A cidade da América do Sul onde apareceu o maior animal terrestre que já pisou na Terra
Os fósseis encontrados ajudaram a revelar um gigante que viveu há milhões de anos
Procurar uma coisa e encontrar outra muda o rumo da ciência mais vezes do que se imagina. Na estepe árida da Patagônia, um trabalhador rural que cuidava de um campo tropeçou em um osso do tamanho de uma pessoa. Era o fêmur de um Patagotitan mayorum, um dinossauro de quase 37 metros e 69 toneladas, o maior animal terrestre já documentado pela paleontologia. Seus fósseis hoje descansam em Trelew, cidade da província de Chubut.
Que criatura foi essa que superou todos os gigantes conhecidos?
O Patagotitan mayorum era um titanossauro, grupo de dinossauros herbívoros de pescoço longo que dominou a Patagônia no período Cretáceo. Com cerca de 37 metros da cabeça à cauda e perto de 69 toneladas, ele pesava o equivalente a doze elefantes africanos juntos, segundo a National Geographic.
Toda essa massa se sustentava com um cardápio exclusivamente vegetal. Para manter um corpo tão colossal, o animal precisava consumir quantidades enormes de plantas por dia, e suas patas dianteiras tinham se transformado em pilares para carregar o peso. O pescoço, esticado, alcançava a altura de um prédio de cinco andares, uma vantagem para pastar no alto das copas onde poucos herbívoros chegavam.

Como um peão em busca de trabalho no campo achou o fóssil?
A descoberta foi puro acaso. Segundo o Museo Paleontológico Egidio Feruglio (MEF), o peão Aurelio Hernández, que trabalhava para a família Mayo, encontrou o primeiro osso do que viria a ser um dos achados mais impressionantes da paleontologia recente. O local foi a fazenda La Flecha, em pleno interior de Chubut.
O que veio depois superou qualquer expectativa. As escavações revelaram mais de 150 fósseis pertencentes a pelo menos seis indivíduos da mesma espécie, um volume raro que permitiu reconstruir a anatomia do animal com um grau de detalhe quase inédito para herbívoros desse porte. O nome Patagotitan une a origem geográfica, a Patagônia, à ideia de titã, símbolo de força e tamanho descomunal.
Por que ele não é chamado de maior animal de todos os tempos?
Aqui vale uma distinção que costuma se perder nas manchetes. O Patagotitan é o maior animal terrestre já documentado com base científica sólida, mas não o maior ser vivo da história. Esse título pertence à baleia-azul, que pode chegar a 150 toneladas, mais que o dobro do peso do titanossauro, ainda que viva na água, onde o próprio mar sustenta o corpo.
Em terra firme, no entanto, ele reina. A espécie foi formalmente nomeada em 2017 por uma equipe liderada pelos paleontólogos José Luis Carballido e Diego Pol, e suas 69 toneladas superaram em mais de 15% a massa do Dreadnoughtus, o recordista anterior. O sobrenome científico, “mayorum”, homenageia a família Mayo, dona das terras onde tudo apareceu.
O que faz da Patagônia um cemitério de gigantes tão bem preservados?
A resposta está na combinação de solo e clima. A estepe patagônica reúne condições raras para guardar ossos por dezenas de milhões de anos, algo que poucos lugares no mundo oferecem de forma tão completa. Não por acaso, a Argentina disputa com a China e os Estados Unidos o posto de país com mais espécies de dinossauros catalogadas.
Alguns fatores explicam essa conservação excepcional, e vale conhecê-los de perto:
- Sedimento fino: cobre os ossos aos poucos, sem esmagá-los sob o próprio peso da terra.
- Baixa umidade: o ar seco retarda a decomposição do material orgânico ao longo do tempo.
- Erosão lenta: o desgaste gradual do terreno expõe os fósseis na superfície sem destruí-los.
- Relevo aberto: a estepe rasa facilita o acesso e a identificação dos achados no campo.
Foi nesse mesmo território que surgiram outros colossos, como o Argentinosaurus e o Dreadnoughtus, ambos desenterrados em décadas recentes.
Quem é apaixonado por paleontologia e quer conhecer o museu onde está a réplica do gigante Patagotitan mayorum, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Universidade Nomade, que conta com mais de 1,1 mil visualizações, onde os apresentadores visitam o Museu Paleontológico Egidio Feruglio em Trelew na Patagônia Argentina:
Vale a pena conhecer Trelew para ver o titã de perto?
Para quem se interessa por história natural, sim. O Museo Paleontológico Egidio Feruglio, na Avenida Fontana, no centro de Trelew, guarda réplicas em tamanho real e fósseis originais da espécie, além de dezenas de outras descobertas na região, e recebe uma média de 70 mil visitantes por ano.
A cidade também serve de base para outros passeios patagônicos. A poucas horas dali estão a colônia de pinguins de Punta Tombo, a vila de chá galês de Gaiman e a orla de Playa Unión, o que permite unir ciência e paisagem no mesmo roteiro. O Governo argentino destaca o Patagotitan como a estrela do acervo no portal oficial de turismo da Argentina.
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O gigante que ainda faz a ciência repensar seus limites
O Patagotitan empurrou para mais longe a fronteira do que se acreditava possível para um animal de terra firme. Pesquisadores ainda debatem como um corpo tão pesado conseguia se mover, controlar a temperatura e bombear sangue até o topo daquele pescoço imenso, questões que continuam abertas décadas após a descoberta.
Debaixo da estepe silenciosa, é provável que outros gigantes ainda aguardem, do mesmo modo que este esperou por um peão distraído atrás de trabalho. A cada osso que aflora do solo patagônico, o passado remoto do planeta ganha um pouco mais de nitidez.
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