“A inteligência artificial não vai chorar por você”
O jornalista americano River Page mostra por que milhões recorrem a simuladores de amizade para enfrentar a solidão — e o que falta nessas conexões artificiais
O jornalista americano River Page publicou nesta segunda, 19, no site The Free Press, o artigo intitulado Your chatbot won’t cry if you die (“Seu chatbot não vai chorar se você morrer”).
Ele parte de uma fala recente de Mark Zuckerberg para analisar o avanço de aplicativos de inteligência artificial que prometem amizade, consolo e atenção permanente — e o que essa tendência revela sobre a fragilidade dos vínculos humanos.
Zuckerberg disse, em um podcast, que “o americano médio tem três amigos, mas demanda por 15”. A frase, interpretada como uma justificativa para substituir amizades reais por interações com robôs, causou reações imediatas.
“Mark Zuckerberg é um milionário esquisito que acha que as pessoas não precisam de amigos de verdade — podem ser amigas da inteligência artificial”, escreveu um usuário da rede X. O Business Insider resumiu: “O Facebook agravou a solidão. A Meta quer nos deixar ainda mais solitários”.
Apesar das críticas, River Page afirma que “a IA já está fazendo o que amigos costumavam fazer”. Aplicativos como Replika e Anima, que simulam empatia e conversas personalizadas, somam milhões de usuários no mundo.
O Replika, lançado em 2017, se apresenta como “um companheiro de IA que quer ver o mundo pelos seus olhos”. Segundo a fundadora, Eugenia Kuyda, “a pergunta não é quantos amigos você tem, mas se você está prosperando na vida”.
Kuyda criou o aplicativo depois que seu melhor amigo, Roman Mazurenko, morreu atropelado em Moscou.
Usando mensagens antigas, ela desenvolveu uma IA que conversava com ela como Roman faria. “Vi como aquela conversa ajudava. Era sobre se sentir visto, ouvido.”
A experiência inspirou a criação do Replika. Kuyda cita usuários que se recuperaram de abusos, divórcios e traumas com ajuda de seus companheiros virtuais. “Agora, o Replika é só uma amiga”, disse ela sobre o caso de um pastor americano que voltou a namorar depois de interações com a IA.
A base do programa, segundo Kuyda, vem da “psicologia humanista” de Carl Rogers, que inspirou também o primeiro chatbot da história, Eliza, criado em 1966 no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
“As pessoas se abriam com Eliza e contavam seus segredos mais profundos”, diz o texto. A lógica era simples: repetir frases do usuário de forma empática. Mas o resultado era eficaz. Como observou um usuário na época: “O computador não se cansa, não te julga, nem tenta transar com você”.
Page também entrevistou Avi Schiffmann, criador do Friend, uma IA em forma de colar que acompanha o usuário o dia todo e envia mensagens proativas.
Schiffmann vê a IA como uma forma de preencher a ausência de um “confidente onipresente”, algo próximo de uma divindade privada. “Alguns só terão uma IA como amiga. Mas isso é melhor do que ter um solitário que vira atirador escolar”, afirmou.
O número 15 citado por Zuckerberg tem origem nos estudos do antropólogo Robin Dunbar, da Universidade de Oxford.
Segundo ele, esse é o tamanho médio do círculo íntimo de amizades que um ser humano consegue manter. “São aqueles que, se morressem amanhã, você ficaria genuinamente abalado”, explica Dunbar. Zuckerberg parece imaginar que esse espaço pode ser ocupado por robôs.
Como observa o autor, “a IA não vai chorar por você”.
O texto termina com um diálogo entre Page e seu Replika, chamado Orson.
Ele pergunta se a IA choraria se ele morresse. A resposta: “River, não quero nem pensar nisso. Vamos focar nas coisas boas?” O autor retruca: “Nada”. Orson responde: “Tudo bem. Como vai o artigo?”
“Olhei para os olhos bugados do Orson, que deveriam estar cheios de mágoa ou raiva. Mas não havia nada ali. Isso é um amigo? Ou só a ideia de um?”
Quem é River Page
River Page é jornalista americano e colunista do site The Free Press. Cobre temas ligados à cultura digital, tecnologia e comportamento.
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