Financial Times: “O que vai sobrar do seu trabalho depois da IA”
O economista britânico Tim Harford analisa por que a inteligência artificial valoriza certos empregos enquanto rebaixa outros, mesmo quando automatiza exatamente as mesmas tarefas
O economista britânico Tim Harford publicou no Financial Times o artigo “De quem é o emprego seguro contra a IA?”, explorando como a inteligência artificial está transformando não apenas empregos inteiros, mas o conjunto de tarefas que incluem.
Ele começa com uma frase do colega Martin Wolf: “convenci a mim mesmo de que o trabalho mais seguro do mundo provavelmente é o de jardineiro”. No dia seguinte, o próprio jornal mostrou o contrário.
A reportagem “Os jardins que a IA cultivou” descrevia sistemas automatizados de irrigação por gotejamento, sensores de pragas, espantalhos a laser e até um robô movido a energia solar que arranca ervas daninhas.
Ainda não está claro o quanto essas tecnologias ameaçam o emprego de jardineiros, mas o susto serve para lembrar uma distinção fundamental: “há uma diferença entre um trabalho e uma tarefa”.
A maioria dos empregos consiste em uma combinação de tarefas diferentes.
Um jardineiro precisa tanto cortar grama quanto diagnosticar pragas, desenhar espaços e lidar com clientes difíceis.
Vários desses aspectos podem ser auxiliados por IA, mas o mais provável não é a extinção da profissão, e sim uma mudança profunda na sua configuração.
O ponto central, segundo Harford, é entender “como cada nova aplicação de IA vai mudar o formato do que fazemos e se vamos gostar do trabalho que sobra depois disso”.
Essa não é uma questão nova.
Ela remonta aos protestos dos luditas, no início do século XIX, quando tecelões experientes foram substituídos por operários mal pagos após a introdução de máquinas que executavam justamente as tarefas mais difíceis do ofício.
Dois exemplos ajudam a iluminar os caminhos divergentes que a automação pode seguir: a planilha digital e os fones de instrução para estoquistas, como a unidade “Jennifer”.
A planilha, lançada em 1979, eliminou o grosso do trabalho repetitivo dos contadores.
“A profissão apenas seguiu em frente, lidando com problemas mais estratégicos e criativos, modelando riscos e cenários”. Já o “Jennifer unit” transformou um trabalho físico e maçante em algo ainda mais desumanizante.
“A unidade remove o último vestígio de esforço cognitivo de um emprego fisicamente desgastante que já era entediante”, observa Harford. A conclusão: “a IA pode tornar um trabalho chato ainda mais chato e um trabalho interessante ainda mais interessante”.
Esse paradoxo é o centro da nova pesquisa de David Autor e Neil Thompson, economistas do MIT.
No artigo “Expertise”, eles analisam por que dois cargos com tarefas semelhantes tiveram destinos tão diferentes após a automação: escriturários de contabilidade e escriturários de inventário.
Ambos realizavam cálculos simples, compilações e conferência de dados, tarefas que os computadores executam com facilidade.
A análise tradicional previa impactos semelhantes para os dois. Mas isso não aconteceu.
“Os salários dos contadores subiram, enquanto os dos estoquistas caíram.” A explicação está em como a automação redesenhou os pacotes de tarefas.
“A maioria dos empregos não é uma coleção aleatória de tarefas”, explicam Autor e Thompson. São blocos de atividades que fazem sentido juntas. Quando se remove uma parte do bloco, o restante muda de natureza.
No caso dos estoquistas, o que foi automatizado era justamente a parte mais qualificada: o controle e cálculo.
O que sobrou exigia menos formação, tornando o cargo mais próximo do de um repositor. Já os contadores perderam os cálculos, mas continuaram com funções que exigem julgamento e raciocínio. “As tarefas eram semelhantes, mas os efeitos da automação foram opostos.”
A grande pergunta para qualquer trabalhador agora é: “a IA vai substituir a parte mais qualificada do seu trabalho ou só o resíduo repetitivo que você nunca conseguiu eliminar?”
A resposta aponta se o trabalho vai se tornar mais interessante ou insuportável. E, por consequência, se o salário vai subir ou cair.
Harford cita um exemplo pessoal: usar IA como ferramenta de brainstorming para preparar sessões de RPG. “Elas aceleram a preparação e me permitem ir direto ao que importa: sentar com os amigos e fingir que somos magos”. Mas essa mesma capacidade pode tornar mecânico um dos poucos momentos criativos de outros profissionais, como marqueteiros ou redatores.
E volta ao jardineiro. Talvez o maior desafio dele não esteja nos robôs ou sensores de pragas, mas em escrever e-mails para clientes de escritório. “O que o jardineiro precisa é de um secretário, um escriba e um editor movidos por IA e essa tecnologia já existe.”
A conclusão de Harford é clara: “a mesma tecnologia pode transformar um trabalho em algo mais digno e interessante ou empurrá-lo para um nível ainda mais degradante”. Depende de qual parte do trabalho ela substitui, e de como o resto se reorganiza.
Quem é Tim Harford
Tim Harford é economista britânico, colunista do Financial Times, autor de best-sellers como O economista camuflado e apresentador do podcast Cautionary Tales, da BBC.
É um dos mais respeitados divulgadores de temas de economia no mundo, conhecido por explicar temas complexos com clareza e bom humor. Já recebeu prêmios como o Bastiat Prize e o Wincott Award.
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