Uma estrada de pedra sobe uma montanha japonesa por florestas e santuários
Rotas históricas da península de Kii conectam florestas, santuários e caminhos percorridos por peregrinos durante séculos
Na península de Kii, ao sul de Osaka e Kyoto, caminhos antigos atravessam florestas densas, vales, aldeias e montanhas até alguns dos santuários mais importantes do Japão. Conhecida como Kumano Kodo, essa rede de peregrinação é usada há mais de mil anos e preserva trechos de pedra, escadarias e passagens que testemunham uma tradição religiosa ainda viva.
Por que o Kumano Kodo atravessa montanhas consideradas sagradas?
Kumano ocupa uma região montanhosa marcada por rios, cachoeiras e florestas. Durante séculos, essa paisagem foi associada a práticas religiosas que reuniram elementos do xintoísmo, do budismo e, posteriormente, do Shugendō, tradição ascética profundamente ligada às montanhas japonesas.
A peregrinação não tinha apenas um destino. Caminhar por terrenos difíceis, realizar rituais e atravessar determinados lugares fazia parte da experiência religiosa. Por isso, o percurso entre os centros sagrados assumiu importância comparável à própria chegada aos santuários.
Como o Kumano Kodo passou a receber peregrinos há mais de mil anos?
Documentos indicam que as peregrinações organizadas ganharam destaque principalmente entre os séculos XI e XII. Imperadores retirados e membros da aristocracia viajaram repetidamente até Kumano, acompanhados por grandes comitivas, embora pessoas de diferentes camadas sociais também tenham percorrido essas rotas ao longo do tempo.
Nakahechi tornou-se uma das principais vias de acesso ao conjunto conhecido como Kumano Sanzan. O caminho atravessa áreas montanhosas e conecta os três grandes santuários de Kumano, formando uma das partes mais conhecidas da atual rede de peregrinação.
- Kumano Hongu Taisha;
- Kumano Hayatama Taisha;
- Kumano Nachi Taisha;
- Trilhas por florestas e passos de montanha;
- Pequenos santuários e locais históricos ao longo do caminho.
Este vídeo apresenta os locais sagrados e as rotas de peregrinação da península de Kii.
Por que alguns trechos do Kumano Kodo foram pavimentados com pedras?
Nem toda a rede histórica é formada por estradas de pedra. Há caminhos de terra, trilhas florestais e seções pavimentadas. Em determinadas áreas, pedras ajudavam a criar uma superfície mais resistente diante das chuvas intensas, da erosão e da passagem frequente de peregrinos.
Um dos exemplos mais conhecidos é Daimon-zaka, perto do Kumano Nachi Taisha. A subida possui aproximadamente 600 metros de escadaria pavimentada, com cerca de 267 degraus, cercada por cedros japoneses, ciprestes e outras árvores que reforçam a aparência monumental da passagem.
O que torna essas rotas diferentes de uma simples estrada antiga?
O valor histórico não está apenas na idade das pedras. As trilhas conectam santuários, templos e paisagens consideradas espiritualmente importantes, criando um sistema no qual natureza, arquitetura e práticas religiosas permaneceram associadas durante muitos séculos.
Em 2004, a UNESCO reconheceu os Locais Sagrados e Rotas de Peregrinação nas Montanhas de Kii como Patrimônio Mundial. O conjunto inclui Kumano Sanzan, Koyasan e Yoshino-Omine, além das rotas que conectam esses centros religiosos e preservam uma tradição documentada por mais de 1.200 anos.

O que ainda pode ser visto nos antigos caminhos de peregrinação?
Quem percorre partes da rede atualmente encontra marcos religiosos, pequenos santuários conhecidos como oji, escadarias, calçamentos antigos e trechos que passam por comunidades rurais. Algumas rotas exigem caminhadas longas e difíceis, enquanto outras permitem experiências muito mais curtas.
Daimon-zaka é um desses trechos acessíveis. A subida conduz em direção ao complexo de Kumano Nachi Taisha e ao templo Seiganto-ji, próximo da famosa cachoeira Nachi. O cenário atual combina patrimônio construído e vegetação que continua desempenhando papel central na experiência do percurso.
Por que o Kumano Kodo continua sendo percorrido atualmente?
As antigas rotas não foram transformadas apenas em vestígios arqueológicos. Peregrinos, moradores e caminhantes continuam utilizando muitos trechos, mantendo a ligação entre deslocamento físico, paisagem e espiritualidade que caracteriza Kumano há séculos.
Essa continuidade ajuda a explicar seu valor patrimonial. Caminhar hoje pelas pedras cobertas de musgo não significa reproduzir exatamente a experiência medieval, mas atravessar uma paisagem cultural em que trilhas, santuários, florestas e rituais ainda permanecem conectados.
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