A cidade brasileira onde foguetes decolam ao lado de ruínas do século XVII tem dois palácios que ninguém terminou de construir
Foguetes e ruínas em cidade com palácios inacabados
Do outro lado da Baía de São Marcos, a 32 km de São Luís, existe um lugar que vive em duas eras ao mesmo tempo. Alcântara, no Maranhão, guarda casarões coloniais sem telhado e ruas de pedra que pararam no tempo, bem ao lado da única base de lançamento de foguetes do país. É um contraste que não se repete em nenhum outro canto do mundo.
Por que uma base espacial foi construída justamente aqui?
Por causa de uma vantagem geográfica rara: Alcântara fica a apenas 2°18′ de latitude sul, a posição mais próxima da linha do Equador entre todas as bases de lançamento das Américas. Ali, a velocidade de rotação da Terra é maior e ajuda a impulsionar os foguetes.
O resultado é economia de combustível. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a proximidade do Equador pode reduzir em até 30% o custo de lançamento de um foguete. O Centro de Lançamento, administrado pela Força Aérea, transformou a velha vila colonial num dos pontos mais estratégicos do Brasil para a exploração espacial.

Quem foram os dois barões que nunca terminaram seus palácios?
No século XIX, espalhou-se em Alcântara o boato de que Dom Pedro II visitaria a cidade. A notícia acendeu uma disputa de vaidades entre os partidos da época: dois barões, um conservador e um liberal, começaram a erguer, cada um, um palácio para hospedar o imperador.
A visita, porém, nunca aconteceu, segundo a tradição local, justamente para que o imperador não tomasse partido entre os dois lados. As obras foram abandonadas pela metade, e hoje as ruínas dos palácios inacabados, entre elas o chamado Palácio Negro, estão entre os cenários mais fotografados da cidade, em frente à Igreja do Carmo.
Como uma cidade tão rica virou um museu de ruínas?
A riqueza veio do açúcar, do sal e, sobretudo, do algodão exportado para a Europa. No auge, os filhos das famílias mais abastadas eram enviados a Coimbra, em Portugal, e voltavam com referências de arquitetura europeia que moldaram igrejas, fontes e palacetes. A cidade chegou a ter o pelourinho mais imponente da região, talhado em pedra de lioz trazida de Portugal.
Com o fim da escravidão e a queda do algodão, os ricos partiram e as construções ficaram. Esse abandono, por ironia, preservou o conjunto. Em 1948, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou a cidade inteira como Monumento Nacional, reconhecendo cerca de 400 imóveis históricos.

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O que torna a herança quilombola de Alcântara tão singular?
Alcântara tem a maior proporção de população quilombola do Brasil: a maioria dos moradores se autodeclara descendente de comunidades formadas por pessoas escravizadas que ergueram a riqueza da cidade. São mais de uma centena de comunidades espalhadas pelo município.
Essa herança se mantém viva em manifestações como o Tambor de Mina, religião de matriz africana nascida no Maranhão, com cantos, danças e rituais próprios. A expansão do centro de lançamento, aliás, gerou debates sobre a realocação dessas comunidades tradicionais, que habitam a região costeira há séculos.
Quem quer descobrir a incrível cidade das ruínas e cenários que pararam no tempo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal DEVA NO AR, que conta com mais de 65 mil visualizações, onde o apresentador mostra a ladeira do jacaré, igrejas históricas e um roteiro essencial por Alcântara, Maranhão:
Atravesse a baía até Alcântara
Poucos lugares no Brasil reúnem tantas camadas de história num só endereço: ruínas imperiais, foguetes, quilombos e uma vila que parou no tempo. Alcântara é o tipo de cidade onde o passado colonial e o futuro espacial dividem a mesma paisagem.
Você precisa atravessar a Baía de São Marcos e caminhar pelas pedras de Alcântara, onde o céu maranhense emoldura ruínas de mais de três séculos.
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