"O assassinato aleatório e sem sentido que era totalmente evitável"

05.10.2026

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“O assassinato aleatório e sem sentido que era totalmente evitável”
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Alexandre Borges
5 minutos de leitura 09.09.2025 06:55 comentários
Mundo

“O assassinato aleatório e sem sentido que era totalmente evitável”

Maya Sulkin, jornalista do The Free Press, relata como um assassinato em Charlotte expõe falhas de justiça criminal e saúde mental que deixam o transporte público mais inseguro

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Alexandre Borges
5 minutos de leitura 09.09.2025 06:55 comentários 1
“O assassinato aleatório e sem sentido que era totalmente evitável”
Foto: Reprodução

A jornalista Maya Sulkin publicou no The Free Press o artigo intitulado “O assassinato aleatório e sem sentido que era totalmente evitável” (“The Random, Senseless Killing That Was Totally Avoidable”).

O texto parte do vídeo do ataque divulgado nesta sexta, 5: “parecia uma tragédia aleatória, sem sentido, inexplicável. Na verdade, era o oposto. Foi completamente evitável.”

Iryna Zarutska, 23, recém-chegada da Ucrânia, foi morta a facadas no pescoço dentro de um trem leve em Charlotte, Carolina do Norte, nesta sexta, 22, enquanto olhava o celular. O agressor repetiu uma frase racista após o ataque, registrada em áudio: “peguei aquela garota branca.”

O acusado, Decarlos Brown Jr., 34, tem longo histórico criminal e foi descrito pela autora como “um criminoso contumaz, um termo familiar na América”, com pelo menos 14 prisões anteriores por crimes que incluem roubo e agressão.

Sulkin conta que, ao checar os registros, “havia mais de uma dúzia de ocorrências e várias dezenas de documentos para revisar.”

A família e registros oficiais indicam histórico de doença mental, inclusive diagnóstico de esquizofrenia após internação involuntária.

Em janeiro, ao ser atendido por policiais por mau uso do 911, Brown afirmou que “alguém lhe deu ‘material feito pelo homem’ que controlava quando ele comia, andava e falava” e pediu que investigassem “o material que estava dentro do corpo dele.”

Para Sulkin, o sistema falhou de forma visível.

“Era impossível não saber sobre a saúde mental e o histórico criminal de Brown. Você vê isso nos registros judiciais.” Mesmo assim, a magistrada Teresa Stokes o liberou mediante promessa de comparecimento, decisão que “teve consequências fatais.”

Na audiência de terça, 29, sobre o mesmo caso de mau uso do 911, o juiz local Roy Wiggins determinou avaliação forense, mas não o deteve.

Sulkin frisa que “a avaliação nunca aconteceu”, e Brown aguardava julgamento quando entrou no mesmo trem que Zarutska na sexta, 22.

O texto amplia o foco para a sensação de insegurança no transporte desde a pandemia. “Em Charlotte, apenas 37 por cento dos moradores disseram que os ônibus e trens do sistema de trânsito da área de Charlotte são seguros contra crimes, enquanto 29 por cento disseram o mesmo sobre pontos e estações.”

Casos recentes reforçam a desconfiança. “Jordan Neely, um homem em situação de rua com doença mental grave, foi morto por estrangulamento no metrô de Nova York em 2023.” “Quatro pessoas foram mortas a tiros na linha Blue de Chicago em 2024.” “Uma mulher foi incendiada em uma estação de Nova York no início deste ano.” “Dois homens foram esfaqueados no Grand Central no horário de pico neste verão.”

A escala humana da tragédia também é sublinhada.

“A morte de Iryna Zarutska é particularmente preocupante porque ela havia encontrado uma maneira de escapar de uma guerra que tirou mais de 100 mil vidas, e ainda assim a dela terminou brutalmente em um país que deveria ser seu refúgio.” Para Sulkin, “os Estados Unidos não levaram Brown a sério o suficiente como perigo até que ele a matou.”

Reações políticas polarizaram o caso. “Algumas pessoas à esquerda criaram vaquinhas para ajudar a cobrir os custos legais de Brown como parte da ‘luta contra o racismo e o viés contra nosso povo’.”

Do outro lado, “o presidente Donald Trump e membros de sua administração reclamaram que a mídia tradicional não cobriu o assassinato por quase três semanas, contrastando com a cobertura do caso George Floyd em 2020.”

A prefeita de Charlotte, Vi Lyles, pediu que as pessoas não compartilhassem as imagens e afirmou que o sistema de trânsito é seguro “no geral.” Ela também declarou em coletiva que a solução para problemas sociais não é prender.

Charles Lehman, pesquisador do instituto Manhattan, aponta dois erros claros. “Ele é um infrator de alta recorrência. E infratores de alta recorrência respondem pela maioria dos delitos.”

Ao notar que Brown não pagou a passagem, conclui: “se você é o tipo de pessoa que vai esfaquear alguém até a morte no trem, também é o tipo de pessoa que não vai pagar a passagem. Fazer cumprir esta última é um bom modo de pegar o primeiro. E há claramente uma falha nisso aqui.”

A síntese do artigo é direta: registros criminais e sinais de doença mental estavam à vista, mas autoridades optaram por liberar um suspeito recorrente sem custódia e sem garantir avaliação forense.

O resultado, argumenta Sulkin, foi um homicídio que era evitável e que alimenta, com exemplos nacionais recentes, a percepção de que o transporte público nos Estados Unidos está mais vulnerável.

Quem é Maya Sulkin

Maya Sulkin é jornalista do The Free Press, publicação americana dedicada a reportagens e ensaios sobre política, cultura e segurança pública, onde assina textos investigativos e análises com foco em justiça criminal e políticas urbanas.

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Alexandre Borges

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Comentários (1)

Fabio B

09.09.2025 08:41

Aqui no Brasil a situação é ainda pior, porque existe quase uma gigante romantização da condição dos sem-teto, como se fosse uma escolha de vida aceitável. A realidade é que a esmagadora maioria permanece nessa situação por dois fatores principais: transtornos mentais graves ou dependência química, especialmente do crack. Permitir que essas pessoas continuem vivendo nas ruas não é um ato de compaixão, mas sim de negligência social. Elas deveriam ser removidas compulsoriamente, tanto para sua própria segurança quanto para a proteção do restante da sociedade, e encaminhadas para avaliação psicológica e tratamento adequado. Em casos extremos, quando não há adesão ao tratamento ou risco evidente de reincidência, deveria ser prevista inclusive a detenção em caráter permanente. Enquanto o poder público continuar tratando o problema apenas como uma questão de “direitos individuais”, ignorando o impacto coletivo, situações violentas como a ocorrida recentemente não só continuarão acontecendo, como tenderão a aumentar.


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