Condomínio como negócio de família: nepotismo e favorecimentos internos
Código Civil estabelece que o síndico deve prestar contas regularmente e agir com diligência, lealdade e transparência
A gestão condominial deveria se pautar pela transparência, imparcialidade e respeito aos interesses coletivos.
No entanto, alguns síndicos transformam o condomínio em uma espécie de negócio de família, favorecendo parentes, amigos ou empresas ligadas à própria família em contratos de obras, manutenção e serviços.
Segundo levantamento da Abrascondo (2024):
- 21% dos condôminos relatam suspeitas de favorecimento a empresas ligadas a síndicos ou conselheiros;
- 18% dos condomínios apresentaram contratos sem concorrência formal ou cotação múltipla nos últimos dois anos, o que aumenta o risco de superfaturamento e má gestão financeira.
Esse tipo de prática gera desconfiança, conflitos internos e insegurança jurídica, além de comprometer o bom funcionamento do condomínio.
O que diz a lei
O Código Civil (art. 1.348, VIII e IX) estabelece que o síndico deve prestar contas regularmente e agir com diligência, lealdade e transparência. Favorecer familiares ou amigos sem processo competitivo configura conflito de interesse e possível desvio de finalidade.
Além disso, decisões tomadas em assembleias podem ser anuladas judicialmente se houver comprovação de favorecimento ou violação dos princípios legais.
O advogado Felipe Faustino, especialista em direito condominial, afirma que “nepotismo e favorecimento interno corroem a credibilidade da gestão e podem gerar responsabilidade civil e penal. O condomínio é uma entidade coletiva, não propriedade pessoal do síndico ou de seus familiares.”
Como identificar e prevenir o nepotismo
- Exigir transparência em contratos: todos os serviços devem ter orçamentos múltiplos e justificativas documentadas;
- Auditoria independente: contratar empresas externas para verificar contabilidade e contratos;
- Assembleias claras e documentadas: aprovação de obras e serviços deve ocorrer com registro formal de votações;
- Rotatividade no conselho e na gestão: evitar que grupos familiares ou restritos concentrem poder;
- Denúncia formal: condôminos podem recorrer ao judiciário ou Ministério Público em casos de abuso ou fraude.
Impactos e riscos
- Financeiros: superfaturamento, uso inadequado de recursos e aumento das taxas condominiais;
- Sociais: clima de hostilidade, perda de confiança e exclusão de moradores que questionam a gestão;
- Legais: anulação de deliberações, responsabilização civil ou até criminal de gestores.
Transformar um condomínio em negócio familiar representa desvio de finalidade e violação da confiança coletiva. Transparência, fiscalização ativa e participação dos condôminos são essenciais para prevenir abusos e garantir que todos os moradores usufruam dos espaços e serviços de forma justa.
Felipe Faustino reforça que “o síndico não é dono do condomínio”.
“Favorecimentos internos ferem princípios básicos de gestão condominial e podem gerar graves consequências jurídicas. A fiscalização e a participação ativa dos moradores são as melhores ferramentas contra esse tipo de abuso”, acrescenta.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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