Uma empresa tenta recriar o dodô mais de 360 anos depois da extinção usando DNA, edição genética e aves vivas como ponto de partida
Colossal Biosciences cultiva células reprodutivas de pombos e identifica possíveis alterações genéticas para tentar recriar características da ave extinta
Mais de 360 anos depois da extinção do dodô, uma empresa norte-americana tenta recriar características dessa ave utilizando DNA antigo, inteligência artificial e engenharia genética. A desextinção do dodô, conduzida pela Colossal Biosciences, avançou com o cultivo de células reprodutivas de pombos e a identificação de milhares de possíveis alvos genéticos. Entretanto, nenhum dodô foi produzido até agora, e os resultados representam etapas experimentais de um projeto ainda distante da reintrodução na natureza.
Por que a Colossal Biosciences quer recriar o dodô depois de tantos séculos?
O dodô (Raphus cucullatus) era uma ave incapaz de voar, encontrada exclusivamente na ilha Maurício, no oceano Índico. A chegada de seres humanos no século XVII, acompanhada pela introdução de animais como ratos e porcos, contribuiu para seu desaparecimento. O último registro amplamente aceito é de 1662, embora a data exata da extinção permaneça discutida.
Em 2023, a Colossal Biosciences anunciou um programa para desenvolver uma ave geneticamente semelhante ao dodô. A iniciativa utiliza o pombo-de-nicobar (Caloenas nicobarica), seu parente vivo mais próximo, como referência. O objetivo não é recuperar uma célula intacta do animal extinto, mas reconstruir características por meio de modificações em espécies atuais.
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Como a desextinção do dodô pode funcionar usando DNA e edição genética?
O primeiro desafio consiste em comparar fragmentos de DNA do dodô com genomas de aves vivas. Essas comparações ajudam a identificar alterações associadas ao tamanho corporal, formato do bico, estrutura das asas e outras características que diferenciavam o animal de seus parentes.
O projeto combina cinco etapas tecnológicas:
- Reconstrução do genoma do dodô a partir de material antigo;
- Comparação com o DNA do pombo-de-nicobar;
- Identificação de variantes genéticas relacionadas à anatomia;
- Edição de células germinativas capazes de originar gametas;
- Desenvolvimento de aves reprodutoras capazes de transmitir as alterações.
Um vídeo oficial da Colossal Biosciences, publicado em outubro de 2025, apresenta os trabalhos com células germinativas de pombos e as estratégias propostas para produzir futuras aves modificadas. As imagens mostram avanços laboratoriais, não o nascimento de um dodô.
Por que o pombo-de-nicobar é essencial para tentar recriar o dodô?
Embora apresente plumagem colorida e capacidade de voar, o pombo-de-nicobar compartilha um ancestral relativamente recente com o dodô. Essa proximidade evolutiva facilita a comparação genética, permitindo investigar quais alterações podem ter contribuído para o desenvolvimento do corpo robusto, do bico característico e da incapacidade de voo.
Nas aves, a reprodução modificada geneticamente apresenta dificuldades específicas. Por isso, os pesquisadores trabalham com células germinativas primordiais, precursoras de óvulos e espermatozoides. A estratégia prevê inserir células editadas em embriões hospedeiros, inclusive de galinhas modificadas, para tentar produzir descendentes com as características desejadas.
Qual pesquisa científica comprovou avanços reais na desextinção do dodô?
Um estudo publicado no Journal of Heredity, em maio de 2026, descreveu o cultivo prolongado de células germinativas de pombos-domésticos (Columba livia). Liderados por Martin Nicholson e Anna Keyte, os pesquisadores demonstraram que essas células conseguem se multiplicar em laboratório e migrar para as gônadas de embriões receptores.
Em outubro de 2026, a Colossal anunciou novos resultados com a plataforma GenoMorph, desenvolvida para identificar regiões reguladoras do DNA associadas ao formato do bico e do crânio. Entretanto, esses candidatos ainda precisam passar por validação experimental. Os avanços publicados em células de pombos não equivalem à produção de um embrião de dodô.

Quais números mostram o progresso atual da desextinção do dodô?
Segundo a Colossal, aproximadamente 95% do genoma do dodô já foi reconstruído. A plataforma GenoMorph identificou cerca de 2.300 possíveis elementos reguladores relacionados à anatomia craniana, utilizando informações de desenvolvimento embrionário e comparações com mais de 70 espécies de aves.
A empresa também ampliou para 36 indivíduos sua colônia de pombos-de-nicobar, destinada à pesquisa reprodutiva. Esses números representam recursos e candidatos experimentais, não milhares de modificações genéticas comprovadamente necessárias para recriar a espécie.
| Etapa do projeto | Situação em 2026 |
|---|---|
| Genoma do dodô | Aproximadamente 95% reconstruído |
| Possíveis alvos genéticos | Cerca de 2.300 identificados |
| Espécies comparadas | Mais de 70 aves |
| Pombos-de-nicobar na colônia | 36 indivíduos |
| Nascimento de uma ave semelhante ao dodô | Ainda não demonstrado |
Por que recriar uma ave semelhante ao dodô não significa recuperar a espécie original?
Mesmo que uma ave modificada apresente aparência e comportamento semelhantes aos do dodô, ela não será geneticamente idêntica aos animais extintos. O desenvolvimento também depende de interações entre genes, ambiente embrionário e aprendizado, aspectos que não podem ser reproduzidos integralmente apenas pela edição genética.
Uma eventual reintrodução em Maurício exigiria restaurar habitats, controlar predadores introduzidos e avaliar possíveis impactos ecológicos. A desextinção do dodô continua sendo uma proposta experimental, não uma recuperação concluída. Seu resultado mais concreto, até agora, está no desenvolvimento de tecnologias genéticas que também poderão contribuir para conservar aves ameaçadas que ainda existem.
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