O Brasil está aprendendo a morar sozinho. Mas os condomínios continuam preparados para famílias
O país já tem 15,6 milhões de pessoas vivendo sozinhas. A mudança no perfil das residências pode transformar a segurança, a convivência, os serviços e até o planejamento financeiro dos condomínios
O Brasil está passando por uma transformação silenciosa na maneira de morar. Segundo o IBGE, o número de residências ocupadas por apenas uma pessoa passou de 7,5 milhões, em 2012, para 15,6 milhões em 2025. Hoje, praticamente um em cada cinco domicílios brasileiros possui apenas um morador.
Enquanto isso, boa parte dos condomínios continua organizada para uma realidade familiar tradicional, com casais, filhos e rotinas domésticas compartilhadas. O problema não está na existência dessas famílias, mas na ausência de uma discussão sobre como os edifícios precisam se adaptar a uma população que está mudando.
O que os números revelam:
- Moradias com uma pessoa 15,6 mi; mais que o dobro de 2012;
- Participação nos domicílios 19,7%;
- Era 12,2% em 2012;
- Moradores sozinhos com 60+ 41,2%;
- Entre todos que vivem sozinhos;
- Domicílios unipessoais no Sudeste 20,9%;
- Acima da média nacional.
Outro dado chama atenção: entre as mulheres que vivem sozinhas, 56,5% têm 60 anos ou mais. Já entre os homens nessa condição, 56,6% estão na faixa dos 30 aos 59 anos. Isso demonstra que morar sozinho não é um fenômeno exclusivo da juventude ou da velhice, mas uma mudança que atravessa diferentes fases da vida.
Ao mesmo tempo, a verticalização avança. A proporção de brasileiros vivendo em apartamentos passou de 8,5% em 2010 para 12,5% em 2022.
O edifício continua o mesmo, mas sua população pode diminuir
Imagine um condomínio com 100 apartamentos, originalmente ocupados por três pessoas em média. São 300 moradores. Se metade das unidades passar a abrigar apenas uma pessoa, enquanto as demais mantêm três moradores, a população cai para 200, uma redução de 33%.
O condomínio continua com os mesmos elevadores, portões, bombas, funcionários e contratos. Algumas despesas de consumo podem diminuir, mas boa parte dos custos de manutenção permanece.
Esse exemplo hipotético demonstra algo importante: um edifício pode continuar completamente ocupado e, mesmo assim, ter uma população significativamente menor.
Isso também modifica a utilização das áreas comuns. Espaços projetados para famílias com crianças podem perder demanda, enquanto coworkings, lavanderias compartilhadas e ambientes de convivência passam a fazer mais sentido para determinados perfis de moradores.
Segurança: quem percebe uma emergência dentro do apartamento?
Quando alguém mora acompanhado, existe outra pessoa que pode perceber uma queda, um mal-estar ou uma emergência doméstica. Nas residências unipessoais, essa possibilidade desaparece.
Considerando que 41,2% das pessoas que moram sozinhas têm 60 anos ou mais, os condomínios deveriam discutir procedimentos para emergências, contatos familiares atualizados e treinamento das equipes de portaria.
Isso não significa transformar síndicos em cuidadores ou funcionários em responsáveis pela saúde dos moradores. Significa preparar a administração para agir corretamente quando uma situação excepcional for comunicada, respeitando a privacidade e os limites legais de sua atuação.
A economia de morar sozinho também merece atenção
Existe outra consequência pouco discutida. Quem mora sozinho normalmente precisa sustentar as despesas domésticas sem compartilhar os custos com outros residentes.
Aluguel ou financiamento, condomínio, energia, internet e alimentação podem ficar concentrados em uma única renda. No caso de aposentados, a situação pode ser especialmente delicada quando despesas extraordinárias surgem simultaneamente.
O crescimento das residências unipessoais não comprova maior inadimplência condominial, mas justifica uma investigação sobre a capacidade financeira dos proprietários, especialmente em edifícios antigos que necessitam de obras e modernizações.
Afinal, o custo de manutenção de um prédio não diminui necessariamente porque existem menos pessoas morando nele.
O condomínio precisa conhecer melhor quem mora nele
O crescimento das moradias unipessoais abre uma discussão sobre o futuro da administração condominial. Síndicos e administradoras conhecem a quantidade de unidades, vagas de garagem, funcionários e equipamentos, mas nem sempre possuem informações atualizadas sobre a composição geral da comunidade.
Quantas pessoas vivem sozinhas? Quantos moradores desejam cadastrar contatos de emergência? As áreas comuns continuam atendendo ao perfil dos residentes? A comunicação é acessível a diferentes faixas etárias?
Essas perguntas podem orientar melhorias sem exigir cadastros invasivos ou interferência na vida particular.
Os números nacionais ainda não permitem afirmar qual é a proporção de apartamentos condominiais ocupados por uma única pessoa. Essa informação exigiria uma pesquisa específica. Entretanto, a velocidade da transformação demográfica já justifica a discussão.
O mercado condominial passou décadas desenvolvendo soluções para controlar acessos, conservar estruturas e administrar despesas. Agora, precisará compreender melhor as pessoas que utilizam esses edifícios.
A grande questão é que o Brasil está mudando sua maneira de morar, enquanto muitos condomínios continuam sendo administrados a partir de um modelo familiar que já não representa toda a sociedade.
Talvez esteja chegando o momento de atualizar não apenas os prédios, mas também a maneira como entendemos seus moradores.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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