Uma equipe queimou os próprios pergaminhos de teste para aprender a ler documentos carbonizados sem destruir os originais antigos
Pesquisadores carbonizaram réplicas de papiros romanos e descobriram que pequenas quantidades de chumbo na tinta facilitam a leitura de manuscritos por raios X
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley produziram rolos de papiro, escreveram sobre eles e depois os carbonizaram em um forno para investigar documentos com quase 2 mil anos. O experimento, publicado em setembro de 2026, demonstrou que pequenas quantidades de chumbo na tinta podem tornar letras visíveis em exames de raios X. Os papiros de Herculano, preservados após a erupção do Vesúvio em 79 d.C., poderão se beneficiar dessa técnica sem precisar ser fisicamente desenrolados.
Por que os pesquisadores decidiram queimar papiros modernos em laboratório?
A experiência foi idealizada por Douglas Seiler, pesquisador associado ao Berkeley SETI, para reproduzir as condições dos manuscritos encontrados na antiga cidade romana de Herculano. Muitos desses documentos permaneceram carbonizados durante quase dois milênios, tornando-se extremamente frágeis e difíceis de manusear.
Para preparar as réplicas, a equipe utilizou papiro e penas de junco provenientes do Egito, além de tinta tradicional à base de fuligem. Voluntários escreveram passagens conhecidas nos materiais, que posteriormente foram enrolados e aquecidos em um recipiente com pouco oxigênio. O procedimento carbonizou os documentos sem transformá-los completamente em cinzas.
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Como os cientistas conseguiram recuperar palavras depois de queimar os rolos?
A principal dificuldade estava na composição química dos materiais. Como a tinta tradicional e o papiro carbonizado contêm carbono, ambos podem apresentar contrastes muito semelhantes nas imagens tomográficas. Os pesquisadores decidiram acrescentar concentrações controladas de chumbo à tinta para investigar se esse elemento facilitaria a identificação das letras.
O experimento combinou diferentes etapas de preparação e leitura:
- Produção de rolos com materiais semelhantes aos utilizados na Antiguidade
- Preparação de tintas com diferentes concentrações de chumbo
- Carbonização controlada em ambiente com pouco oxigênio
- Escaneamento tridimensional por tomografia de raios X
- Reconstrução digital das camadas para visualizar os textos
O vídeo Reading the Herculaneum Papyri: Yesterday, Today, and Tomorrow, apresentado pelo pesquisador Brent Seales no Getty Center, explica como a leitura virtual permite investigar manuscritos carbonizados sem desenrolá-los. A apresentação é anterior ao experimento de 2026, mas aborda a tecnologia utilizada nesse campo de pesquisa.
Por que pequenas quantidades de chumbo fizeram as letras aparecerem?
O chumbo absorve raios X com intensidade muito superior à do carbono. Nos testes, a tinta contendo esse elemento chegou a apresentar contraste aproximadamente 25 vezes maior que o papiro carbonizado, permitindo distinguir caracteres que seriam difíceis de visualizar com materiais compostos apenas por carbono.
Os cientistas conseguiram identificar concentrações de apenas 25 microgramas de chumbo por centímetro quadrado. Também demonstraram que equipamentos portáteis de fluorescência de raios X poderiam detectar o elemento nos documentos, ajudando a selecionar quais manuscritos merecem exames tomográficos detalhados.
O que o estudo científico comprovou sobre a leitura de papiros carbonizados?
Publicado em 16 de setembro de 2026 na revista PLOS ONE, o estudo A model carbonized papyrus scroll opens a novel path to identifying readable scrolls of the Herculaneum Library demonstrou que réplicas carbonizadas podem ser desenroladas digitalmente e ter seus textos recuperados por meio da tomografia.
A reconstrução utilizou um programa originalmente desenvolvido para examinar camadas internas de baterias de íons de lítio. Adaptado aos papiros, o software acompanhou suas superfícies enroladas e produziu representações planas das inscrições. Entretanto, os resultados ainda precisam ser testados sistematicamente nos manuscritos originais de Herculano.

Quais técnicas foram utilizadas para estudar os manuscritos queimados?
A pesquisa reuniu métodos químicos, físicos e computacionais. Cada procedimento desempenhou uma função específica, desde a preparação das amostras até a recuperação visual das letras escondidas.
| Técnica | Função no experimento |
|---|---|
| Carbonização controlada | Reproduzir o estado dos papiros antigos |
| Tinta com chumbo | Criar contraste entre letras e suporte |
| Tomografia de raios X | Reconstruir as camadas internas em 3D |
| Fluorescência de raios X | Identificar chumbo sem abrir os rolos |
| Desenrolamento virtual | Transformar superfícies curvas em imagens legíveis |
O que ainda impede a leitura de todos os papiros de Herculano?
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ainda desconhecem a frequência com que tintas contendo chumbo foram utilizadas na biblioteca romana. Manuscritos escritos exclusivamente com carbono continuam apresentando dificuldades, exigindo algoritmos capazes de reconhecer diferenças extremamente sutis nas imagens.
A fabricação de réplicas oferece uma alternativa para aperfeiçoar essas ferramentas sem colocar objetos históricos em risco. Enquanto os exemplares antigos permanecem protegidos, os testes modernos podem fornecer dados para melhorar a detecção de letras e ampliar o acesso a obras filosóficas, literárias e científicas preservadas desde a erupção do Vesúvio.
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