Um sinal de Marte registrado nos anos 1970 parecia vento, mas meio século depois pode ter encontrado um culpado sísmico
Reanálise dos registros da Viking 2 sugere atividade sísmica em uma região também investigada pela InSight, revelando novas pistas sobre o interior de Marte
Um sinal misterioso registrado pela sonda Viking 2, em 1976, voltou a despertar o interesse dos cientistas. Uma reanálise publicada em setembro de 2026 indica que a vibração pode ter sido um terremoto marciano, possivelmente originado na mesma região onde a missão InSight identificou quase mil eventos sísmicos décadas depois.
Por que os sinais sísmicos de Marte permaneceram sem explicação durante 50 anos?
As sondas Viking chegaram a Marte em 1976 levando instrumentos destinados a investigar o ambiente e a atividade geológica. Entretanto, o sismômetro da Viking 1 não funcionou corretamente, enquanto o equipamento da Viking 2 foi instalado diretamente sobre a estrutura da nave.
Essa posição criou um problema: as rajadas de vento movimentavam o módulo e produziam vibrações confundidas com possíveis terremotos. Durante aproximadamente 560 dias marcianos de monitoramento, apenas dois sinais, registrados nos sols 53 e 80, permaneceram como candidatos sísmicos.
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O que tornou o sinal do sol 80 mais convincente que o outro registro?
O evento do sol 80 aconteceu por volta das três horas da madrugada marciana, quando os ventos costumavam ser mais fracos. A última medição disponível, realizada aproximadamente 20 minutos antes, indicava velocidade próxima de 2,6 metros por segundo.
Já o sinal do sol 53 ocorreu durante a tarde, sob condições atmosféricas mais agitadas. Sua intensidade também estava mais próxima do ruído habitual do instrumento, tornando muito mais difícil distinguir uma possível vibração subterrânea dos movimentos provocados pelo vento.
A comparação revelou diferenças fundamentais:
- O sol 53 apresentou condições atmosféricas menos favoráveis;
- O sol 80 ocorreu durante a madrugada marciana;
- O segundo sinal superou claramente o ruído de fundo;
- Nenhuma operação conhecida da sonda explica os dois registros;
- As vibrações apresentam características compatíveis com ondas sísmicas.
O vídeo oficial First Likely Marsquake Heard by NASA’s InSight, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, permite comparar ruídos do vento e um provável terremoto registrado pelo sismômetro moderno.
Como a missão InSight mudou a interpretação dos antigos sinais de Marte?
Entre 2018 e 2022, a InSight utilizou um sismômetro colocado diretamente sobre o terreno marciano e protegido contra vento e variações térmicas. O instrumento identificou mais de 1.300 eventos sísmicos e impactos, revelando uma atividade anteriormente desconhecida.
Quase mil registros pertenciam a grupos de eventos de alta frequência ou associados à faixa de 2,4 hertz. Suas possíveis áreas de origem incluem extensas regiões das planícies setentrionais, oferecendo aos cientistas uma referência para reinterpretar as observações antigas.
Como os pesquisadores reconstruíram o funcionamento do sismômetro da Viking 2?
O estudo publicado na revista AGU Advances, em 30 de setembro de 2026, reconstruiu os procedimentos originais de aquisição e processamento dos sinais. A equipe, liderada por Wanbo Xiao, também contou com a colaboração de Andrew Lazarewicz, integrante da investigação sísmica original das missões Viking.
Os pesquisadores descobriram que o sistema antigo favorecia vibrações de frequências relativamente altas. Além da sensibilidade limitada, os algoritmos de compressão eliminavam parte das informações, dificultando a identificação de terremotos semelhantes àqueles posteriormente registrados pela InSight.

Quais hipóteses explicam a possível origem do terremoto marciano?
Se a diferença original de dez segundos entre a chegada de ondas sísmicas estiver correta, o evento teria ocorrido aproximadamente 110 quilômetros da Viking 2. Essa localização coincide com uma ampla região proposta como origem de eventos sazonais observados pela InSight.
Entretanto, existe outra interpretação: a primeira vibração identificada poderia representar uma onda convertida ao atravessar camadas da crosta. Nesse cenário, o evento teria acontecido muito mais longe e poderia alcançar magnitude estimada entre 4,6 e 5,1.
| Hipótese investigada | Interpretação científica |
|---|---|
| Terremoto regional | Possível origem a cerca de 110 km |
| Terremoto distante | Magnitude estimada entre 4,6 e 5,1 |
| Impacto de meteorito | Alternativa ainda não descartada |
| Vento marciano | Explicação menos convincente para o sol 80 |
O que essa descoberta revela sobre a atividade geológica atual de Marte?
A possível correspondência entre os registros sugere que determinadas regiões marcianas podem permanecer sismicamente ativas durante décadas. Também indica que a atividade subterrânea talvez não esteja concentrada exclusivamente nas proximidades do sistema de fraturas Cerberus Fossae.
Contudo, a origem do evento ainda não foi confirmada. O impacto de um meteorito permanece possível, e a localização depende da interpretação das ondas registradas. Mesmo assim, recuperar dados de meio século atrás amplia a história sísmica disponível de Marte e demonstra o valor científico das antigas missões espaciais.
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