Rochas da Paraíba guardaram a memória de um campo magnético terrestre muito mais fraco justamente durante uma explosão de vida antiga
Estudo com rochas de 525 milhões de anos revela que a proteção magnética da Terra permaneceu enfraquecida durante uma fase decisiva da evolução animal
Rochas formadas há aproximadamente 525 milhões de anos, em Itabaiana, na Paraíba, revelaram que o campo magnético terrestre permaneceu excepcionalmente fraco durante o Cambriano, período marcado pela diversificação de animais marinhos. Publicada na revista Science Advances, em julho de 2026, a pesquisa indica que essa condição persistiu por dezenas de milhões de anos, contrariando modelos de recuperação rápida da proteção magnética.
Como as rochas da Paraíba preservaram o campo magnético terrestre antigo?
A descoberta envolveu o Enxame de Diques de Itabaiana, conjunto de rochas magmáticas formado quando material fundido penetrou fraturas da crosta terrestre. Essas estruturas registram acontecimentos associados à formação do supercontinente Gondwana. Os afloramentos foram escolhidos porque pesquisas anteriores já haviam demonstrado que preservavam sinais magnéticos antigos relativamente estáveis.
Durante o resfriamento do magma, minerais como a magnetita adquiriram uma magnetização influenciada pelo campo existente naquele momento. Depois de solidificadas, as rochas conservaram parte dessa orientação magnética durante milhões de anos. Esse fenômeno permite que geofísicos investiguem condições muito anteriores à existência de instrumentos modernos de medição.
O que o campo magnético terrestre revelou sobre a explosão de vida cambriana?
As análises indicaram intensidades aproximadas de 8 a 12 microteslas nas amostras brasileiras, enquanto rochas do Canadá apresentaram valores ainda menores, alguns inferiores a 1 microtesla. Atualmente, o campo magnético na superfície terrestre varia aproximadamente entre 25 e 65 microteslas, dependendo da localização. Os resultados demonstram uma condição geomagnética significativamente diferente da atual.
A comparação entre os registros brasileiros e canadenses revelou que a intensidade permaneceu reduzida durante parte importante da diversificação animal. As principais evidências incluem:
- Rochas brasileiras formadas há aproximadamente 525 milhões de anos;
- Amostras canadenses com cerca de 505 milhões de anos;
- Intensidades magnéticas muito inferiores às observadas atualmente;
- Registros de inversões na polaridade do campo terrestre;
- Persistência de condições magnéticas fracas por aproximadamente 40 milhões de anos após a radiação cambriana.
O vídeo educativo Paleomagnetism, do canal Earth Rocks!, explica como minerais preservam informações sobre o campo magnético antigo. Publicado em 2015, é anterior ao estudo brasileiro de 2026.
Por que o campo magnético terrestre pode enfraquecer durante milhões de anos?
O magnetismo planetário é produzido principalmente pelo movimento de ferro líquido eletricamente condutor no núcleo externo da Terra. Esse mecanismo, chamado geodínamo, depende da convecção do material metálico e da rotação terrestre. Mudanças na circulação interna podem alterar a intensidade e a configuração do campo, inclusive favorecendo inversões de polaridade.
Uma hipótese relaciona o fortalecimento do geodínamo à formação do núcleo interno sólido, processo que libera energia e modifica a movimentação do metal líquido. Entretanto, as novas medições não confirmam uma recuperação intensa e duradoura por volta de 550 milhões de anos atrás. O momento exato da formação do núcleo interno permanece incerto.
Como os pesquisadores mediram o magnetismo preservado nas rochas brasileiras?
O estudo publicado na revista Science Advances, em 23 de julho de 2026, foi liderado por Simon Lloyd, da Universidade de Liverpool, com participação de Ricardo Trindade, da Universidade de São Paulo. A equipe analisou rochas magmáticas da Paraíba e da Nova Escócia, no Canadá, combinando diferentes procedimentos experimentais de paleointensidade.
Em laboratório, os pesquisadores utilizaram aquecimento controlado, micro-ondas e outras técnicas para comparar a magnetização antiga com campos conhecidos. Também avaliaram possíveis alterações minerais que poderiam comprometer os resultados. A concordância entre métodos independentes reforçou a interpretação de que os sinais representam condições magnéticas existentes durante a formação das rochas.

Quais números mostram a dimensão do enfraquecimento magnético da Terra?
Os resultados mostram diferenças importantes entre os locais estudados. Em Itabaiana, as médias dos sítios analisados variaram de 8,0 a 12,3 microteslas. Na Nova Escócia, ficaram entre 0,6 e 1,7 microtesla. Esses valores representam registros locais antigos, não uma intensidade uniforme em todo o planeta.
A pesquisa também reinterpretou medições anteriores utilizando critérios padronizados de qualidade. Essa comparação ampliou a evidência de que o enfraquecimento atravessou dezenas de milhões de anos. As diferenças entre as amostras dependem também da posição geográfica e da geometria do campo magnético da época.
O que essa descoberta significa para a proteção do planeta e a evolução da vida?
Um campo magnético enfraquecido pode permitir maior interação entre partículas solares e a atmosfera terrestre, alterando processos de perda atmosférica. Alguns cientistas investigam se essas condições favoreceram transformações químicas relacionadas à disponibilidade de oxigênio. Entretanto, não existe demonstração de que o enfraquecimento magnético tenha causado a explosão cambriana.
A diversificação dos animais também envolveu mudanças ambientais, disponibilidade de nutrientes e inovações evolutivas. Os novos resultados ajudam a delimitar as condições físicas em que esses processos ocorreram, mas não estabelecem causalidade biológica. Amostras de outras regiões poderão esclarecer quando o geodínamo recuperou maior intensidade e como essa transformação aconteceu.
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