Três reis assírios podem ter sido apagados da lista oficial e pistas espalhadas por tabuletas, uma estela e uma estátua estão reconstruindo seus reinados
Novas leituras de documentos cuneiformes revelam governantes breves e disputas pelo trono escondidas pela narrativa oficial assíria
Durante cerca de um século, a Lista de Reis Assírios foi tratada como uma sequência relativamente segura dos governantes da Assíria. Uma reanálise publicada em 2026, porém, propõe que três reis assírios de reinados muito curtos ficaram fora dessa narrativa oficial, deixando rastros em documentos independentes dos séculos X e VIII a.C. A descoberta transforma uma sucessão aparentemente ordenada em um cenário marcado por rebeliões, deposições e disputas dinásticas.
Quem eram os três reis assírios que não aparecem na lista?
Alexander Johannes Edmonds, da Universidade de Münster, e Eckart Frahm, da Universidade Yale, identificaram evidências de um Aššur-uballiṭ que teria governado por volta de 913–912 a.C., de um Tiglath-pileser rebelde em 763–762 a.C. e de um Shalmaneser situado aproximadamente entre 747 e 745 a.C.
Nenhum deles aparece na sequência tradicional da Lista de Reis Assírios. Segundo os pesquisadores, todos chegaram a ser entronizados em Aššur e receberam apoio de pelo menos parte do reino, mas foram derrotados ou depostos antes de consolidarem poder suficiente para permanecer na versão canônica da história.
Que pistas sobreviveram depois que esses governantes desapareceram dos registros?
O caso mais direto envolve Tiglath-pileser. Uma tabuleta de concessão real preservada no British Museum, datada de 762 a.C., menciona um rei com esse nome numa época em que nenhum dos Tiglath-pileser conhecidos oficialmente poderia estar governando. A Crônica dos Epônimos registra ainda uma revolta em Aššur nos anos 763 e 762 a.C.
Os outros casos dependem da combinação de vestígios. Uma estela de Tell ‘Abta apresenta sinais de alteração do nome real, enquanto uma inscrição sobre um recipiente ritual de prata menciona Aššur-uballiṭ. Uma estátua real mutilada encontrada em Aššur pode estar associada ao mesmo episódio sucessório.
- Aššur-uballiṭ, aproximadamente 913–912 a.C.;
- Tiglath-pileser, aproximadamente 763–762 a.C.;
- Shalmaneser, aproximadamente 747–745 a.C.;
- Todos com reinados inferiores a cerca de dois anos.
Este vídeo apresenta objetos e inscrições da civilização assíria preservados e estudados atualmente.
Por que os reis assírios podem ter sido removidos deliberadamente?
Os autores argumentam que a lista não funcionava necessariamente como um arquivo neutro preocupado em registrar qualquer pessoa que tivesse ocupado o trono. Ela pode ter servido como um cânone legitimador, preservando uma sucessão ideal na qual governantes derrotados, concorrentes ou politicamente inconvenientes simplesmente deixavam de contar.
No caso de Aššur-uballiṭ, a hipótese é particularmente sugestiva: ele pode ter sido o sucessor legítimo de seu pai antes de perder o poder para Adad-nārārī II. Para o novo governante, reconhecer formalmente o predecessor significaria também registrar uma transferência de poder potencialmente problemática.
O que aconteceu durante a rebelião associada ao eclipse solar?
O Tiglath-pileser ausente da lista teria se levantado contra seu sobrinho Aššur-dān III em 763 a.C. Nesse mesmo ano ocorreu um eclipse solar, fenômeno que no contexto religioso assírio podia ser interpretado como um presságio ameaçador para o rei. O período também foi precedido por uma epidemia registrada em 765 a.C.
O estudo publicado no Journal of Cuneiform Studies propõe que Tiglath-pileser conseguiu ser entronizado em Aššur durante essa crise, mas Aššur-dān III recuperou o controle posteriormente. O episódio representa, portanto, um reinado concorrente, e não necessariamente uma substituição definitiva.

Como os reis assírios alteram a cronologia conhecida?
A identificação não destrói toda a cronologia neoassíria, porque a sequência anual de epônimos fornece uma estrutura particularmente sólida para grande parte do primeiro milênio a.C. O impacto principal está na interpretação política: dentro dos mesmos anos conhecidos, podem ter existido reis concorrentes ou sucessões breves que a lista oficial suprimiu.
Shalmaneser exemplifica esse problema. Os pesquisadores propõem que ele sucedeu Aššur-nārārī V no fim de 747 a.C., governou pouco mais de um ano e perdeu o trono para Tiglath-pileser III em 745 a.C., justamente às vésperas de uma enorme transformação do império.
| Governante proposto | Período aproximado | Principal evidência |
|---|---|---|
| Aššur-uballiṭ | 913–912 a.C. | Inscrição e estátua |
| Tiglath-pileser | 763–762 a.C. | Concessão real |
| Shalmaneser | 747–745 a.C. | Estela alterada |
O que essa descoberta revela sobre a maneira como a Assíria escrevia sua própria história?
A pesquisa sugere que documentos oficiais não registravam simplesmente tudo o que aconteceu. Ao reorganizar a memória de reis derrotados, escribas e sucessores podiam criar uma aparência de continuidade dinástica muito maior do que aquela realmente vivida pela população assíria.
Isso transforma também a própria Lista de Reis em objeto de investigação política. Em vez de perguntar apenas quem aparece nela, historiadores passam a perguntar quem teve poder para decidir quem merecia aparecer, permitindo reconstruir conflitos que sobreviveram justamente nas pequenas contradições deixadas por documentos que escaparam da versão oficial.
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