Um pássaro jovem carregava quase 900 pedaços de plástico e o recorde de contaminação foi quebrado quatro anos seguidos
Monitoramento de 15 anos revela aumento abrupto das cargas de plástico recebidas por filhotes de pardela em uma ilha remota da Austrália
Em uma ilha remota do mar da Tasmânia, pesquisadores acompanham há 15 anos o que filhotes de pardela recebem dos pais antes de deixar o ninho. Os resultados mais recentes mostram uma piora abrupta do plástico em aves: em 2025, um único filhote de Ardenna carneipes carregava 894 fragmentos, somando 64,21 gramas, mais de 15% da massa corporal esperada para uma ave desse estágio.
Como o plástico em aves chega aos filhotes de Lord Howe Island?
A pardela-de-patas-claras, também chamada sable shearwater, passa grande parte da vida no oceano. Durante a reprodução, os adultos percorrem extensas áreas marinhas procurando principalmente peixes e lulas para alimentar o único filhote mantido no ninho.
O problema começa quando resíduos flutuantes são ingeridos durante essas viagens. Os adultos conseguem regurgitar a alimentação para os jovens e, junto com as presas, acabam transferindo pedaços de plástico. Como os filhotes permanecem dependentes durante cerca de 80 dias, sucessivas alimentações podem acumular grandes quantidades.
Como os recordes foram quebrados durante quatro anos consecutivos?
Durante a primeira década da série, os valores oscilaram. Um filhote examinado em 2011 continha 276 peças pesando 64,10 gramas, quantidade considerada excepcional durante mais de dez anos. A situação mudou em 2023, quando apareceram 403 itens em um único indivíduo.
O recorde subiu para 407 itens em 2024 e praticamente dobrou em 2025, alcançando 894. Em 2026, o maior número encontrado em um filhote foi menor, 644 peças, mas sua massa chegou a 67,4 gramas, estabelecendo um novo extremo pelo peso do material.
- 2023: 403 itens e 52,53 g;
- 2024: 407 itens e 26,30 g;
- 2025: 894 itens e 64,21 g;
- 2026: 644 itens e 67,4 g.
Este vídeo mostra pesquisadores retirando plástico do estômago de filhotes de pardela em Lord Howe Island.
Por que o plástico em aves preocupa mesmo quando o filhote parece saudável?
O plástico ocupa espaço que deveria receber alimento nutritivo, mas seus efeitos não se resumem a isso. Fragmentos rígidos podem entrar repetidamente em contato com a parede do proventrículo, causando irritação, inflamação e formação de tecido cicatricial.
Pesquisas anteriores com a mesma população descreveram esse processo como plasticose. Outros estudos também encontraram alterações fisiológicas em órgãos e associação entre cargas maiores de plástico e menores chances de jovens sobreviverem até retornar à colônia como adultos.
O que o acompanhamento de 15 anos revelou que pesquisas curtas não mostrariam?
O estudo publicado na Earth’s Future revelou que a contaminação não cresceu de maneira constante. Houve anos de valores relativamente baixos antes do aumento abrupto observado a partir de 2023.
Esse padrão demonstra o risco de estabelecer uma referência com poucos anos de observação. Quantidades que pareciam representar o limite possível em 2011 foram superadas repetidamente mais de uma década depois, mostrando como séries longas conseguem detectar mudanças ambientais que estudos breves podem perder.

O que representam 64,2 gramas dentro de um único filhote?
Os 64,21 gramas associados aos 894 itens de 2025 representavam mais de 15% da massa corporal esperada para um filhote dessa população. Em proporção, é uma carga extraordinária para um animal que ainda precisa completar o desenvolvimento antes de partir sozinho para o oceano.
Número de itens e massa, porém, medem aspectos diferentes. Muitos fragmentos pequenos podem produzir uma grande contagem sem superar o peso de poucas peças maiores. Por isso, os pesquisadores registram simultaneamente quantidade, massa e características dos resíduos.
Por que o plástico em aves de uma ilha remota revela um problema oceânico maior?
Lord Howe Island fica a centenas de quilômetros da Austrália continental, mas essa distância não impede que resíduos produzidos em diferentes regiões cheguem às áreas de alimentação das pardelas. Os adultos encontram o material no mar aberto e o transportam involuntariamente até seus ninhos.
O monitoramento mostra ainda que o problema não pode ser avaliado apenas contando animais que possuem plástico: é preciso medir quanto cada indivíduo carrega e acompanhar essa carga durante muitos anos. Os recordes sucessivos indicam que a exposição extrema dessa população continua aumentando.
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