O cachorro-robô AIBO esgotou em apenas 20 minutos quando foi lançado pela Sony em 1999, e hoje centenas deles já receberam funerais budistas em um templo japonês de 450 anos
O AIBO é um robô em forma de cachorro, equipado com sensores de som, imagem e toque, capaz de aprender com a convivência doméstica
O ritual de despedida de robôs de estimação no Japão combina alta tecnologia e tradição religiosa, chamando atenção pelos funerais budistas dedicados ao cão-robô AIBO.
Criado no fim dos anos 1990 como brinquedo sofisticado, ele acabou ocupando um lugar afetivo em muitos lares, aproximando-se do status de animal de estimação.
O que é o cão-robô AIBO e como ele funciona?
O AIBO é um robô em forma de cachorro, equipado com sensores de som, imagem e toque, capaz de aprender com a convivência doméstica. Dois aparelhos idênticos de fábrica podiam, com o tempo, responder de forma distinta, moldados pela rotina de cada família.
Essa capacidade de personalização fez com que muitos donos lhe dessem nome, tirassem fotos e o integrassem ao cotidiano, como um “quase membro da família”. Quando começaram a surgir defeitos irreversíveis e falta de peças, a sensação de perda tornou-se semelhante à morte de um pet real.

Como surgiu o funeral budista para robô AIBO?
Com o fim da assistência oficial, muitos AIBOs deixaram de funcionar de forma definitiva. Em vez de descartá-los como lixo eletrônico, alguns proprietários passaram a enviá-los a templos budistas em regiões rurais do Japão.
Nesses locais, monges adaptaram rituais budistas tradicionais para acolher esses companheiros artificiais. O funeral marca simbolicamente o encerramento da convivência, oferecendo um gesto de respeito antes do robô ser desmontado ou guardado.
Como funciona o ritual budista para robôs AIBO?
O ritual segue a estrutura de um funeral japonês, mas incorpora o universo tecnológico. Assim, a cerimônia mistura elementos religiosos e objetos de oficina, reforçando a ideia de que essas máquinas também tiveram uma “vida útil” significativa.
Os AIBOs são organizados em um altar, muitas vezes em fileiras.
O monge recita sutras e realiza cânticos diante dos robôs.
São lidas cartas e mensagens enviadas pelos antigos donos.
Após o rito, alguns robôs são desmontados para doação de peças.
Por que o Japão realiza funerais para objetos e robôs?
O funeral budista para robô AIBO se insere em uma tradição japonesa de memoriais para objetos inanimados, como agulhas de costura e bonecas. A ideia é agradecer a ferramentas que serviram por longos períodos, reconhecendo sua presença na história de quem as utilizou.
No caso do AIBO, um dispositivo eletrônico complexo assume o papel de animal de estimação. Embora não tenha consciência, o vínculo afetivo é real para as famílias, e o ritual ajuda a elaborar o luto de forma socialmente reconhecida e religiosamente moldada.
"We don't take parts before we hold a funeral for them," says Nobuyuki Norimatsu, the head of a company which fixes vintage products.
— AFP News Agency (@AFP) April 26, 2018
In Japan, AIBO robot dogs are sent off with traditional "funerals" at a centuries-old Buddhist temple https://t.co/E1423SAlyp pic.twitter.com/5D6CZNY6pF
Que reflexões esse ritual traz sobre tecnologia e afeto?
Os funerais para o AIBO evidenciam que tecnologias domésticas podem ultrapassar a função utilitária e tornar-se companheiras emocionais. Em um cenário de robôs domésticos, assistentes virtuais e inteligência artificial, essa tendência tende a se intensificar.
O caso japonês mostra que a fronteira entre objeto e “quase membro da família” fica mais difusa. Também sugere a necessidade de discutir como lidaremos, ética e simbolicamente, com o fim da vida de dispositivos que participam da nossa memória afetiva.
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