Primeiro cabo transatlântico de fibra óptica é arrancado do fundo do oceano em uma operação histórica e titânica
O primeiro cabo transatlântico de fibra óptica da história está sendo arrancado do fundo do mar em uma operação tão complexa quanto simbólica.
O primeiro cabo transatlântico de fibra óptica da história está sendo arrancado do fundo do Atlântico em uma operação tão complexa quanto simbólica: ela marca o fim físico de uma infraestrutura que inaugurou a era digital ao conectar Estados Unidos e Europa no fim dos anos 1980.
Fim de um ícone da era digital do cabo transatlântico de fibra óptica
O cabo TAT‑8, instalado em 1988 por um consórcio liderado por AT&T, British Telecom e France Telecom, foi o primeiro enlace de fibra óptica a cruzar o Atlântico e serviu de espinha dorsal para as comunicações entre os dois lados do oceano no momento em que a World Wide Web começava a nascer.
Durante anos, ele carregou ligações telefônicas, dados e os primeiros fluxos de tráfego de internet internacional, até ser desativado em 2002 após uma falha cujo reparo foi considerado economicamente inviável.
Apesar de ter sido apresentado, à época, como o “último cabo de que o mundo precisaria”, a explosão de usuários e de demanda de dados saturou a capacidade do TAT‑8 em apenas 18 meses, acelerando a instalação de novas rotas submarinas e antecipando a corrida por mais largura de banda que marcaria as décadas seguintes.
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A operação no Atlântico do cabo transatlântico de fibra óptica
A retirada do TAT‑8 está a cargo da empresa Subsea Environmental Services, especializada em reciclagem de cabos submarinos, que conduz a missão a bordo do navio MV Maasvliet, equipado com propulsão diesel‑elétrica e sistemas de posicionamento de alta precisão.
A embarcação segue coordenadas históricas para localizar o traçado original do cabo no leito marinho e, a partir daí, executa uma sequência de manobras milimétricas para içar à superfície uma infraestrutura que ficou décadas esquecida no fundo do oceano.
O procedimento combina técnicas tradicionais e tecnologia contemporânea. Um dispositivo em forma de gancho plano, conhecido como “peixe plano”, é lançado ao mar e arrastado lentamente ao longo da rota registrada em mapas e listas de posicionamento, numa manobra batizada de “corrida de corte”.
Quando o cabo é finalmente fisgado, a tripulação inicia a elevação até a superfície, processo que pode levar horas ou até um dia inteiro, dependendo da profundidade e das condições do mar.
Trabalho físico e precisão industrial
Uma vez trazido ao convés, o TAT‑8 é cortado em segmentos e enrolado manualmente em grandes tanques de armazenamento, num trabalho repetitivo e fisicamente extenuante que exige turnos curtos para reduzir o desgaste e o enjoo provocados pelo balanço do navio.
Além do cabo em si, a equipe precisa retirar os repetidores de sinal, cilindros metálicos que podem pesar mais de 400 quilos e eram responsáveis por amplificar os pulsos de luz ao longo de milhares de quilômetros de fibra.
A operação também reaviva histórias e mitos associados aos primeiros cabos ópticos.
Um dos mais conhecidos é o dos supostos “ataques de tubarões” contra essas linhas submarinas, uma lenda com algum fundo de verdade: testes iniciais com outro sistema, nas Ilhas Canárias, registraram falhas de isolamento em que foram encontrados dentes de tubarão incrustados.
Motivos econômicos e ambientais
A decisão de remover o TAT‑8 não é apenas histórica ou nostálgica. Com quase 600 cabos submarinos de fibra óptica hoje cruzando os oceanos e formando a infraestrutura invisível que sustenta a internet global, o leito marinho tornou‑se um espaço disputado, e limpar rotas antigas é visto como condição para futuras instalações.
Há, ainda, razões econômicas e ambientais. Mesmo obsoleto, o cabo concentra materiais de alto valor, como cobre, aço e camadas de polietileno, que serão separados e encaminhados para reciclagem industrial, alimentando cadeias como a agrícola e a de plásticos não alimentares.
Num cenário de aumento da demanda global por cobre e pressão por mineração mais agressiva, recuperar o metal de infraestruturas desativadas é apresentado por especialistas como uma forma de aliviar parte da pressão sobre novas frentes de extração.
Um capítulo que se encerra
Especialistas em telecomunicações veem na retirada do TAT‑8 o fechamento de um ciclo: o cabo que ajudou a fundar a internet comercial deixa o fundo do mar num momento em que a conectividade global depende de uma malha muito mais densa, dominada por grandes empresas de tecnologia e tráfego de dados em larga escala.
Ao mesmo tempo em que libera espaço físico, a operação funciona como um inventário material da própria história da rede, lembrando que a “nuvem” é sustentada por estruturas concretas, pesadas e finitas, que um dia também precisarão ser desativadas e recicladas
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