A cidade com 13 igrejas revestidas de ouro que foi o primeiro lugar do Brasil reconhecido internacionalmente
13 igrejas de ouro e o primeiro título internacional do Brasil
Nas encostas íngremes da serra mineira, a 96 km de Belo Horizonte, existe uma cidade onde cada ladeira de pedra carrega quase três séculos de história. Ouro Preto, a antiga Vila Rica, reúne 13 igrejas barrocas em poucos quilômetros quadrados e foi a primeira cidade brasileira a entrar na Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 1980. Só na Basílica de Nossa Senhora do Pilar foram aplicados mais de 400 kg de ouro folheado.
O título que abriu caminho para todo o patrimônio brasileiro
No dia 5 de setembro de 1980, durante a 4ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial realizada em Paris, Ouro Preto entrou para a Lista do Patrimônio Mundial. Foi o primeiro bem cultural do Brasil a receber o título, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com uma trajetória de proteção que já vinha sendo construída há décadas.
A cidade foi declarada Monumento Nacional em 1933, durante o governo de Getúlio Vargas, e tombada pelo IPHAN em 20 de janeiro de 1938, entre os primeiros conjuntos urbanos protegidos pelo órgão. O reconhecimento internacional veio depois, baseado em dois critérios: representar uma obra-prima do gênio criativo humano e testemunhar de forma excepcional a riqueza do Ciclo do Ouro. Em 2025, a cidade celebrou 45 anos como Patrimônio Mundial com mais de 32 milhões de reais em obras do Novo PAC, segundo a Agência Gov.

De Vila Rica a Ouro Preto: a história da capital do ouro
O nome do município vem do metal precioso encontrado na região, recoberto por uma camada escura de óxido de ferro. Tudo começou em 1698, quando o bandeirante Antônio Dias e o Padre Faria acamparam na margem de um córrego em busca de ouro. Em 15 de dezembro de 1712, o povoamento foi oficialmente elevado a vila pelo decreto real que criou Vila Rica.
Em 1720, a antiga vila tornou-se capital da recém-criada Capitania de Minas Gerais. Entre 1700 e 1770, a produção de ouro do Brasil foi praticamente igual a toda a produção do resto da América entre 1493 e 1850, segundo a Prefeitura de Ouro Preto. A cidade só passou a se chamar Ouro Preto em 20 de maio de 1823, quando recebeu de Dom Pedro I o título de Cidade Imperial. Em 1897, a capital foi transferida para Belo Horizonte, e a antiga Vila Rica entrou em um período de estagnação que, paradoxalmente, ajudou a preservar seu casario colonial.

Quanto ouro existe nas paredes das igrejas barrocas?
A Basílica de Nossa Senhora do Pilar, construída a partir de 1728, é a segunda igreja mais rica em ouro do Brasil, atrás apenas da Igreja de São Francisco em Salvador. A Prefeitura esclarece um detalhe importante: ao contrário do que muitos guias afirmam, o ouro aplicado nos altares e talhas não é maciço, e sim folheado, técnica que permite cobrir grandes superfícies com folhas finíssimas do metal.
Mesmo assim, o volume impressiona. As estimativas oficiais apontam mais de 400 kg de ouro aplicados apenas no interior dessa basílica, em mais de 20 anos de decoração que envolveram pintura, talha e painéis. O resultado é um interior totalmente dourado, considerado um dos mais ricos do barroco mundial. As principais igrejas da cidade incluem:
- Igreja de São Francisco de Assis: obra-prima do Aleijadinho, com pinturas de Mestre Ataíde, eleita em 2009 uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.
- Basílica de Nossa Senhora do Pilar: a segunda mais rica em ouro do país, com 434 kg de ouro folheado segundo o Instituto Estrada Real.
- Matriz de Nossa Senhora da Conceição: erguida em 1727 no bairro Antônio Dias, abriga em seu piso o túmulo de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
- Igreja de Santa Efigênia: construída em 1736, conhecida como Igreja de Chico Rei, o escravo africano que comprou sua liberdade trabalhando nas minas.
