Rios do Alasca ficaram laranja no meio de uma paisagem sem minas e análises encontraram água mais metálica que drenagem de mineração
Descongelamento do permafrost libera ferro e metais potencialmente tóxicos em rios remotos, ameaçando a qualidade da água e os ecossistemas do Ártico
Rios do Alasca estão ficando laranja devido à liberação natural de metais, mesmo em regiões remotas sem atividade mineradora. Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 revelou águas extremamente ácidas na cordilheira Brooks Range, onde o descongelamento do permafrost está expondo minerais e permitindo que substâncias potencialmente tóxicas alcancem cursos d’água.
Por que os rios do Alasca estão mudando de cor?
Na cordilheira Brooks Range, no norte do Alasca, pesquisadores observaram rios anteriormente transparentes adquirindo tonalidades alaranjadas intensas. O fenômeno chamou atenção especialmente porque ocorre dentro de parques e áreas naturais protegidas, longe de minas responsáveis por despejos industriais. Algumas alterações começaram a aparecer em imagens de satélite por volta de 2018.
A principal explicação envolve o permafrost, camada de solo e rochas que permanece congelada por pelo menos dois anos consecutivos. Com o aquecimento regional, partes desse material descongelam e permitem a circulação de água subterrânea. O líquido entra em contato com minerais anteriormente isolados, desencadeando reações que liberam ferro, sulfato e outros elementos químicos.
O que as análises revelaram sobre os rios do Alasca?
Os pesquisadores examinaram seis bacias hidrográficas e encontraram pontos de drenagem extremamente ácidos, com pH mediano de aproximadamente 3,2. Nesses locais, a soma das concentrações de 23 metais e elementos analisados alcançou uma mediana de 451 miligramas por litro, valor muito superior ao encontrado em trechos preservados.
A contaminação apresentou características comparáveis às da drenagem ácida de minas, embora tenha origem natural. Concentrações de níquel, zinco e cádmio chegaram a níveis semelhantes aos registrados em rios afetados pela mineração. A pesquisa também identificou aumentos de até 70 vezes na concentração de metais em trechos situados dezenas de quilômetros abaixo das fontes contaminantes.
- Seis bacias hidrográficas foram investigadas;
- As amostras foram coletadas entre 2022 e 2024;
- Algumas drenagens apresentaram pH mediano de 3,2;
- Foram analisados 23 metais e elementos químicos;
- A contaminação alcançou trechos distantes mais de 100 quilômetros.
O vídeo publicado pela Universidade da Califórnia em Davis mostra rios alaranjados da Brooks Range e apresenta pesquisadores que investigam a liberação de metais provocada pelo descongelamento do permafrost.
Como o permafrost libera ferro e outros metais na água?
Um dos mecanismos envolve a oxidação de minerais sulfetados, como a pirita, formada por ferro e enxofre. Quando esses minerais entram em contato com oxigênio e água, ocorrem reações que podem produzir ácido sulfúrico e liberar metais. A água ácida favorece a dissolução e o transporte de outros elementos presentes nas rochas.
Ao alcançar ambientes com condições químicas diferentes, parte do ferro dissolvido se transforma em partículas de compostos férricos, responsáveis pela coloração semelhante à ferrugem. Entretanto, a cor laranja não revela sozinha a toxicidade da água. Alguns rios apresentam precipitados de ferro sem concentrações igualmente elevadas de metais perigosos.
Como os pesquisadores investigaram a origem dessa contaminação?
O estudo foi liderado por Taylor G. Evinger, da Universidade da Califórnia em Davis, com participação de Brett Poulin e especialistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Publicado em 24 de setembro de 2026 na revista AGU Advances, o estudo científico original analisou a química da água em seis bacias da Brooks Range.
A equipe coletou amostras de rios principais, afluentes e pontos de surgência subterrânea durante os verões de 2022 a 2024. Registros históricos permitiram associar o início de episódios intensos de contaminação ao período de 2019 e 2020, após condições excepcionalmente quentes e invernos com neve abundante.

Quais diferenças apareceram entre águas preservadas e contaminadas?
Os trechos preservados apresentaram pH mediano de 8,3, enquanto as surgências ácidas registraram aproximadamente 3,2. A concentração mediana de sulfato também aumentou drasticamente, passando de 68 miligramas por litro nos rios de referência para 3.025 miligramas por litro nas surgências contaminadas.
Nos afluentes afetados, o pH mediano ficou próximo de 6,9, indicando que a mistura com outras águas pode neutralizar parte da acidez. Entretanto, os metais continuam sendo transportados, podendo atingir organismos localizados muito abaixo das fontes iniciais. Essa diferença demonstra que água menos ácida não significa necessariamente ausência de contaminação.
| Indicador | Rio preservado | Surgência ácida |
|---|---|---|
| pH mediano | 8,3 | 3,2 |
| Sulfato | 68 mg/L | 3.025 mg/L |
| Soma de 23 elementos | 0,1 mg/L | 451 mg/L |
| Coloração | Geralmente transparente | Frequentemente alaranjada |
Por que os rios alaranjados representam uma ameaça aos ecossistemas?
O aumento da acidez e de metais pode prejudicar peixes, insetos aquáticos e outros organismos que dependem de águas frias e relativamente limpas. Pesquisas anteriores na região já identificaram redução da diversidade de invertebrados e da abundância de peixes em cursos d’água afetados pela mudança de coloração.
A contaminação também preocupa comunidades que dependem da pesca e dos recursos hídricos do Ártico. Entretanto, os efeitos variam conforme a composição química e a capacidade de diluição de cada rio. O acompanhamento contínuo será essencial para determinar se os sistemas conseguem recuperar sua qualidade ou se novos episódios de descongelamento ampliarão o problema.
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