Um estudante de escola técnica testou extrato de erva-doce contra o fungo que estraga o grão de café, cortou 83,8% da contaminação, superou o fungicida sintético a um custo 4,3 vezes menor, e levou o projeto para uma feira internacional nos Estados Unidos
Estudante baiano usa extrato de erva-doce para cortar 83,8% dos fungos do café a um custo 4,3 vezes menor e conquista 4º lugar na maior feira de ciências do mundo
🌱 Um estudante baiano, erva-doce e uma descoberta que pode mudar a cafeicultura
Kenisson Morais Brito, de Vitória da Conquista, usou extrato de erva-doce para combater o fungo que estraga grãos de café. Cortou 83,8% da contaminação, gastou 4,3 vezes menos que o fungicida sintético e levou o projeto para a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, nos Estados Unidos. ⬇️
Enquanto a maioria dos adolescentes de 17 anos pensa em vestibular e fim de semana, Kenisson Morais Brito passava as tardes no laboratório da Escola Sesi Anísio Teixeira, em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, testando extratos vegetais contra fungos que destroem grãos de café após a colheita. O resultado do trabalho superou o fungicida sintético em eficácia, custou uma fração do preço e rendeu ao estudante o 4º lugar na categoria Ciências das Plantas da Regeneron ISEF 2026, realizada em Phoenix, no Arizona.
O que é o projeto AnisGuard e como ele funciona?
O projeto recebeu o nome de AnisGuard e propõe o uso do extrato de erva-doce (Pimpinella anisum) como alternativa natural aos fungicidas químicos no controle do Penicillium spp., gênero de fungo responsável pela deterioração dos grãos de café no pós-colheita. A contaminação por esse microrganismo causa perda de qualidade, alteração de sabor e presença de toxinas que podem inviabilizar lotes inteiros para exportação.
O extrato é aplicado diretamente na etapa de lavagem dos grãos, logo após a colheita. Os compostos bioativos da erva-doce atuam sobre a estrutura celular do fungo, reduzindo sua capacidade de proliferação e a liberação de substâncias tóxicas. Em testes laboratoriais, a solução alcançou uma redução de até 83,8% da carga fúngica, superando o desempenho do fungicida sintético utilizado como referência.

Como um extrato vegetal consegue ser mais eficaz que o produto químico?
A erva-doce contém compostos como anetol e estragol, que possuem propriedades antimicrobianas reconhecidas em estudos científicos. Esses compostos atacam a membrana celular do fungo e interferem no seu metabolismo, dificultando a reprodução. O fungicida sintético, por sua vez, atua por um mecanismo mais específico, ao qual os patógenos podem desenvolver resistência ao longo do tempo.
O AnisGuard oferece uma vantagem adicional: como utiliza um extrato de base vegetal com múltiplos compostos ativos, o risco de desenvolvimento de resistência pelo fungo é consideravelmente menor. A diversidade de mecanismos de ação dificulta a adaptação do microrganismo, algo que a pesquisa de Kenisson detalhou na apresentação internacional.
Qual foi o caminho do projeto até a feira nos Estados Unidos?
Kenisson desenvolveu a pesquisa na Escola Sesi Anísio Teixeira, com orientação de professores da instituição. O trabalho foi apresentado primeiro na Febrace (Feira Brasileira de Ciência e Engenharia), realizada na Universidade de São Paulo em março de 2026, onde foi premiado e selecionado para representar o Brasil na ISEF.
A Regeneron ISEF, realizada entre 9 e 15 de maio em Phoenix, Arizona, reuniu cerca de 1.600 estudantes de 60 países. Do Brasil, participaram 21 jovens pesquisadores. Nove voltaram com premiações. Kenisson conquistou o 4º lugar na categoria Ciências das Plantas, com prêmio de US$ 600.
- A ISEF é considerada a maior competição pré-universitária de ciências e engenharia do mundo, com mais de 70 anos de história.
- Os estudantes brasileiros foram selecionados por feiras nacionais como a Febrace e a Mostratec-Liberato.
- O MCTI anunciou investimento de R$ 40 milhões em dois anos para apoiar feiras de ciência e ampliar a participação de jovens em pesquisa.
O extrato de erva-doce pode chegar às fazendas de café no curto prazo?
O caminho entre o laboratório e a lavoura ainda exige etapas importantes. O projeto precisaria de testes em campo, com volumes maiores de grãos e condições reais de armazenamento, para validar os resultados obtidos em ambiente controlado. A aprovação por órgãos reguladores como o Mapa (Ministério da Agricultura) e a Anvisa também seria necessária antes de qualquer uso comercial.
Ainda assim, os dados preliminares são promissores. A combinação de alta eficácia, baixo custo e perfil ambiental favorável coloca o AnisGuard como candidato sério a se tornar uma ferramenta real para pequenos e médios produtores de café, especialmente em regiões onde o acesso a fungicidas sintéticos é limitado pelo preço.
O que a história de Kenisson ensina sobre ciência feita no interior do Brasil?
Um estudante de escola técnica do interior da Bahia, com recursos limitados e muita curiosidade, produziu uma pesquisa que competiu de igual para igual com projetos de escolas equipadas do mundo inteiro. O resultado não veio de orçamento milionário. Veio de observação, método e persistência, três ingredientes que não dependem de CEP.
Se você conhece um jovem que gosta de ciência e mora longe dos grandes centros, mostre essa história. A Febrace e outras feiras nacionais são a porta de entrada, e a erva-doce pode ser o começo de uma carreira que vai muito além do laboratório da escola.
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