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: projetada pelo pai do Aleijadinho e finalizada pelo filho, com painéis de azulejos portugueses que chegaram em lombo de burro vindos do Rio de Janeiro.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: de 1785, em formato elíptico único entre as igrejas barrocas mineiras, com teto que lembra a quilha de um navio.
O que fazer além das igrejas em Ouro Preto?
O centro histórico se percorre a pé, embora as ladeiras exijam fôlego. As principais atrações ficam concentradas em torno da Praça Tiradentes, coração da cidade e palco simbólico da Inconfidência Mineira. Entre os pontos imperdíveis:
- Museu da Inconfidência: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, abriga mais de 4 mil peças e o Panteão dos Inconfidentes com os restos mortais dos envolvidos na revolta de 1789.
- Mina da Passagem: a maior mina de ouro aberta à visitação no mundo, com descida em vagonete a 120 metros de profundidade.
- Casa dos Contos: antiga residência do contratador de impostos do ouro, hoje espaço cultural com peças do período colonial.
- Praça Tiradentes: ponto de partida natural para entender o movimento que levou Joaquim José da Silva Xavier à forca em 1792.
- Repúblicas estudantis: 59 casas federais cedidas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), tradição herdada de Coimbra e em estudo pelo IPHAN para virar patrimônio imaterial.
A cozinha de Ouro Preto é puro fogão a lenha, com receitas que sobreviveram ao Ciclo do Ouro praticamente intactas. As mesas dos restaurantes do centro histórico servem o melhor da culinária mineira:
- Frango com quiabo e angu: prato-símbolo das mesas mineiras, acompanhado de couve refogada e arroz branco.
- Tutu à mineira: feijão batido com farinha de mandioca, lombo, linguiça e ovo, servido em fogão a lenha.
- Feijão tropeiro: herança das tropas que cruzavam a serra durante o Ciclo do Ouro, com bacon, ovo, couve e farinha.
- Pão de queijo: o café da manhã padrão das pousadas, feito na hora com queijo Minas curado.
- Doce de leite com queijo da Canastra: a versão mineira do Romeu e Julieta, vendida em lojinhas pelas ladeiras.
Quer saber o que fazer, onde comer e quais passeios aproveitar em Ouro Preto, a cidade mais histórica do Brasil? Vai curtir esse vídeo:
Quando o clima de Ouro Preto favorece cada tipo de passeio?
A melhor época para visitar Ouro Preto vai de maio a setembro, quando o inverno seco garante céu firme, ladeiras seguras para caminhadas e temperaturas amenas. O clima é tropical de altitude, com verão chuvoso e inverno seco, e a cidade fica a cerca de 1.180 metros acima do nível do mar.
Período com chuvas muito altas. Redobre o cuidado nas ladeiras molhadas, mas aproveite a vibração única nas ruas durante o Carnaval de Ouro Preto.
O clima começa a estabilizar. É uma ótima janela para conhecer as belíssimas igrejas barrocas e descer até as galerias da Mina da Passagem.
Céu firme e ladeiras seguras para caminhadas. Estação ideal para prestigiar muita música, teatro e arte no tradicional Festival de Inverno.
As temperaturas sobem e as chuvas retornam de forma moderada. Caminhe pelo centro histórico e admire o conjunto arquitetônico da Praça Tiradentes.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O Carnaval de Ouro Preto, em fevereiro, lota as repúblicas estudantis e transforma as ladeiras em corredores de blocos de rua. Já o Festival de Inverno, tradicionalmente em julho, é um dos mais antigos do Brasil e reúne música, teatro e oficinas em diferentes pontos da cidade. Quem prefere clima ameno e céu limpo encontra entre junho e agosto a janela ideal para visitar as igrejas com calma.
Por que essa antiga capital imperial merece um lugar no seu próximo roteiro
Ouro Preto entrega em poucos quilômetros de ladeira o que outras cidades brasileiras dividem entre dezenas de roteiros: arte barroca de relevância internacional, igrejas com toneladas de ouro folheado, o berço da Inconfidência Mineira e uma cultura estudantil que mantém o casario do século XVIII vivo todos os dias.
Você precisa subir as ladeiras de pedra da antiga Vila Rica e entender por que ela foi escolhida como o primeiro patrimônio cultural do Brasil reconhecido pelo mundo.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)