Roberto Lima, 52 anos, motorista de aplicativo: “Larguei 22 anos de empresa e hoje ganho menos, mas não tenho mais chefe nem domingo perdido”
Ele troca 22 anos de carteira assinada por um carro de aplicativo: ganha menos, não tem chefe e recuperou os domingos em família
Ele pediu as contas depois de 22 anos
Ganha menos e não se arrepende. O que foi que ele comprou com essa troca? ⬇️
Roberto Lima tem 52 anos e passou duas décadas na mesma empresa antes de entregar o crachá. Hoje ele roda pela cidade como motorista de aplicativo e resume a decisão de um jeito que muita gente entende de imediato: ganha menos, mas não tem mais chefe nem domingo perdido. A escolha dele espelha um movimento que já reúne milhões de brasileiros, e que ainda não terminou de ser decidido nos tribunais.
O que muda quando a carteira deixa de ser assinada?
Muda a estrutura inteira de proteção. Quem sai do regime celetista abre mão de férias remuneradas, décimo terceiro, fundo de garantia, aviso prévio e do seguro-desemprego. Em troca, recebe controle total sobre a própria agenda.
Muda também quem paga a conta dos custos. Combustível, manutenção, seguro, pneus e depreciação do veículo saem do bolso do próprio profissional, e quase nunca entram na conta mental de quem compara o rendimento bruto com o antigo salário.
A comparação fica mais honesta quando os dois modelos aparecem lado a lado.
Quanto ganha, na média, quem roda por aplicativo?
Menos do que a média nacional, com jornada maior. Levantamento do Ipea mostra que, em 2012, motoristas autônomos do transporte de passageiros somavam cerca de 400 mil pessoas e rendimento médio próximo de R$ 3,1 mil. Em 2022, com quase 1 milhão de ocupados, o rendimento médio caiu para menos de R$ 2,4 mil.
A jornada seguiu o caminho contrário. A parcela desses profissionais que trabalha entre 49 e 60 horas semanais passou de 21,8% para 27,3% no mesmo período. O Banco Central registrou 2,1 milhões de trabalhadores por aplicativo no país em 2025.

Como fica a aposentadoria de quem dirige por app?
Ela existe, mas depende inteiramente de disciplina pessoal. Sem desconto automático na folha, a contribuição vira uma escolha mensal, e é justamente aí que muita gente escorrega. Veja os caminhos disponíveis:
- Contribuinte individual, com alíquota de 20% sobre o valor declarado
- Plano simplificado, com 11% sobre o salário mínimo e teto de benefício reduzido
- Microempreendedor individual, quando a atividade permite o enquadramento
- Previdência privada como complemento, nunca como substituta do regime público
Um detalhe que pega muita gente de surpresa: os meses sem recolhimento não entram na conta do tempo de contribuição, e o benefício por incapacidade também exige carência.
O seguro do carro merece a mesma atenção. Apólices comuns costumam excluir cobertura para uso remunerado do veículo, e o motorista que não informa a atividade corre o risco de ficar sem indenização depois de um acidente.
O STF já decidiu se existe vínculo com o aplicativo?
Ainda não em definitivo. O Supremo Tribunal Federal analisa o Tema 1291, no recurso apresentado pela Uber contra decisão que reconheceu emprego a uma motorista, e a tese fixada valerá para mais de dez mil processos parados em outras instâncias.
Enquanto isso não sai, cada caso continua sendo julgado pela prova apresentada. Guardar prints de corridas, extratos e conversas com o suporte é o conselho que advogados repetem em qualquer entrevista sobre o assunto.
Vale trocar segurança por controle do tempo?
A resposta é pessoal e muda conforme a fase da vida. Quem tem reserva financeira, carro quitado e plano de saúde encontra na direção autônoma uma liberdade real. Quem depende do rendimento do mês seguinte assume um risco bem maior do que aparenta.
Fica o convite: se você pensa em fazer a mesma escolha, monte antes uma planilha simples com todos os custos do carro por quilômetro rodado. O número costuma mudar a conversa.
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