35 milhões de pares por ano e um monumento sem igual no país: a cidade paulista que veste os pés do Brasil
A fabricação de calçados faz parte da economia e da própria identidade local
Toda cidade industrial guarda alguma excentricidade herdada de antes das fábricas. Em Franca, no extremo nordeste de São Paulo, essa herança é um relógio de sol erguido por um frade no século XIX, com apenas um equivalente conhecido no mundo, na cidade francesa de Annecy. Ao redor dele cresceu o maior centro brasileiro de calçados masculinos de couro, com selo de origem reconhecido por órgão federal.
Por que o calçado feito aqui carrega um selo de origem?
Porque o couro trabalhado na cidade virou marca territorial, não apenas produto. Em janeiro de 2012, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao município a Indicação Geográfica do calçado masculino de couro, resultado de pedido apresentado em 2010 pelo Sindicato da Indústria de Calçados de Franca (Sindifranca). Desde então, os pares fabricados ali podem levar um selo que atesta a procedência e dificulta a falsificação.
É o mesmo mecanismo que protege vinhos europeus e cafés especiais brasileiros, aplicado a um sapato. Não por acaso, a região também é reconhecida pela produção de café da Alta Mogiana, outro produto local com selo de procedência, conforme o Portal Oficial de Franca.

Quanto a indústria calçadista produz atualmente?
Volume suficiente para calçar cidades inteiras todo mês. Conforme dados do Sindifranca divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para os Setores do Couro, Calçados e Afins (Abrameq), o município reúne cerca de 650 indústrias e produz entre 30 milhões e 35 milhões de pares por ano, com exportações que somaram US$ 63,6 milhões no último período apurado.
A tradição começou com sapateiros italianos no fim do século XIX, quando o café ainda mandava na economia, e virou escala industrial nas décadas seguintes. Os Estados Unidos lideram os destinos das vendas externas, seguidos por países da América Latina e da Europa. É um percurso parecido com o de outras cidades que viraram capital nacional de um produto, com a diferença de aqui o couro substituiu o grão.

O que torna o relógio de sol tão incomum?
A raridade do modelo. O monumento foi construído em 1886 pelo Frei Germano D’Annecy, na praça central, e o Município de Franca registra que existe apenas um semelhante no mundo, na cidade de Annecy, no leste da França, terra natal do religioso.
Um relógio de sol funciona pela sombra: uma haste projeta o traço sobre uma superfície graduada e marca a hora conforme a posição do sol no céu. Em uma praça de cidade que hoje trabalha em três turnos e mede tempo em minutos de produção, o objeto virou um lembrete silencioso de quando o dia era contado pela luz.

O que percorrer entre o centro e as fábricas?
O roteiro mistura patrimônio religioso, memória urbana e turismo de compras. Confira abaixo os pontos que costumam abrir a visita:
- Relógio do Sol: monumento de 1886 na praça central, com par conhecido apenas em Annecy.
- Catedral Nossa Senhora da Conceição: marco arquitetônico do centro, com torres altas e vitrais preservados.
- Museu Histórico Municipal José Chiachiri: instalado em casarão que já foi cadeia, fórum e câmara, guarda o acervo sobre a formação da cidade.
- Shopping do Calçado: aberto em 1997, reúne fábricas e outlets das marcas locais e é o destino do turismo de compras.
- Caminho da Fé: a cidade é ponto de partida de um dos ramais dessa rota de peregrinação que corta o interior paulista.
- Filé à JK: prato típico local, empanado e recheado com presunto e queijo, servido na maioria dos restaurantes tradicionais.
Quem quer conhecer a Capital do Calçado vai curtir este vídeo do canal Turismo com Cassimiro, com mais de 29 mil visualizações, que passeia pelo centro de Franca.
Como o clima de Franca se comporta ao longo do ano?
A cidade fica perto dos mil metros de altitude, o que garante inverno seco e noites frescas, com julho registrando média de apenas 14 mm de chuva. Veja abaixo o comportamento ao longo do ano:
Temperaturas e médias aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes da viagem.
Vale conhecer a cidade que veste o país
A cerca de 400 km da capital paulista, o município entrega uma combinação incomum: uma praça com monumento sem par no Brasil, um centro histórico ligado ao antigo caminho de Goiás e galpões que despacham couro para meio mundo.
Você precisa reservar um fim de semana, ver a sombra marcar a hora na praça pela manhã e sair de lá com um par feito a poucos quarteirões dali.
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