Um lago que já foi o quarto maior do mundo perdeu quase toda a água depois que dois rios foram desviados para plantações
O desvio do Amu Darya e do Syr Darya para irrigação transformou um enorme lago da Ásia Central em fragmentos de água cercados por sal e deserto
Durante a primeira metade do século XX, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo em área e sustentava comunidades pesqueiras entre os atuais Cazaquistão e Uzbequistão. A partir da expansão soviética da agricultura irrigada, porém, grande parte da água dos rios Amu Darya e Syr Darya passou a ser desviada para plantações, sobretudo de algodão e outras culturas. Nas décadas seguintes, o lago encolheu drasticamente, fragmentou-se e deixou vastas áreas de seu antigo leito expostas.
Por que o Mar de Aral começou a desaparecer tão rapidamente?
Os dois principais rios que alimentavam o lago traziam água originada de neve e precipitação nas montanhas da Ásia Central. O Amu Darya desembocava principalmente no setor sul, enquanto o Syr Darya alimentava o norte. Durante milhares de anos, essa entrada de água compensou grande parte da evaporação intensa característica da região árida.
A situação mudou especialmente a partir da década de 1960, quando a União Soviética ampliou enormes projetos de irrigação no Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão. Água que seguiria até o lago passou a alimentar campos agrícolas. Com a entrada insuficiente para compensar a evaporação, o nível começou a cair de maneira persistente.
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Como o desvio dos rios transformou o Mar de Aral?
A irrigação permitiu aumentar a produção agrícola em áreas desérticas, mas exigiu volumes gigantescos de água. Além do algodão, arroz e outras culturas também eram irrigados. Muitos canais apresentavam perdas consideráveis, aumentando ainda mais a retirada necessária dos rios que originalmente terminavam no lago.
À medida que o nível diminuía, ilhas passaram a se conectar ao continente e antigas áreas costeiras ficaram quilômetros distantes da água. Em 1989, imagens de satélite já mostravam que as partes norte e sul estavam praticamente separadas, iniciando uma fragmentação que continuaria nas décadas seguintes.
- O Amu Darya e o Syr Darya tiveram grande parte de seus fluxos desviada.
- A expansão da irrigação acelerou principalmente depois de 1960.
- A superfície do lago diminuiu drasticamente.
- O antigo corpo d’água fragmentou-se em vários lagos menores.
- Portos e comunidades pesqueiras ficaram longe da nova linha de costa.
Este registro em português mostra a paisagem do antigo Mar de Aral e os efeitos visíveis do recuo da água.
Quanto o Mar de Aral realmente encolheu?
Os números variam conforme o ano usado para comparação, porque algumas partes ainda recebem água e mudam sazonalmente. Dados da NASA indicam que, desde 1960, o lago chegou a perder cerca de 88% da superfície e 92% do volume de água. Em anos posteriores, algumas estimativas apontaram que restava aproximadamente um décimo de sua área original.
O desaparecimento também não ocorreu de maneira uniforme. O setor norte conservou mais água, enquanto grandes partes do sul secaram quase completamente em determinados anos. Em 2014, por exemplo, o lobo oriental do Aral Sul chegou a ficar totalmente seco.
O que aconteceu com os peixes e com as cidades que dependiam do lago?
Antes da retração, o lago sustentava uma importante indústria pesqueira e ajudava a moderar o clima regional. Conforme a água diminuiu, a salinidade aumentou e várias espécies de peixes deixaram de sobreviver em extensas áreas, provocando o colapso de boa parte da pesca comercial.
Antigos portos ficaram cercados por terreno seco, enquanto empregos associados à pesca e ao processamento de pescado desapareceram. A perda econômica foi acompanhada por mudanças ambientais profundas, mostrando que o problema não se limitava ao volume de água presente no lago.

O que ficou no lugar da água que desapareceu?
Grande parte do leito exposto transformou-se no deserto de Aralkum. A NASA estima que essa nova região desértica tenha alcançado aproximadamente 62 mil quilômetros quadrados. Sal e sedimentos antes cobertos pela água ficaram disponíveis para serem transportados pelo vento.
A NASA acompanha por satélite a transformação do Mar de Aral há décadas, permitindo comparar diretamente a extensão histórica do lago com os fragmentos atuais. As imagens mostram uma das mudanças ambientais induzidas por atividade humana mais visíveis do espaço.
| Indicador | Mudança registrada |
|---|---|
| Posição histórica | Quarto maior lago do mundo antes de 1960. |
| Área perdida | Cerca de 88% em estimativas publicadas pela NASA. |
| Volume perdido | Cerca de 92% em estimativas históricas. |
| Novo deserto | Aralkum, com aproximadamente 62 mil km². |
O desaparecimento do lago pode ser totalmente revertido?
Uma recuperação completa às dimensões anteriores à década de 1960 é extremamente difícil porque os rios continuam fundamentais para agricultura e abastecimento regional. No entanto, o setor norte demonstrou que intervenções localizadas podem produzir resultados. A barragem Kok-Aral, concluída em 2005, ajudou a reter água do Syr Darya no Aral Norte.
Depois da obra, o nível da água e a pesca apresentaram recuperação nessa parte do sistema, enquanto grande parte do Aral Sul continuou em situação muito mais crítica. O contraste mostra que o antigo lago já não funciona como um único corpo d’água e que seu futuro depende de decisões diferentes para cada uma das bacias remanescentes.
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