Segundo um novo estudo, as Cataratas de Sangue da Antártida guardam descendentes de antigas criaturas marinhas
O ambiente isolado preserva pistas de formas de vida ligadas a um passado muito antigo
Uma água vermelha que escorre sobre o gelo da Antártida já era conhecida pelo ferro e pela salmoura escondida sob o Glaciar Taylor. Agora, um novo estudo acrescenta outra camada ao fenômeno: a região preserva uma comunidade microscópica ativa, ligada a antigas águas marinhas que ficaram isoladas quando o ambiente mudou.
O que os cientistas encontraram nas Cataratas de Sangue?
Os pesquisadores encontraram uma comunidade de microeucariotos, organismos microscópicos cujas células têm núcleo, concentrada no gelo vermelho, na lama e nos sedimentos próximos às Cataratas de Sangue.
O estudo publicado na Nature Geoscience em 3 de agosto de 2026 analisou 167 amostras dos Vales Secos de McMurdo e de pontos marinhos usados como comparação. A equipe encontrou uma comunidade com forte ligação a ambientes oceânicos justamente perto do ponto onde a salmoura emerge.

Quais sinais ligam essa comunidade ao antigo oceano?
A ligação aparece na composição dos organismos e na comparação com amostras marinhas atuais. O artigo científico encontrou linhagens marinhas restritas principalmente ao material avermelhado junto ao Glaciar Taylor.
Os dados mais importantes da pesquisa podem ser resumidos assim:
Como organismos ligados ao mar foram parar sob o gelo?
A principal hipótese é que água do mar tenha alcançado o Vale Taylor durante períodos mais quentes. Depois, a queda do nível do mar e o avanço do gelo teriam isolado parte dessa água salgada sob o glaciar.
O J. Craig Venter Institute, que participou da pesquisa, explica que a salmoura ficou separada do ambiente externo e continua sendo liberada de forma periódica na paisagem polar.
- Entrada antiga: água do mar alcançou a região em outra fase climática.
- Isolamento: o avanço do gelo separou a salmoura do oceano aberto.
- Adaptação: linhagens resistentes permaneceram em condições frias e salgadas.
- Descarga: parte da salmoura ainda alcança a superfície nas Cataratas de Sangue.
Esses organismos ficaram congelados sem mudar?
Não. A pesquisa indica uma comunidade marinha relicta, ou seja, uma comunidade atual que preserva sinais de um ambiente antigo. As linhagens passaram por isolamento, seleção e adaptação ao longo do tempo.
Essa diferença ajuda a entender o que significa chamar esses organismos de descendentes. Eles carregam uma ligação com antigas comunidades marinhas, mas não representam uma cópia intacta do oceano do passado.
Leia também: O fenômeno raro que faz o gelo da Antártida parecer sangrar um líquido vermelho-vivo
Por que essa descoberta muda a leitura das Cataratas de Sangue?
As Cataratas de Sangue deixam de ser apenas um fenômeno químico ligado ao ferro. O local também funciona como um registro biológico de antigas ligações entre o continente, o oceano e o avanço do gelo.
A Yale University destaca que a equipe encontrou uma rede complexa de microrganismos em um ambiente que permaneceu isolado por muito tempo. A cor vermelha continua ligada ao ferro da salmoura, mas a vida escondida no sistema passou a contar outra parte da história da Antártida.
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