Sessenta e oito quilômetros de canais levaram água por colinas até Jerusalém e sistema sobreviveu a impérios e mudanças de tecnologia
Rede hidráulica conectou nascentes, túneis e reservatórios a Jerusalém e foi adaptada continuamente durante quase dois milênios
Durante quase dois milênios, Jerusalém dependeu de uma infraestrutura que começava dezenas de quilômetros ao sul da cidade. O Qanat es-Sabeel fazia parte de um sistema hidráulico de aproximadamente 68 quilômetros que reunia nascentes, aquedutos, túneis e grandes reservatórios. Construído e ampliado em diferentes períodos, ele aproveitava diferenças mínimas de altitude para transportar água por gravidade através das colinas da região de Hebron e Belém.
Como o Qanat es-Sabeel conseguia transportar água por tantos quilômetros?
O sistema não era um único aqueduto contínuo. Nascentes situadas nas terras altas alimentavam canais como os de Wadi al-Arrub e Wadi al-Biyyar, que levavam água até os reservatórios conhecidos como Piscinas de Salomão, ao sul de Belém. Dali partiam aquedutos em direção a Jerusalém.
O Aqueduto Inferior, identificado como Qanat es-Sabeel, percorria cerca de 21,5 quilômetros entre o reservatório inferior e Jerusalém. A diferença vertical entre início e fim era de apenas cerca de 30 metros, exigindo uma inclinação extremamente precisa para manter o fluxo sem bombas.
Leia também: Uma montanha invisível desvia correntes no fundo do oceano e leva alimento às encostas
Como os engenheiros atravessaram montanhas e vales?
O relevo obrigou os construtores a combinar várias soluções. Em alguns setores, o canal acompanhava as curvas das encostas; em outros, era escavado diretamente na rocha. Túneis permitiam atravessar elevações sem perder altitude, enquanto muros de sustentação e pequenas obras de travessia venciam depressões.
O aqueduto de Wadi al-Biyyar é especialmente complexo: possui aproximadamente 4,7 quilômetros, grande parte subterrânea, além de numerosos poços verticais destinados ao acesso, ventilação e manutenção. Outro trecho do sistema empregou até tubulações de pedra funcionando como sifão invertido.
- Canais escavados diretamente na rocha;
- Túneis atravessando elevações;
- Poços verticais de manutenção;
- Reservatórios para armazenar e regular a água;
- Tubulações pressurizadas em trechos específicos.
Este vídeo mostra as Piscinas de Salomão e sua ligação histórica com Jerusalém.
Por que o Qanat es-Sabeel dependia tanto da gravidade?
A água precisava percorrer longas distâncias sem motores. No aqueduto de al-Arrub, por exemplo, aproximadamente 45 quilômetros separavam a área de captação dos reservatórios, enquanto a diferença de altitude era de apenas algumas dezenas de metros. Pequenos erros poderiam interromper o fluxo ou acelerar excessivamente a água.
A inclinação suave também reduzia erosão e perdas. Nas proximidades de Jerusalém, o Aqueduto Inferior descia aproximadamente um metro a cada 716 metros de percurso. Essa precisão permitia transportar água até cisternas, fontes públicas e instalações urbanas localizadas em cotas compatíveis com o canal.
Quando esse sistema hidráulico foi construído?
A cronologia possui diferentes fases. Evidências arqueológicas indicam que o Aqueduto Inferior surgiu durante o período do Segundo Templo. Pesquisas recentes também identificam alterações bizantinas, redirecionamentos durante o período islâmico e sucessivas reformas realizadas posteriormente.
Uma escavação arqueológica do túnel de Armon Ha-Naẓiv confirmou por achados arqueológicos a construção do aqueduto nesse período antigo e registrou mudanças posteriores. O sistema atual, portanto, não corresponde exatamente a uma única obra original: ele reúne adaptações acumuladas durante séculos.

Como o Qanat es-Sabeel mudou com novas tecnologias?
Governos e comunidades conservaram a infraestrutura porque Jerusalém continuava precisando de água. Durante o período otomano, segmentos de antigos canais receberam tubos cerâmicos para reduzir perdas e contaminação. Em 1889, partes do trajeto entre Belém e Jerusalém receberam tubulações de ferro.
Já durante o Mandato Britânico, sistemas modernos com tubos de aço e bombeamento mecânico passaram gradualmente a substituir o transporte exclusivamente gravitacional. O Aqueduto Inferior, porém, permaneceu relevante até o início do século XX, demonstrando a extraordinária longevidade da concepção hidráulica original.
Por que esse sistema continua importante para a história de Jerusalém?
Em janeiro de 2026, o sistema hidráulico de Jerusalém centrado no Qanat es-Sabeel foi incluído na Lista Indicativa do Patrimônio Mundial apresentada à UNESCO. A candidatura destaca reservatórios, aquedutos, túneis e canais preservados ao longo do corredor entre Hebron, Belém e Jerusalém.
Mais do que uma obra romana isolada, a rede registra sucessivas camadas de engenharia. Romanos, bizantinos, governantes islâmicos, mamelucos, otomanos e administrações modernas repararam ou modificaram seus componentes, transformando uma infraestrutura antiga em um sistema que acompanhou quase dois milênios de mudanças políticas e tecnológicas.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)