Um iceberg do tamanho de Manhattan se soltou da Groenlândia, mas os sinais de enfraquecimento já estavam aparecendo muito antes da ruptura
Pesquisa revela como a entrada de água oceânica em um rio sobre o gelo pode ter contribuído para a instabilidade da plataforma antes da ruptura de agosto de 2026
Um iceberg de 76,4 quilômetros quadrados se desprendeu da plataforma de gelo Petermann, no norte da Groenlândia, em 4 de agosto de 2026. A ruptura, comparável em área à ilha de Manhattan, ocorreu depois de anos de instabilidade. Uma pesquisa revelou que a entrada de água oceânica em um rio superficial pode ter contribuído para enfraquecer o gelo.
Por que a plataforma de gelo Petermann perdeu um iceberg tão grande?
A geleira Petermann transporta gelo do interior da Groenlândia até o oceano Ártico, formando uma extensa língua flutuante. Essa estrutura permanece conectada à geleira continental e funciona como uma resistência natural ao deslocamento do gelo. Quando sofre fraturas ou afinamento, sua capacidade de contenção pode diminuir.
O desprendimento de agosto foi o maior registrado em Petermann desde 2012. Imagens de radar já mostravam rachaduras e deformações meses antes da ruptura, enquanto pesquisadores acompanhavam mudanças desde 2019. O iceberg resultante apresentava espessura estimada de até 150 metros, formando uma enorme ilha de gelo que começou a se deslocar pelo fiorde.
O que os pesquisadores descobriram sobre o enfraquecimento de Petermann?
Uma equipe da Universidade do Colorado em Boulder investigou um fenômeno incomum: a formação de um estuário sobre a própria plataforma de gelo. Nesse ambiente, um rio alimentado pelo derretimento superficial encontra água salgada do oceano, permitindo que o fluxo marítimo avance pelo canal em determinadas condições.
A pesquisa identificou ciclos de formação e desaparecimento desse estuário desde 2014. Segundo os cientistas, a entrada e a saída de água oceânica podem produzir esforços mecânicos e favorecer a erosão do canal. Esses processos são candidatos a contribuir para a instabilidade, embora sua participação específica na ruptura de 2026 não tenha sido quantificada.
- O iceberg se desprendeu em 4 de agosto de 2026;
- Sua superfície media aproximadamente 76,4 quilômetros quadrados;
- A espessura foi estimada em até 150 metros;
- O estuário apresentou evidências de formação em 2014;
- Fraturas anteriores já indicavam instabilidade na plataforma.

Como a água do oceano pode enfraquecer a plataforma Petermann por dentro?
Durante o verão, o derretimento superficial forma rios que percorrem a plataforma em direção ao mar. Um desses canais possui aproximadamente 40 quilômetros de comprimento e 30 metros de largura. Quando seu leito desce abaixo do nível oceânico, água salgada pode penetrar pelo canal e misturar-se à água doce.
Essa circulação semelhante à de um estuário altera o peso exercido sobre o gelo, produzindo tensões de flexão. A entrada de água também pode ampliar o derretimento e favorecer a erosão lateral. O mecanismo investigado envolve principalmente o canal superficial e sua conexão com o oceano, não apenas o derretimento na base da plataforma.
Como os cientistas reconstruíram a história do estuário de Petermann?
A pesquisa foi liderada por Michela Savignano, da Universidade do Colorado em Boulder, com participação de Alison Banwell e outros especialistas. Publicado em 21 de setembro de 2026 na revista The Cryosphere, o estudo científico original examinou a evolução temporal do estuário por meio de observações orbitais.
Os cientistas combinaram imagens multiespectrais WorldView, modelos digitais de elevação ArcticDEM e estimativas de escoamento superficial. A análise concentrou-se especialmente nas temporadas de derretimento de 2014 e 2016, além de examinar imagens entre 2013 e 2018. Assim, foi possível reconstruir quando o canal aprofundou e quando a água oceânica conseguiu penetrar nele.
Quais evidências mostram que Petermann já apresentava instabilidade?
Os registros indicam que o estuário provavelmente se formou durante o verão de 2014. Em anos posteriores, ele desapareceu e voltou a surgir conforme mudavam o derretimento e a geometria do canal. Em 2018, uma fratura transversal interrompeu esse padrão, demonstrando a influência das rachaduras na circulação da água.
Outra investigação, baseada nos satélites Sentinel-1, identificou deformações em abril de 2026. Em 3 de agosto, as imagens mostraram deterioração acentuada; no dia seguinte ocorreu a ruptura. Entretanto, as evidências do estuário e o monitoramento das fraturas pertencem a análises distintas, que ajudam a compreender aspectos complementares da instabilidade.
| Indicador | Resultado observado |
|---|---|
| Desprendimento | 4 de agosto de 2026 |
| Área do iceberg | 76,4 km² |
| Espessura estimada | Até 150 metros |
| Rio superficial | Cerca de 40 km de extensão |
| Formação do estuário | Evidências desde 2014 |
Por que o enfraquecimento da plataforma Petermann preocupa os pesquisadores?
As plataformas flutuantes funcionam como barreiras que ajudam a conter o fluxo das geleiras terrestres. Quando perdem grandes porções, essa resistência pode diminuir, favorecendo o deslocamento do gelo continental. O iceberg desprendido já flutuava antes da ruptura e, portanto, sua separação não provocou diretamente uma elevação equivalente do nível do mar.
O risco climático envolve principalmente a possível aceleração futura do gelo que permanece sobre a terra. Os pesquisadores ainda precisam determinar quanto a circulação estuarina contribuiu para a ruptura específica de agosto. Novas observações poderão integrar o monitoramento de fraturas, as condições oceânicas e os ciclos de derretimento, melhorando as projeções de estabilidade das plataformas da Groenlândia.
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