Uma serpente consegue saltar de árvores e transformar o próprio corpo numa superfície que plana sem ter asas
Serpentes asiáticas achatam o corpo e realizam ondulações no ar para controlar a descida, revelando uma estratégia aerodinâmica incomum entre vertebrados
Uma serpente-voadora do gênero Chrysopelea consegue saltar de árvores, achatar o corpo e percorrer distâncias surpreendentes pelo ar sem possuir asas. Encontradas no sul e sudeste da Ásia, essas serpentes utilizam movimentos ondulatórios para controlar a descida. Pesquisas com câmeras de alta velocidade demonstraram que essa combinação de anatomia e movimento produz sustentação aerodinâmica, permitindo deslocamentos entre árvores.
Como a serpente-voadora consegue saltar de árvores sem possuir patas?
As serpentes do gênero Chrysopelea vivem principalmente em ambientes arborizados, onde precisam atravessar espaços entre galhos. Diferentemente de mamíferos planadores, não apresentam membranas entre os membros, utilizando exclusivamente a musculatura e a flexibilidade corporal para realizar seus deslocamentos.
Antes de saltar, a serpente geralmente curva a parte anterior do corpo, formando uma estrutura semelhante à letra J. Em seguida, impulsiona-se para fora do galho e começa a modificar sua postura. Essa transformação acontece rapidamente, preparando o corpo para interagir com o fluxo de ar.
Por que a serpente-voadora transforma o corpo numa superfície achatada?
Durante o salto, o animal expande lateralmente as costelas e comprime o corpo de cima para baixo. A seção transversal, originalmente arredondada, assume um formato aerodinâmico capaz de produzir sustentação e resistência ao avanço, reduzindo a velocidade de queda.
O movimento reúne cinco características fundamentais:
- O salto começa com uma curvatura corporal semelhante à letra J;
- As costelas se movimentam para ampliar a largura do corpo;
- A seção transversal assume um formato aerodinâmico;
- Ondulações horizontais percorrem a serpente durante a descida;
- Movimentos verticais ajudam a estabilizar sua orientação.
O vídeo How flying snakes glide: Swimming through the air, publicado pelo canal científico Nature Video em junho de 2020, apresenta imagens reais das serpentes e explica os experimentos realizados pelos pesquisadores.
Como as ondulações permitem que a serpente-voadora controle sua trajetória?
O achatamento produz forças aerodinâmicas, mas não garante estabilidade. Durante o deslocamento, a serpente realiza ondulações semelhantes às utilizadas para nadar, modificando continuamente sua posição em relação ao ar.
Os pesquisadores descobriram que existem movimentos horizontais e verticais simultâneos. As ondulações verticais ocorrem com frequência aproximadamente duas vezes maior que as horizontais. Essa combinação ajuda a controlar rotações indesejadas, evitando que o animal perca sua orientação e caia descontroladamente.
Qual estudo científico explicou o funcionamento aerodinâmico da serpente-voadora?
Um estudo publicado na revista Nature Physics, em junho de 2020, investigou a espécie Chrysopelea paradisi. A pesquisa foi conduzida por Isaac Yeaton, Shane Ross, Grant Baumgardner e Jake Socha, da Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos.
A equipe utilizou 23 câmeras de alta velocidade para registrar 131 deslocamentos. Marcadores refletivos distribuídos pelo corpo permitiram reconstruir os movimentos em três dimensões. Nas simulações, a retirada das ondulações provocou instabilidade, enquanto sua manutenção melhorou o controle e a distância percorrida.

Quais números mostram a capacidade de deslocamento da serpente-voadora?
Nos experimentos de 2020, as serpentes saltaram de aproximadamente 8,2 metros de altura. Cada animal recebeu entre 11 e 17 marcadores refletivos, permitindo acompanhar mudanças de postura durante toda a trajetória.
Em pesquisas anteriores, realizadas com saltos de aproximadamente 9,6 metros, Chrysopelea paradisi percorreu em média 10,14 metros horizontalmente. Outros registros indicam deslocamentos superiores a 20 metros, dependendo da altura inicial, das condições ambientais e das características individuais.
| Indicador científico | Resultado documentado |
|---|---|
| Espécie estudada | Chrysopelea paradisi |
| Deslocamentos filmados em 2020 | 131 |
| Câmeras utilizadas | 23 |
| Altura dos saltos no experimento | Aproximadamente 8,2 metros |
| Distância horizontal média em estudo anterior | 10,14 metros |
Por que a serpente-voadora pode inspirar novas tecnologias de robótica?
O comportamento demonstra que superfícies aerodinâmicas não precisam ser rígidas ou apresentar asas convencionais. A capacidade de modificar continuamente a forma corporal pode inspirar robôs flexíveis destinados a atravessar obstáculos e realizar manobras em ambientes complexos.
Entretanto, essas serpentes não realizam voo motorizado como aves ou morcegos. Elas dependem da altura inicial e da gravidade para planar. Pesquisas recentes também mostram que modelos aerodinâmicos simplificados ainda apresentam limitações para explicar todas as forças envolvidas, indicando que o funcionamento completo desse movimento continua sendo investigado.
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