Vinte moedas apareceram no antigo bairro inglês de Roma e sugerem que estrangeiros recebiam um tratamento financeiro especial do papa
Escavações próximas ao Vaticano revelam vestígios de comércio e levantam novas hipóteses sobre os privilégios econômicos dos ingleses na Roma medieval
Escavações próximas ao Vaticano revelaram 20 moedas anglo-saxônicas do século X, acompanhadas de vestígios de atividades artesanais. A descoberta oferece novas evidências sobre a Schola Saxonum, comunidade inglesa estabelecida em Roma durante a Alta Idade Média, e levanta uma possibilidade intrigante: seus moradores talvez pudessem utilizar dinheiro inglês sem precisar convertê-lo à moeda local.
Onde as moedas anglo-saxônicas foram encontradas em Roma?
As moedas anglo-saxônicas apareceram em escavações iniciadas em 2020 sob o jardim murado do Palazzo della Rovere, próximo à Basílica de São Pedro. O mesmo sítio ganhou destaque em 2023 pela identificação de estruturas associadas ao teatro do imperador Nero. Dessa vez, porém, os vestígios pertenciam a um período muito posterior, marcado pela presença de comunidades estrangeiras na cidade.
O conjunto reúne 19 pennies de prata e um halfpenny, cunhados durante os reinados de Eduardo, o Velho (899–924), Æthelstan (924–939) e Eadred (946–955). A análise numismática identificou origens em regiões como East Anglia, Kent, Londres e West Midlands, demonstrando conexões monetárias entre diferentes partes da Inglaterra e Roma.
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O que as moedas revelam sobre a Schola Saxonum?
A Schola Saxonum era uma instituição ligada à presença anglo-saxônica nas proximidades de São Pedro, conhecida principalmente por documentos medievais. Funcionava como ponto de acolhimento para peregrinos e estava associada a uma comunidade que mantinha relações religiosas, sociais e econômicas com Roma.
O contexto arqueológico sugere atividades mais variadas que a simples hospedagem. Os pesquisadores encontraram objetos associados ao trabalho com couro, ossos e metais, distribuídos por uma área de pelo menos 3 mil metros quadrados. Entre os principais vestígios estão:
- 19 pennies de prata anglo-saxônicos;
- Um halfpenny de valor reduzido;
- Dois agrupamentos de moedas fundidas;
- Vestígios de produção artesanal;
- Outras dez moedas de diferentes períodos.
Um vídeo apresenta as escavações do Palazzo della Rovere, embora seu foco sejam os vestígios romanos encontrados no mesmo sítio.
Por que as moedas anglo-saxônicas indicam circulação comercial?
Quatorze peças estavam reunidas em dois grupos de seis e oito moedas, encontrados em fossas de descarte. Depois de aproximadamente mil anos enterradas, algumas ficaram aderidas umas às outras. As seis restantes apareceram dispersas nas proximidades, circunstância importante para interpretar seu uso.
A distribuição favorece a hipótese de perdas durante transações cotidianas, em vez de um tesouro deliberadamente escondido. O halfpenny é especialmente interessante por representar uma denominação pequena, associada a pagamentos de menor valor. Entretanto, as moedas não permitem identificar compradores, mercadorias ou a frequência exata das transações.
O papa realmente concedeu privilégios financeiros aos ingleses?
A presença de dinheiro estrangeiro em circulação levantou a hipótese de um tratamento monetário excepcional. Segundo relatos históricos, visitantes costumavam trocar suas moedas por dinheiro utilizado nos territórios papais. A descoberta sugere que parte dos residentes da Schola Saxonum talvez estivesse dispensada dessa exigência, embora nenhuma autorização monetária específica tenha sido identificada.
Existe um precedente documental importante. O cronista Asser registrou que, em 883, o papa Marino I concedeu à comunidade uma isenção de tributos e pedágios, atendendo a um pedido de Alfredo, o Grande. A pesquisa divulgada pela Universidade de Cambridge relaciona esse contexto diplomático às moedas, mas não demonstra que a antiga isenção abrangia o direito de utilizar dinheiro inglês.

Quais evidências mostram a importância do bairro inglês medieval?
A combinação de vestígios monetários e artesanais amplia a compreensão da comunidade. Antes das escavações, sua existência era conhecida sobretudo por registros escritos. Agora, os objetos encontrados permitem investigar atividades concretas e sugerem uma ocupação economicamente ativa, embora ainda não seja possível determinar com segurança o tamanho da população.
O estudo foi desenvolvido por Marzia Di Mento, Rory Naismith, Valentina Pica, Filippo Salamone e Francesca Tinti. Os resultados aparecem no volume Roma e gli altri (300–1000), publicado em 2026. As principais evidências podem ser organizadas da seguinte forma:
Como a descoberta modifica a história dos ingleses em Roma?
A Schola Saxonum não parece ter funcionado exclusivamente como alojamento temporário para peregrinos. A presença de moedas perdidas, oficinas e materiais de trabalho sustenta a interpretação de um espaço utilizado regularmente por pessoas envolvidas em diferentes atividades econômicas.
O bairro também evidencia vínculos duradouros entre governantes anglo-saxônicos e o papado. A descoberta não comprova uma política monetária especial, mas acrescenta elementos materiais à discussão sobre privilégios, integração e circulação de riqueza na Roma medieval. Novas análises poderão esclarecer como essas relações funcionavam na prática.
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