A cidade mais alemã do Brasil fala três idiomas e tem dois recordes mundiais reconhecidos pelo Guinness Book
A herança germânica continua presente na língua, nos costumes e nas festas
Entre 1860 e 1880, famílias vindas da Pomerânia, região dividida hoje entre Alemanha e Polônia, subiram o vale do rio Itajaí em busca de terra barata e floresta para derrubar. O que ergueram naquele trecho de Santa Catarina resistiu à guerra, à proibição das línguas estrangeiras e ao tempo. Pomerode, com cerca de 34 mil moradores, guarda a maior concentração de casas enxaimel fora da Europa, dois recordes chancelados pelo Guinness World Records e um selo de turismo sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).
Por que três idiomas convivem nas ruas da Pequena Alemanha?
Porque o município transformou herança familiar em política pública. O português divide o cotidiano com o alemão e com o pomerano, variedade do baixo-alemão que a cidade cooficializou por lei municipal em 2017, sete anos depois de instituir o alemão como idioma complementar. Nenhum outro município catarinense tem essa dupla cooficialização.
O detalhe que impressiona linguistas é geográfico. A língua quase desapareceu do continente europeu após 1945, quando a maior parte da Pomerânia passou ao território polonês e a população de origem alemã foi expulsa. No Brasil, comunidades rurais isoladas seguiram falando pomerano em casa, na igreja e na lavoura, e hoje o país concentra mais falantes do idioma do que a própria Alemanha. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) trata esse tipo de fala como patrimônio, por meio do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, política que reconhece línguas de imigração como referência cultural brasileira.

Que recordes mundiais saíram de uma festa de Páscoa?
Dois, e ambos nasceram na mesma celebração. Segundo o Governo de Santa Catarina, o ovo gigante da Osterfest mede 16,72 metros de altura por 10,88 metros de diâmetro, medição acompanhada por árbitra internacional do Guinness World Records que devolveu à cidade o título de maior ovo decorado do planeta, perdido temporariamente para a espanhola Salou.
O segundo recorde é mais artesanal. A Osterbaum, árvore de Páscoa premiada em 2017, recebe mais de 110 mil casquinhas de ovos naturais pintadas à mão, tradição em que os galhos secos representam a morte e as cascas coloridas, a vida. Para dimensionar o esforço: é como se cada morador da cidade tivesse pintado três cascas, uma a uma, antes da festa começar.

O que a ONU viu na Rota do Enxaimel?
Viu um bairro rural que vive de sua própria história, sem virar cenário. Conforme a Organização Mundial do Turismo (UNWTO), agência da ONU, o percurso do bairro Testo Alto reúne cerca de 50 casas tombadas em uma extensão de 16 km e recebeu o selo Best Tourism Villages, concedido a comunidades onde o turismo preserva tradições e paisagem.
A técnica que sustenta essas paredes chegou na bagagem dos imigrantes: vigas de madeira encaixadas por pinos, sem prego nem parafuso, com os vãos preenchidos por tijolos de argila. De acordo com a Fundação Catarinense de Cultura (FCC), várias dessas edificações também são tombadas como patrimônio material do estado. É um reconhecimento raro no país, comparável ao peso turístico de destinos consagrados do Sul, como a cidade da Serra Gaúcha eleita uma das 7 Maravilhas do Brasil.

Vale a pena morar na cidade mais alemã do país?
Os indicadores sociais ajudam a responder. No IPS Brasil 2026, levantamento do Imazon que mede qualidade de vida em 5.570 municípios com 57 indicadores sociais e ambientais, Santa Catarina aparece como o terceiro estado de melhor desempenho do país, atrás apenas do Distrito Federal e de São Paulo, e Pomerode figura entre os municípios catarinenses mais bem colocados.
O reconhecimento também chega pelo turismo. A Prefeitura de Pomerode informa que a cidade foi eleita um dos destinos mais acolhedores do Brasil na 13ª edição do Traveller Review Awards, premiação baseada em avaliações de viajantes. Some a isso uma economia que não depende só de visitantes: indústria têxtil, metalmecânica, chocolate e cervejarias sustentam empregos durante o ano inteiro.

O que fazer em Pomerode além de olhar as casas antigas?
A cidade cabe em um fim de semana, com atrações concentradas no centro e no vale. Confira abaixo o que merece entrar no roteiro:
- Rota do Enxaimel: 16 km de estrada rural entre casas tombadas, restaurantes caseiros e pousadas, com mapa e roteiro oficiais disponíveis.
- Zoo Pomerode: fundado em 1932 por Hermann Weege, foi o primeiro zoológico particular do país e hoje é mantido por fundação sem fins lucrativos, conforme o próprio bioparque.
- Osterfest: festa de Páscoa que reúne o ovo e a árvore recordistas, entre fevereiro e abril.
- Festa Pomerana: realizada em janeiro, celebra a emancipação do município com música, dança e cozinha de origem germânica.
- Gastronomia típica: marreco recheado, joelho de porco, cuca e cervejas artesanais aparecem nos cardápios do centro e das casas rurais.
Chegar é simples. A cidade fica a cerca de 30 km de Blumenau, a aproximadamente 75 km do aeroporto de Navegantes e a menos de 180 km de Florianópolis, pela BR-101 e pela SC-470.
Quem quer descobrir por que Pomerode é chamada de cidade mais alemã do Brasil vai curtir este vídeo do canal Mundo Sem Fim, com mais de 1,9 milhão de inscritos e 230 mil visualizações.
Como é o clima de Pomerode ao longo do ano?
O regime é subtropical úmido, com chuva bem distribuída e estações marcadas. Os dados de climatologia do Climatempo mostram médias mensais de chuva perto de 187 mm em março e de 113 mm em agosto, ou seja, o inverno é o período mais seco do calendário. Veja abaixo como o ano se comporta:
Temperaturas aproximadas. Fenômenos como El Niño e La Niña alteram o comportamento das chuvas a cada ano, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo antes de viajar.
Uma pequena Pomerânia que segue viva no Vale do Itajaí
Poucos municípios brasileiros conseguem reunir dois recordes mundiais, um selo de turismo da ONU e uma língua que a Europa quase perdeu. Em Pomerode, esse conjunto não é vitrine montada para turista: é o resultado de decisões tomadas por gerações que escolheram manter a própria fala, a arquitetura herdada e as festas do calendário.
Você precisa percorrer a Rota do Enxaimel devagar, entrar em uma casa centenária e ouvir o pomerano na conversa de quem mora ali, para entender por que essa cidade catarinense se tornou um pedaço da Pomerânia que a Alemanha deixou de ter.
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