Uma construção que inundou um deserto do tamanho de Santa Catarina
O Mar de Aral, um gigante transformado em deserto salgado, mostra como engenharia pode destruir e restaurar ecossistemas
Imagine um mar gigante no meio do continente, quase um “oceano interior”, encolhendo até virar um deserto salgado. Foi isso que aconteceu com o Mar de Aral, que já foi o quarto maior lago do planeta e hoje é um dos casos mais citados sobre como a engenharia pode tanto destruir quanto ajudar a recuperar um ecossistema, tendo a barragem de Kokaral como símbolo dessa virada.
O que causou o colapso do Mar de Aral
O Mar de Aral era um grande mar interior entre Cazaquistão e Uzbequistão, alimentado pelos rios Amu Darya e Syr Darya. A partir da segunda metade do século XX, a União Soviética redirecionou maciçamente a água desses rios para irrigação agrícola, sobretudo de algodão.
Com menos vazão chegando ao lago e alta evaporação natural, o nível da água despencou e a salinidade aumentou rapidamente. Portos ficaram isolados em um deserto salino, cidades pesqueiras perderam sua base econômica e toneladas de barcos ficaram abandonados na areia.

Como surgiu o projeto da barragem de Kokaral
Nos anos 1990, moradores da região norte do antigo Mar de Aral ergueram diques improvisados para reter a água do Syr Darya, mas essas estruturas eram frágeis e não estabilizavam o sistema. A situação começou a mudar quando o Cazaquistão, com apoio do Banco Mundial, lançou o projeto Syr Darya Control and Northern Aral Sea (KAZNAS).
A peça central desse plano foi a barragem de Kokaral, construída no estreitamento que separa o Aral do Norte do Aral do Sul. A estratégia era focar na parte do lago que ainda recebia água suficiente, em vez de tentar recuperar todo o antigo mar, algo inviável diante da escala do colapso.
Como funciona a barragem de Kokaral e quais resultados trouxe
Kokaral é um dique de aterro de cerca de 13 km, instalado no “gargalo” geográfico entre norte e sul do antigo mar. Ao bloquear essa passagem, a barragem reteve a água do Syr Darya no Aral do Norte, separando um lago ainda viável de um corpo d’água raso e altamente salino ao sul.
A primeira fase concluída em 2005 elevou o nível do Aral do Norte de cerca de 38 m para 42 m, com aumento de volume em torno de 68% e queda significativa da salinidade. A pesca retornou, a produção pesqueira anual triplicou e a distância entre Aralsk e a borda da água caiu de aproximadamente 75 km para algo perto de 20 km.
Se você se interessa por meio ambiente e história, este vídeo do canal Luca Bassani, com 207 mil inscritos, foi escolhido para você. Nele, você conhece o desastre ambiental do Mar de Aral, no Uzbequistão, e entende como ele secou devido a ações humanas e mudanças na região.
Quais números e curiosidades mostram a dimensão do Aral do Norte
Hoje, o Aral do Norte armazena cerca de 27 bilhões de metros cúbicos de água, o que equivale a aproximadamente 10,8 milhões de piscinas olímpicas. O investimento total da barragem e obras associadas ficou em torno de 86 milhões de dólares, valor modesto diante do impacto social e ambiental gerado.
Alguns pontos ajudam a organizar os principais efeitos dessa intervenção e por que ela é estudada no mundo todo:

Quais são os próximos passos e o que Kokaral revela sobre a engenharia
O Cazaquistão planeja uma segunda fase para elevar ainda mais o nível do Aral do Norte, possivelmente até cerca de 44 m. Isso exigirá aumentar a altura da barragem, aprimorar o controle do Syr Darya e expandir a superfície do lago, buscando reduzir ainda mais a salinidade e estabilizar a pesca e a navegação.
A história do Mar de Aral mostra o duplo papel da engenharia: foi decisiva para o colapso ao desviar rios em larga escala, mas também é chave na recuperação parcial por meio de uma infraestrutura bem planejada. Kokaral não reconstitui o antigo mar, porém demonstra como uma intervenção precisa, integrada a uma boa gestão hídrica, pode transformar um cenário de perda total em um caminho de restauração.
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