Startup bilionária era fraude e vai à falência
Builder.ai captou US$ 445 milhões prometendo automação que nunca existiu
A Builder.ai, startup britânica que se dizia revolucionar o desenvolvimento de software com inteligência artificial, entrou em processo de insolvência após revelações de que a tecnologia era fictícia.
Avaliada em US$ 1,5 bilhão, a empresa operava com 700 engenheiros humanos na Índia, enquanto vendia a ideia de automação total com algoritmos de IA.
Investigações também identificaram fraudes contábeis que inflaram artificialmente as receitas da companhia em até 300%.
Fundada em 2015, a Builder.ai promovia uma plataforma “no-code” com uma assistente virtual chamada Natasha.
A promessa de criar aplicativos “como peças de Lego” sem necessidade de programadores atraiu investidores como Microsoft, SoftBank e a Autoridade de Investimentos do Catar. Ao todo, foram captados US$ 445 milhões.
Na prática, os pedidos dos clientes eram encaminhados a uma operação manual na Índia, disfarçada por interfaces gráficas e jargões técnicos.
A fraude foi sustentada por anos com apoio de um esquema de “round-tripping” com a empresa indiana VerSe Innovation, em que ambas trocavam faturas sem entrega real de serviços.
As vendas declaradas pela Builder.ai em 2024, por exemplo, caíram de US$ 220 milhões para US$ 55 milhões após revisão.
O colapso teve início em 2023, quando a credora Viola Credit congelou US$ 37 milhões da empresa por inadimplência.
Com apenas US$ 5 milhões em caixa, a Builder.ai entrou com pedidos de insolvência no Reino Unido, Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos e Singapura. Mais de mil funcionários foram demitidos.
Autoridades americanas intimaram a empresa a entregar documentos contábeis e listas de clientes.
Em nota, a Builder.ai reconheceu “inconsistências” nas finanças, mas não revelou a extensão da fraude.
O fundador Sachin Dev Duggal deixou o cargo de CEO em fevereiro e foi substituído por Manpreet Ratia, que admitiu que o negócio se tornou insustentável com a perda de credibilidade no mercado.
O caso expõe a fragilidade do ecossistema de startups de tecnologia diante do “IA washing” — a prática de vender soluções manuais como se fossem baseadas em inteligência artificial.
A Amazon, em episódio semelhante, foi obrigada a descontinuar seu sistema “Just Walk Out”, que também dependia de operadores humanos.
O envolvimento de gigantes como a Microsoft, que não detectaram a farsa, acentua o impacto do escândalo e levanta dúvidas sobre a eficácia dos processos de due diligence em investimentos bilionários no setor de inteligência artificial.
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