Uma cidade de casas-torre cresce no deserto do Iêmen e edifícios de barro chegam a vários andares em ruas estreitas e sombreadas
Pedra, terra e tijolos formaram um tecido urbano vertical preservado durante séculos no coração da capital iemenita
Em um vale montanhoso a cerca de 2.200 metros de altitude, Sana’a desenvolveu uma paisagem urbana difícil de confundir com qualquer outra. A antiga Sana’a reúne milhares de casas-torre construídas com pedra, terra e tijolos, decoradas com faixas geométricas e gesso branco. Muitas chegam a vários andares e se comprimem em um tecido urbano de ruas estreitas, mesquitas, mercados, banhos e jardins.
Por que a antiga Sana’a cresceu com casas tão altas?
Sana’a é ocupada há mais de 2.500 anos e já funcionava como centro de uma rota comercial terrestre no primeiro século d.C. A partir dos séculos VII e VIII, tornou-se também um importante centro político e religioso ligado à expansão do islamismo na região.
Dentro das muralhas, construir verticalmente permitia acomodar mais moradores sem ampliar continuamente a área urbana. As casas-torre respondiam, portanto, à alta densidade e às necessidades defensivas, enquanto deixavam espaço para mesquitas, mercados e os bustans, jardins que interrompem o tecido compacto.
Como eram construídas casas de tantos andares sem concreto moderno?
A estrutura tradicional combina materiais conforme a posição no edifício. Os pavimentos inferiores costumam utilizar pedra, mais resistente à umidade e às cargas, enquanto os andares superiores empregam terra compactada, adobe ou tijolos queimados, dependendo da construção e da época.
As paredes espessas ajudam a estabilizar o edifício e também moderam as variações de temperatura. A manutenção é fundamental, especialmente nas superfícies de terra, que precisam permanecer protegidas contra infiltrações e deterioração provocada pelas chuvas.
- Base resistente construída em pedra;
- Pavimentos superiores de terra e tijolo;
- Paredes espessas e pesadas;
- Revestimentos protetores de argamassa;
- Decoração externa com gesso branco.
Este vídeo da UNESCO apresenta o centro histórico e suas casas-torre.
Como a antiga Sana’a organizava a vida dentro dessas torres?
As casas tradicionais possuem uma distribuição vertical de funções. Os níveis mais baixos podiam servir para armazenamento e, historicamente, até para abrigar animais. Nos andares seguintes ficavam espaços cotidianos para a família, recepção de visitantes e encontros sociais.
No topo aparece frequentemente o mafraj, uma sala privilegiada com grandes janelas e vista sobre a cidade. Algumas casas chegam a oito ou nove pavimentos, embora altura, disposição interna e decoração variem consideravelmente entre edifícios.
Por que as fachadas parecem cobertas por desenhos brancos?
Um dos elementos mais reconhecíveis de Sana’a é o contraste entre paredes em tons terrosos e desenhos de gesso branco. Faixas geométricas, arcos e molduras destacam janelas e divisões entre pavimentos, criando fachadas extremamente ornamentadas sem esconder os materiais estruturais.
A UNESCO descreve a Cidade Antiga de Sana’a como um conjunto excepcional de torres de terra compactada e tijolos queimados erguidas sobre pavimentos de pedra. Muitas casas atuais, porém, são relativamente recentes dentro da longa história da cidade e resultam de reconstruções realizadas ao longo dos séculos.

Como ruas tão estreitas funcionam em uma cidade de edifícios altos?
A proximidade entre as construções produz passagens estreitas e parcialmente sombreadas, condição importante em um ambiente de grande insolação. As ruas conectam casas, mesquitas, mercados, caravançarás e banhos sem seguir uma malha regular semelhante às cidades planejadas modernas.
Esse tecido compacto não significa ausência de espaços abertos. Os bustans formam áreas verdes entre conjuntos de edifícios e historicamente tiveram funções agrícolas e comunitárias. Minaretes e torres residenciais criam, assim, um horizonte vertical interrompido por jardins internos.
Por que a antiga Sana’a corre risco mesmo depois de tantos séculos?
O centro histórico foi inscrito como Patrimônio Mundial em 1986 e entrou na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo em 2015. Conflitos armados, desabamentos, chuvas intensas, alterações inadequadas e dificuldades de manutenção ameaçam edifícios construídos com técnicas que exigem reparos contínuos.
Preservar a antiga Sana’a não significa apenas conservar fachadas. Casas ainda habitadas, mesquitas, mercados, jardins e ruas formam um sistema urbano vivo. Quando técnicas construtivas tradicionais deixam de ser usadas ou edifícios são substituídos inadequadamente, perde-se também parte da lógica que permitiu à cidade funcionar durante séculos.
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