passos (REGAP) foi inaugurada em 30 de março de 1968, com capacidade inicial de 7.200 m³ por dia. Segundo dados catalogados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a unidade recebeu o nome do engenheiro e político mineiro Gabriel de Resende Passos, ex-ministro de Minas e Energia.
Em 1970, a refinaria passou a operar como unidade completa, com destilação atmosférica e parque de tanques dimensionado para nova escala. Ampliações estruturais vieram em 1982, uma unidade de coque em 1994 e o hidrotratamento de diesel em 2009. Betim virou base energética estratégica de Minas Gerais antes mesmo de ser conhecida pelos automóveis. Décadas depois, seguiria o mesmo caminho de outras cidades mineiras que trocaram a vocação original por outro tipo de riqueza, como a pequena cidade transformada por 2,295 bilhões de m³ de água e cânions de quartzito.
O que o Polo Automotivo Stellantis representa para o país?
A pedra fundamental foi assinada em 14 de março de 1973, no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. A produção começou em julho de 1976 com o Fiat 147, primeiro modelo saído das linhas mineiras. Segundo comunicado oficial da Stellantis, o polo já produziu mais de 18 milhões de veículos em cinco décadas e exportou cerca de 4 milhões de unidades para mais de 30 países.
Hoje, o complexo ocupa 2,2 milhões de metros quadrados, dos quais mais de 900 mil m² são de área construída. Da linha atual saem a Fiat Strada, veículo mais vendido do Brasil por cinco anos consecutivos, além de Argo, Mobi, Pulse, Fastback, Fiorino e o Peugeot Partner Rapid. O grupo anunciou investimentos de R$ 30 bilhões na cidade nos próximos anos.

Como a industrialização transformou a economia local?
Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base em dados do IBGE, o Produto Interno Bruto de Betim cresceu 261,5% entre 1996 e 2007. O crescimento colocou o município entre os principais motores econômicos de Minas Gerais e reorganizou a logística estadual, com modernização das BR-381 e BR-262.
O efeito sobre a demografia foi igualmente forte. A população passou dos 82 mil habitantes no início dos anos 1980 para os 411.859 registrados pelo Censo 2022 do IBGE, o que faz de Betim uma das maiores cidades do estado. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) chegou a 0,749, categoria de Alto Desenvolvimento Humano.
O que ver em Betim além das fábricas?
A cidade preserva marcos culturais e áreas de lazer que contam a história anterior à industrialização. Muitos ficam a poucos quilômetros do centro histórico.
- Museu Histórico de Betim: acervo sobre a colonização, tropeiros e a chegada da indústria, com peças arqueológicas encontradas no território.
- Casa da Cultura Josefina Bento: espaço de eventos artísticos e exposições no centro da cidade.
- Salão do Encontro: centro de artesanato reconhecido internacionalmente pelo trabalho com bordado e tecelagem.
- Parque Ecológico Vale Verde: reserva verde a poucos minutos do centro, com trilhas e mirantes.
- Reinado de Nossa Senhora do Rosário: festa anual com Guardas de Congo, Moçambique, Marujos e Catopés, tradição afro-mineira.
Na cozinha, os pratos seguem a tradição mineira. Aparecem o frango com quiabo, o tutu de feijão e o doce de leite em barra, servidos em restaurantes que dividem espaço com cantinas italianas herdadas dos operários que se instalaram na cidade nas décadas de 1970 e 1980.
Quem quer descobrir o lado turístico de Betim, vai curtir esse vídeo do canal Cristiane Siqueira, com mais de 15 mil visualizações, que reúne 10 lugares para conhecer na cidade:
A cidade que transformou o mapa industrial brasileiro
Betim é um dos poucos municípios brasileiros em que uma decisão empresarial vinda de outro continente redesenhou completamente a economia local. A cidade que começou como parada de tropeiros hoje produz um em cada tantos carros que rodam pelo país e ainda mantém as tradições religiosas que atravessaram três séculos.
Você precisa entender Betim para entender como Minas Gerais deixou de ser apenas terra de ouro e virou também terra de motor.
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