Uma ave desapareceu da natureza por 40 anos e a recuperação começou com apenas cinco indivíduos sobreviventes
Após décadas de reprodução controlada, o mutum-de-alagoas voltou às florestas nordestinas e enfrenta o desafio de reconstruir populações com diversidade genética limitada
O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), ave que desapareceu das florestas nordestinas no fim do século XX, voltou a ocupar áreas de Mata Atlântica após décadas de reprodução controlada. O programa começou com cinco exemplares retirados da natureza, dos quais apenas três deixaram descendentes. Em abril de 2026, outros três casais chegaram a Alagoas para uma nova etapa de reintrodução.
Como o mutum-de-alagoas desapareceu das florestas do Nordeste brasileiro?
O mutum-de-alagoas vivia originalmente em trechos de Mata Atlântica de baixada no Nordeste, especialmente em Alagoas. A expansão dos canaviais, a derrubada da vegetação e a caça reduziram drasticamente suas populações. Os últimos exemplares conhecidos foram retirados da natureza em 1979, quando a espécie já estava próxima do desaparecimento completo.
O conservacionista Pedro Mário Nardelli reuniu cinco aves para iniciar um programa de reprodução em cativeiro. Entretanto, somente um macho e duas fêmeas conseguiram se reproduzir. Esses três indivíduos originaram a população conservacionista, criando um dos gargalos genéticos mais severos conhecidos entre aves ameaçadas.
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Como o mutum-de-alagoas conseguiu voltar à natureza depois de quatro décadas?
A recuperação envolveu criadouros especializados, pesquisadores, instituições ambientais e proprietários de reservas florestais. Em setembro de 2019, três casais foram soltos na Reserva Mata do Cedro, em Rio Largo, marcando o primeiro retorno da espécie à vida livre após aproximadamente 40 anos.
A reintrodução depende de procedimentos que vão muito além da reprodução dos animais:
- Seleção genética dos indivíduos destinados à soltura;
- Avaliações sanitárias para prevenir a transmissão de doenças;
- Preparação de viveiros dentro das áreas florestais;
- Adaptação gradual à alimentação e aos estímulos naturais;
- Monitoramento das aves após sua liberação.
Um vídeo sobre o retorno do mutum-de-alagoas, divulgado entre os materiais reunidos pelo Ministério Público de Alagoas, documenta a mobilização para recuperar a espécie e sua reintrodução em 2019.

Por que uma população formada por três aves enfrenta tantos riscos genéticos?
Quando uma espécie depende de poucos fundadores, grande parte de sua diversidade genética original desaparece. Esse fenômeno, conhecido como gargalo populacional, aumenta a probabilidade de cruzamentos entre indivíduos aparentados e pode favorecer a manifestação de características hereditárias prejudiciais.
O programa também enfrentou outro desafio: cruzamentos históricos com o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), espécie aparentada. Esses cruzamentos produziram híbridos férteis, exigindo análises genéticas para identificar linhagens adequadas à conservação. A ampliação do número de aves, portanto, não significa automaticamente recuperação da diversidade genética perdida.
O que os estudos científicos revelaram sobre a sobrevivência do mutum-de-alagoas?
Uma pesquisa publicada na revista PLOS ONE, em 2017, investigou a identidade genética dos exemplares mantidos em cativeiro. O estudo científico sobre a recuperação genética do mutum-de-alagoas utilizou marcadores de DNA mitocondrial e 14 microssatélites para diferenciar indivíduos da espécie e descendentes de cruzamentos híbridos.
Os resultados ajudaram a orientar estratégias de reprodução e seleção. Outro trabalho, publicado na Zoo Biology em 2020, examinou a recuperação após o gargalo extremo e destacou a importância do manejo conservacionista. As pesquisas demonstram que o sucesso depende tanto do crescimento populacional quanto da manutenção de linhagens geneticamente adequadas.
Quantos mutuns-de-alagoas participaram das diferentes etapas de recuperação?
Em 1990, a população descendente dos três fundadores alcançou 19 exemplares. Em 1993, havia 42 aves nos criadouros, incluindo oito híbridos. Décadas depois, os esforços permitiram organizar solturas e ampliar a reprodução em instituições especializadas.
Em abril de 2026, seis indivíduos provenientes de Minas Gerais chegaram à reserva da Usina Coruripe. As aves foram encaminhadas para viveiros de aclimatação antes da soltura planejada. A chegada representou uma nova etapa, mas não comprovava, naquele momento, o estabelecimento de uma população autossustentável.
| Ano | Marco da conservação | Quantidade |
|---|---|---|
| 1979 | Resgate dos últimos exemplares | 5 aves, 3 fundadoras |
| 1990 | População em cativeiro | 19 aves |
| 1993 | População incluindo híbridos | 42 aves |
| 2019 | Primeira reintrodução | 3 casais |
| 2026 | Nova etapa em Coruripe | 3 casais |
O que falta para garantir que o mutum-de-alagoas sobreviva novamente nas florestas?
A recuperação depende da proteção de fragmentos de Mata Atlântica, fiscalização contra a caça e acompanhamento reprodutivo. Também é necessário verificar se os indivíduos soltos conseguem encontrar alimento, evitar ameaças e produzir descendentes que sobrevivam sem assistência humana.
Em janeiro de 2026, o Zoológico de Belo Horizonte anunciou o nascimento natural de um filhote, outro avanço do programa conservacionista. Entretanto, a reprodução em cativeiro e a soltura não garantem, isoladamente, o restabelecimento da espécie. O verdadeiro desafio é formar populações geneticamente viáveis, capazes de permanecer nas florestas por sucessivas gerações.
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