Uma escavação feita com moradores encontrou oficinas, edifícios e sinais de um mosteiro escocês que por séculos existia quase só em textos e tradição local
Escavações comunitárias revelaram oficinas de metalurgia, edifícios e sepultamentos que confirmam a importância de um antigo centro cristão escocês
Durante séculos, a existência de um importante mosteiro medieval em uma pequena ilha da Escócia era conhecida principalmente por documentos históricos e tradições transmitidas entre gerações. Entretanto, faltavam vestígios suficientes para compreender onde os religiosos viviam e como funcionava a comunidade. Essa situação começou a mudar quando moradores e arqueólogos descobriram oficinas de metalurgia, sepultamentos e construções antigas em Lios Mòr, também chamada de Lismore. Os resultados, publicados em outubro de 2026, revelaram que o local fundado no século VI provavelmente foi um centro religioso e artesanal muito mais importante do que se imaginava.
Como o mosteiro de Lios Mòr finalmente apareceu nas escavações?
As primeiras evidências decisivas surgiram durante um projeto de arqueologia comunitária iniciado em 2016 pela Sociedade Histórica de Lismore. Moradores trabalharam ao lado de especialistas para investigar os terrenos próximos à antiga Catedral de Argyll, construída no século XIII.
As escavações começaram pelas estruturas da catedral, mas logo avançaram para áreas vizinhas. Em 2018 e 2019, os pesquisadores identificaram sepultamentos medievais, restos de construções e materiais relacionados a atividades artesanais. As descobertas deram consistência arqueológica à tradição de que um mosteiro cristão existira naquele lugar muito antes da catedral.
Quais objetos encontrados em Lios Mòr revelaram oficinas medievais?
Uma das descobertas mais importantes ocorreu em uma área de trabalho próxima a uma construção oval. Os arqueólogos recuperaram centenas de fragmentos de moldes, cadinhos utilizados para aquecer metais e objetos cuidadosamente trabalhados em osso e madeira.
Esses materiais indicam atividades artesanais especializadas. Os moldes apresentam características compatíveis com a fabricação de broches ornamentais, enquanto outros vestígios sugerem trabalhos com metais preciosos, incluindo ouro e prata.
Entre os principais achados estão:
- Construção oval com aproximadamente oito metros de diâmetro;
- Moldes utilizados na fabricação de objetos metálicos;
- Cadinhos associados ao trabalho com metais;
- Fragmentos de ossos com padrões ornamentais;
- Objetos de madeira preservados em solo úmido;
- Sepultamentos dos primeiros séculos medievais.

Por que esse mosteiro teve tanta importância na Escócia medieval?
A tradição histórica associa a fundação do mosteiro a São Mo Luóc, também conhecido como Moluag, missionário cristão que atuou durante o século VI. Sua morte foi registrada em anais irlandeses no ano de 592.
O estabelecimento surgiu em uma região vinculada ao reino gaélico de Dál Riata, que mantinha conexões entre o oeste da Escócia e a Irlanda. Os novos achados sugerem que Lios Mòr participava dessas redes religiosas e culturais, reunindo atividades espirituais e produção artesanal especializada.
O que os pesquisadores confirmaram sobre o antigo centro religioso?
O estudo publicado na revista Antiquity, em outubro de 2026, foi desenvolvido por pesquisadores como Clare Ellis, da Argyll Archaeology, e Gordon Noble, da Universidade de Aberdeen.
A equipe combinou escavações, levantamentos geofísicos e análises de materiais para reconstruir a organização do sítio. Os resultados apontam para um centro eclesiástico de elevado prestígio, comparável em certos aspectos a importantes estabelecimentos religiosos da Irlanda e da Escócia. Entretanto, ainda não foi possível determinar os limites completos do mosteiro nem identificar todas as construções utilizadas pela comunidade.
Quais estruturas mostram como funcionava a vida no mosteiro?
Os pesquisadores identificaram uma construção oval com paredes de pedra seca, entrada estreita e piso revestido por lajes de calcário. Nas proximidades, encontraram depósitos ricos em carvão e resíduos associados à produção artesanal.
O antigo cemitério também revelou sepultamentos orientados aproximadamente no sentido leste-oeste. As datações por radiocarbono indicaram enterramentos entre os séculos VII e XI, demonstrando que a região continuou sendo utilizada durante vários séculos.
| Evidência encontrada | Interpretação arqueológica |
|---|---|
| Construção oval de 8 metros | Edifício de função ainda investigada. |
| Moldes e cadinhos | Produção artesanal especializada. |
| Ossos ornamentados | Trabalho artístico de alta qualidade. |
| Sepultamentos medievais | Uso funerário entre os séculos VII e XI. |
| Fragmentos de cruzes | Expressões artísticas do cristianismo insular. |
Como a participação dos moradores mudou a história de Lios Mòr?
O projeto demonstra como comunidades locais podem contribuir diretamente para descobertas científicas. Voluntários participaram das escavações, ajudaram na organização das atividades e apoiaram a preservação dos materiais encontrados.
A colaboração permitiu investigar um lugar que durante muito tempo recebeu menos atenção do que outros centros religiosos, como Iona. Agora, os pesquisadores pretendem aprofundar o estudo das oficinas, dos sepultamentos e das possíveis áreas de delimitação do antigo mosteiro. A descoberta não significa que todos os seus edifícios foram localizados, mas confirma que Lios Mòr abrigou atividades religiosas e artesanais complexas, oferecendo uma nova perspectiva sobre a formação das comunidades cristãs no oeste da Escócia.
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