A bola não entra por acaso?
Modelo classifica partidas em 34 padrões de jogo e identificou antecipadamente os gols do Real Madrid na Champions League
Um sistema capaz de representar toda a complexidade tática de uma partida de futebol em apenas 34 categorias de configuração foi desenvolvido por pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo.
A ferramenta, criada pelo pesquisador Rene Drezner sob orientação de Luiz Eduardo Pinto Basto Tourinho Dantas, analisa simultaneamente os 22 jogadores em campo e permite identificar desequilíbrios táticos antes mesmo de eles se converterem em gols. O modelo foi testado na final da Liga dos Campeões da Europa de 2024, entre Real Madrid e Borussia Dortmund.
Da estatística isolada ao tabuleiro tático
Análises convencionais de desempenho no futebol costumam trabalhar com indicadores independentes, como distância percorrida, velocidade de corrida ou percentual de posse de bola. Esse tipo de abordagem tende a simplificar um fenômeno complexo, reduzindo-o a dicotomias ou dados pontuais que não capturam a interação real entre as equipes.
O modelo proposto por Drezner parte de um princípio diferente. Em vez de registrar variáveis contínuas, ele classifica o jogo em estados táticos discretos — categorias bem definidas que combinam fatores como a zona de progressão da bola, o grau de pressão exercida pelo adversário sobre o portador e a proximidade de uma condição de finalização. Cada combinação gera o que o pesquisador chama de “fotografia tática única”.
“Dentro do meu modelo, foram criadas 34 classes de configuração. A partir da transição entre estas classes, eu descrevo a evolução do jogo. Seria como reduzir todas as possibilidades de interação do jogo de futebol em apenas 34 – como se fosse o tabuleiro de um jogo – e analisar a evolução do jogo a partir das movimentações deste tabuleiro”, explicou Drezner ao Jornal da USP.
O conceito que sustenta toda a construção teórica é o de “metaestabilidade”: o futebol não se fixa em um estado de equilíbrio permanente, mas oscila continuamente entre configurações temporariamente estáveis. Mapear essas oscilações, e não apenas os momentos de desequilíbrio explícito, é o que diferencia o modelo de ferramentas anteriores.
Final europeia serve de laboratório
Para validar a ferramenta, os pesquisadores aplicaram o modelo à final da Champions League 2023/24, disputada entre Real Madrid e Borussia Dortmund, vencida pelos espanhóis por 2 a 0. A partida foi codificada e analisada de forma sequencial, permitindo rastrear os fluxos de transição entre os estados táticos ao longo dos 90 minutos.
De acordo com informações da EEFE/USP, o Real Madrid manteve a maior parte de suas transições próximas à região de equilíbrio durante o jogo, mas passou a alcançar estados de desequilíbrio favoráveis com frequência crescente no quinto período da partida — intervalo em que a equipe marcou seus dois gols.
O Borussia Dortmund, por sua vez, apresentou desempenho positivo no segundo período, com maior ocorrência de ações favoráveis. No entanto, foi justamente no quinto período que o time alemão registrou seu pior aproveitamento com a posse de bola, acumulando transições em regiões de desequilíbrio a favor do adversário.
O modelo também sinalizou possíveis ajustes estratégicos ao longo da partida. Segundo a pesquisa, a diminuição de estados associados ao jogo contra a marcação adiantada do Dortmund no início do segundo tempo pode indicar uma mudança na orientação defensiva do Real Madrid — algo que, em análises convencionais, dificilmente seria identificado com essa precisão.
Aplicações para treinadores e analistas
O pesquisador aponta dois usos práticos para a ferramenta. O primeiro é a identificação e quantificação de estados-chave. “Classes de configuração que indiquem uma situação de vantagem ou desvantagem. Isto reduziria a análise a estes pontos específicos. Por exemplo, identificar as configurações em que a equipe com a posse de bola tem condição de finalizar ao gol em uma situação vantajosa”, afirmou Drezner.
O segundo uso é o rastreamento de padrões de evolução do jogo entre classes. “Assim, poderia ser identificado um estado inicial gerador de uma situação vantajosa ou não. Por exemplo, identificar uma configuração de jogo em que a equipe com a posse de bola está em uma zona intermediária do campo de jogo geradora de situações de finalização”.
Às vezes, no entanto, a bola entra por acaso.
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(Os resultados integram a tese de doutorado de Drezner, intitulada “Análise da interação entre as equipes no jogo de futebol por sistemas dinâmicos categóricos”, disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.)
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