Uma peça de mil anos saiu do solo com cabelos de serpente gravados e arqueólogos encontraram uma “Medusa” inesperada na Rússia medieval
Medalhão do século XI combina um possível santo guerreiro cristão com uma figura semelhante à Medusa e revela antigas conexões com Bizâncio
Em uma escavação na cidade histórica de Staraya Russa, no noroeste da Rússia, arqueólogos encontraram um amuleto de aproximadamente mil anos com uma figura feminina cercada por cabelos semelhantes a serpentes. A imagem lembra Medusa, personagem da mitologia grega, mas divide o objeto com a representação de um santo cristão. Datado do século XI, o amuleto de serpentes revela como símbolos antigos continuaram presentes na cultura material da Rússia medieval.
Onde o amuleto de serpentes foi encontrado na Rússia?
A descoberta aconteceu no sítio arqueológico de Pyatnitsky, em Staraya Russa, durante escavações conduzidas por pesquisadores da Universidade Estadual de Novgorod. O objeto apareceu em uma antiga propriedade urbana, numa camada arqueológica correspondente ao século XI, quando aquela parte da cidade começava a ser ocupada por construções.
A peça foi fabricada com uma liga metálica à base de cobre e pertence à categoria dos zmeeviki, medalhões conhecidos por combinar imagens religiosas e figuras serpentinas. Outros quatro exemplares semelhantes já haviam sido encontrados na cidade, mas pertenciam aos séculos XII a XIV. O novo achado representa um testemunho local significativamente mais antigo.
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Por que uma figura parecida com Medusa apareceu num objeto cristão?
Na mitologia grega, Medusa era uma das Górgonas, frequentemente representada com serpentes no lugar dos cabelos. Sua imagem atravessou diferentes períodos históricos e apareceu em objetos associados à proteção contra perigos. Durante a Idade Média, alguns desses motivos foram reinterpretados em contextos cristãos, especialmente no mundo bizantino.
No medalhão russo, entretanto, os pesquisadores não identificaram necessariamente uma representação literal da personagem mitológica. A cabeça feminina pode simbolizar forças ameaçadoras ou maléficas. A interpretação depende da comparação com outros objetos e das tradições visuais que circularam entre Bizâncio e os territórios eslavos.
Entre os elementos identificados estão:
- Cabeça feminina com cabelos serpentinos;
- Santo guerreiro segurando lança e escudo;
- Liga metálica composta principalmente de cobre;
- Decoração em relevo nas duas faces;
- Características associadas a amuletos bizantinos.

Quem é o santo guerreiro representado no medalhão?
Uma das faces apresenta uma figura masculina armada, provavelmente São Teodoro Estratelata, santo militar venerado na tradição cristã oriental. Suas representações frequentemente incluem equipamentos de combate, como lanças e escudos, associados à sua identidade religiosa.
A possível identificação ganha significado porque tradições relacionadas a Teodoro incluem o enfrentamento de uma serpente monstruosa. Essa associação poderia explicar a presença de imagens aparentemente opostas no medalhão. Entretanto, não existe uma inscrição identificando diretamente o santo, e a interpretação permanece baseada na iconografia.
O que a Universidade de Novgorod revelou sobre o objeto?
Em comunicado publicado em 5 de agosto de 2026, a Universidade Estadual de Novgorod apresentou a descoberta e destacou sua importância para compreender as primeiras comunidades cristãs de Staraya Russa. O arqueólogo Sergey Toropov explicou que a combinação de imagens cristãs e serpentinas constitui uma característica desses amuletos medievais.
Segundo os pesquisadores, objetos semelhantes chegaram à antiga Rus por influência bizantina. Alguns exemplares conhecidos apresentam inscrições gregas de caráter protetor, sugerindo utilização contra doenças e outros perigos. No entanto, não foi demonstrado que o medalhão recém-descoberto possuísse inscrições ou que seu proprietário realizasse práticas religiosas específicas.
Por que o amuleto de serpentes ajuda a compreender a Rússia medieval?
A descoberta indica que tradições cristãs e elementos visuais anteriores ao cristianismo podiam coexistir em objetos pessoais. Essa combinação não significa necessariamente conflito religioso: os símbolos poderiam receber novos significados conforme circulavam entre diferentes comunidades.
O contexto arqueológico também sugere atividades artesanais e contatos culturais relativamente estabelecidos. Os pesquisadores consideram possível que a peça tenha sido produzida localmente, utilizando modelos de origem bizantina. Sua composição em cobre indica um objeto diferente dos exemplares mais valiosos fabricados em prata ou ouro.
Como símbolos da Antiguidade sobreviveram durante a expansão do cristianismo?
A transformação religiosa da antiga Rus não eliminou imediatamente todas as tradições anteriores. Imagens, objetos e práticas protetoras continuaram circulando, algumas vezes reinterpretados dentro de novos contextos culturais. Os amuletos serpentinos exemplificam essa continuidade, reunindo referências de diferentes origens em uma única peça.
O medalhão também oferece evidências materiais dos contatos entre Staraya Russa e o mundo bizantino. Sua descoberta não comprova que os habitantes venerassem Medusa, mas mostra como motivos associados à Antiguidade podiam sobreviver por meio de adaptações religiosas. O objeto preserva, assim, um testemunho das mudanças culturais ocorridas no início da Rússia medieval.
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