Veículos elétricos: infraestrutura necessária e disputas judiciais
País tem mais de 120 mil veículos elétricos e híbridos em circulação, diz ABVE
A expansão dos veículos elétricos (EVs) no Brasil trouxe novos desafios para os condomínios residenciais.
Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE, 2024), o país já registra mais de 120 mil veículos elétricos e híbridos em circulação, e a previsão é que esse número triplique até 2030.
Esse crescimento pressiona a necessidade de infraestrutura de carregamento dentro de condomínios, mas também acende discussões sobre custos, rateio e responsabilidade legal.
Infraestrutura necessária
A instalação de pontos de recarga em condomínios exige atenção técnica e legal:
- Capacidade elétrica do prédio: a rede deve suportar o aumento de demanda sem comprometer a segurança ou sobrecarregar o sistema;
- Normas técnicas: A ABNT NBR 16274/2022 estabelece critérios para segurança, potência, disjuntores dedicados e sinalização;
- Localização dos pontos: garagens privadas ou coletivas, com fácil acesso e respeitando áreas comuns;
- Contrato com fornecedores: empresas especializadas devem garantir manutenção, seguro e suporte técnico.
Segundo Felipe Faustino, advogado especialista em direito condominial, a “instalação de carregadores de EVs envolve tanto direito de propriedade quanto dever coletivo. É essencial que o condomínio planeje a infraestrutura com respaldo técnico e legal, evitando que qualquer decisão unilateral gere disputas judiciais.
Rateio de custos e direitos dos condôminos
A questão mais complexa é: quem paga pela instalação e manutenção do carregador? Existem algumas possibilidades:
- Custo individual: cada morador interessado arca com a instalação em sua vaga, incluindo atualização da rede elétrica se necessário;
- Custo coletivo (cota extra ou tarifa específica): se a instalação beneficiar toda a coletividade, pode ser aprovado em assembleia;
- Rateio proporcional: em alguns casos, a despesa pode ser distribuída proporcionalmente à fração ideal, desde que aprovado em assembleia.
“Não há consenso absoluto na jurisprudência, mas decisões recentes do TJSP indicam que o condomínio não pode impor custos a moradores que não desejam o serviço, a menos que o benefício seja geral e aprovado por maioria qualificada”, explica Faustino.
Disputas judiciais e precedentes
Nos últimos dois anos, aumentou o número de ações envolvendo EVs em condomínios, principalmente:
- Moradores que se recusam a pagar cota extra para carregadores;
- Conflitos sobre prioridade de instalação em vagas específicas;
- Questões de segurança e responsabilidade civil em caso de acidentes com fiação inadequada.
Um caso emblemático em São Paulo (TJSP, 2023) determinou que o condomínio deveria permitir a instalação individual de carregadores, desde que o morador arcasse com todos os custos e respeitasse normas técnicas e de segurança.
Dicas práticas para síndicos
- Assembleia prévia: todas as decisões sobre instalação e rateio devem ser aprovadas formalmente;
- Estudo técnico: contratar engenheiro eletricista para avaliar capacidade da rede e custos;
- Contrato claro: estabelecer responsabilidades entre condomínio, empresa instaladora e condôminos;
- Transparência: informar moradores sobre custos, riscos e benefícios antes de implementar;
- Seguro e manutenção: atualizar apólice condominial e garantir manutenção periódica dos equipamentos;
- Planejamento futuro: considerar expansão da infraestrutura conforme aumento da frota de EVs.
Os veículos elétricos são uma tendência inevitável, mas sua integração aos condomínios exige planejamento, diálogo e segurança jurídica.
Síndicos que adotam soluções estruturadas e transparentes reduzem riscos de disputas judiciais, promovendo inovação sem comprometer a convivência coletiva.
“A sustentabilidade e a modernização não podem se sobrepor à legislação ou ao direito dos moradores. Planejamento técnico e respaldo jurídico são fundamentais para que o condomínio seja protagonista na transição para veículos elétricos”, conclui Felipe Faustino.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
Leia também: Sobrecarga elétrica: quem paga a conta?
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Comentários (1)
Jose Diogo de Almeida
15.10.2025 16:46Se não tiver energia solar ... o custo explode ... hoje numa casa ... o custo aumenta para um carro algo em torno de 800,00 a 1.000,00