Guardas armados no hall são investimento ou insegurança jurídica?
Sensação de insegurança fez com que condomínios buscassem alternativas robustas para proteger moradores
Nos últimos anos, a sensação de insegurança nas grandes cidades brasileiras fez com que muitos condomínios buscassem alternativas robustas para proteger seus moradores.
Entre elas, a contratação de guardas armados passou a ser cogitada ou até mesmo implementada em prédios de médio e alto padrão. Mas será que essa decisão representa, de fato, um investimento em tranquilidade ou pode se transformar em um problema de insegurança jurídica para o condomínio?
Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024), o Brasil registrou mais de 1,5 milhão de ocorrências de roubos e furtos em áreas urbanas no último ano, com crescimento significativo em regiões metropolitanas como São Paulo e Rio de Janeiro.
Esse cenário pressiona síndicos e assembleias a adotarem medidas de segurança cada vez mais duras.
O dilema da segurança armada
Contratar vigilantes armados parece uma resposta lógica à criminalidade. Porém, a Lei 7.102/1983, que regulamenta a segurança privada no Brasil, determina que somente empresas autorizadas pela Polícia Federal podem oferecer esse serviço.
Ou seja, não basta contratar uma empresa de portaria tradicional: é preciso checar se ela possui registro, autorização e vigilantes devidamente credenciados.
Além disso, o condomínio deve ter ciência de que:
- O vigilante armado não pode agir como polícia; sua função é preventiva e restrita à área comum do prédio.
- O uso da arma só é legítimo em legítima defesa ou em situações de ameaça direta.
- O condomínio pode ser responsabilizado civil e criminalmente por excessos cometidos pelo profissional contratado.
Impacto financeiro: a cota extra
Manter vigilantes armados tem um custo alto. Estima-se que, em São Paulo, o valor mensal para um posto de segurança armada gire em torno de R$ 15 a R$ 20 mil. Em condomínios de médio porte, isso pode representar aumento de até 30% na taxa condominial ou mesmo a necessidade de cotas extras específicas para segurança.
De acordo com o advogado especialista em direito condominial Felipe Faustino, sócio do escritório Faustino e Teles “a segurança é uma prioridade legítima, mas o síndico não pode impor uma despesa dessa magnitude sem respaldo em assembleia. O Código Civil, em seu artigo 1.341, exige aprovação de maioria qualificada dos condôminos quando se trata de alterações que impactam significativamente os custos. Caso contrário, o condomínio pode ser questionado judicialmente.”
Riscos jurídicos
- Responsabilidade solidária – Se um vigilante armado agir de forma incorreta e ferir alguém, o condomínio pode responder solidariamente ao lado da empresa de segurança.
- Seguro condominial – Muitas apólices não cobrem incidentes envolvendo armas de fogo. É essencial revisar a apólice antes da contratação.
- Assembleias mal conduzidas – Decisões tomadas sem quórum correto podem ser anuladas judicialmente.
Dicas práticas para síndicos e moradores
- Checar a empresa: confirme se a prestadora tem autorização da Polícia Federal.
- Analisar alternativas: antes de investir em segurança armada, avalie portarias remotas, biometria e sistemas inteligentes de monitoramento.
- Simulação financeira: apresente aos condôminos uma previsão de impacto no orçamento, com comparativos de soluções.
- Revisar o seguro: certifique-se de que a apólice cobre incidentes envolvendo segurança armada.
- Assembleia clara e documentada: registre em ata detalhada a deliberação, com indicação de custos, riscos e responsabilidades.
Ter guardas armados no hall pode transmitir sensação de segurança imediata, mas também pode abrir margem para grandes riscos legais e financeiros.
A decisão deve ser tomada de forma transparente, com base em dados concretos, respaldo jurídico e ampla discussão em assembleia. Mais do que armamento, o que garante segurança é a combinação entre tecnologia, gestão responsável e cumprimento rigoroso da lei.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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