A cidade fluminense que guarda uma das primeiras fazendas coloniais reconhecidas do Brasil e uma capela erguida em 1618
A fazenda ajuda a contar os primeiros séculos da ocupação da região
Quando o Brasil começou a tombar seus primeiros bens históricos, em 1940, a lista era curta e quase toda formada por igrejas e cidades mineiras. Uma fazenda de São Gonçalo, do outro lado da Baía de Guanabara, entrou nesse grupo inicial e continua de pé, com capela datada de 1618, escondida atrás do trânsito de um dos maiores centros comerciais da região metropolitana do Rio de Janeiro.
Como uma freguesia de engenhos virou a Manchester brasileira?
Trocando cana por chaminé. A ocupação começou ainda no século XVI, em terras de sesmaria, e a região se firmou como área de engenhos de açúcar e lavouras que abasteciam a capital do outro lado da baía. O povoado alcançou a condição de Freguesia de São Gonçalo de Guaxindiba em 1647.
A virada aconteceu a partir da década de 1930, quando o município montou um parque industrial que se tornou um dos maiores do estado e rendeu o apelido de Manchester Fluminense, em referência à cidade inglesa símbolo da Revolução Industrial. Em 1943, uma nova divisão territorial transferiu o distrito de Itaipu para Niterói, e o município ficou com os cinco distritos que mantém até hoje: sede, Ipiíba, Monjolo, Neves e Sete Pontes.

O que sobrou da cidade que já foi chamada de Manchester brasileira?
Sobrou o comércio que herdou o lugar das fábricas. As chaminés que renderam o apelido nos anos 1930 perderam força ao longo do século XX, e a economia se reorganizou em torno de centros de compras que hoje puxam consumidores de Itaboraí, Maricá e da própria Niterói, sustentados por três rodovias que cortam o município.
Os indicadores acompanham essa mudança de perfil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a escolarização entre 6 e 14 anos chega a 97,65% e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) é de 0,739, faixa de desenvolvimento alto. O município ocupa 248 km² com uma das maiores densidades demográficas do país, o que ajuda a explicar por que quase tudo aqui é caminho de passagem. É o mesmo movimento de cidades fluminenses que vêm conquistando novos moradores longe da capital.

Onde estão os quatro séculos de patrimônio colonial?
Espalhados por bairros que quase ninguém associa a turismo. O caso mais completo é a Fazenda Colubandê, complexo colonial com casa-grande do século XVIII e capela de Sant’Ana datada de 1618, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ainda em 1940, entre os primeiros bens reconhecidos no país.
Conforme a Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro, a atual Igreja Matriz aparece nos registros a partir de 1675, o que lhe dá mais de três séculos e meio de história, com fachada originalmente barroca depois transformada em neoclássica. Completa o conjunto a Capela da Luz, em Itaoca, erguida em 1647 por um capitão que fez a promessa após sobreviver a um naufrágio.
Quais roteiros a prefeitura montou para o visitante?
São três circuitos temáticos que organizam o que estava disperso pelo município. Confira abaixo o que cada um reúne:
- Rota da Guanabara: junta o Mirante de Neves, o Centro de Tradições Nordestinas e o Museu da Imigração da Ilha das Flores, marco da entrada de imigrantes no Brasil.
- Centro Histórico Cultural: reúne a Igreja Matriz, a Casa das Artes e o Teatro Municipal, todos a curta distância no centro.
- Natureza e Aventura: formado pela Fazenda Colubandê e pelas áreas de proteção ambiental do Engenho Pequeno e de Pendotiba.
- Praia das Pedrinhas: faixa de areia na Baía de Guanabara com colônia de pescadores, procurada pelo pôr do sol e palco da festa de Iemanjá em fevereiro.
- Alto do Gaia: ponto mais alto do município, a 534 metros, na área rural, com vista para São Gonçalo, Maricá e Itaboraí.
Quem tem curiosidade sobre o passado colonial de São Gonçalo, vai curtir esse vídeo do canal programaViaLegal, com mais de 145 mil inscritos, sobre a Fazenda Colubandê:
Como é o clima na cidade ao longo do ano?
O município fica em área de baixada às margens da baía, com verão quente e úmido e um inverno seco em que a média de chuva cai para pouco mais de 50 mm mensais. Veja abaixo o que esperar de cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade que quase ninguém visita e quase todo mundo atravessa
São Gonçalo carrega o peso de ser vista apenas como caminho entre Niterói e o interior fluminense. Por trás do trânsito da BR-101 existe uma freguesia de 1647, uma fazenda que está entre os primeiros bens tombados do país, uma capela de 1618 e o museu da imigração numa ilha da Guanabara.
Você precisa dedicar um domingo a São Gonçalo e descobrir o que sobrou de quatro séculos por baixo do asfalto.
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