Rebobinar a fita antes de devolver à locadora: quem esqueceu, pagou multa e conheceu a dor dos anos 80
Brasil chegou a ter quase 18 mil locadoras e em todas elas rebobinar a fita era obrigação que valia multa
📼 Você lembra do barulho da fita voltando dentro do aparelho?
Se lembrou, provavelmente já devolveu uma fita sem rebobinar e sentiu a vergonha na cara ao ouvir o atendente avisar. Nos anos 80 e 90, esse gesto era um pacto social. Quem descumpria pagava multa e carregava a fama de sem-educação no bairro inteiro ⬇️
O ritual começava na sexta-feira. Sair de casa, caminhar até a locadora do bairro, passar os olhos pelas prateleiras, virar as caixas, ler as sinopses, negociar com quem disputava o mesmo lançamento e voltar para casa com três fitas debaixo do braço. Aí vinha a parte que ninguém podia esquecer: depois de assistir, rebobinar. Apertar o botão REW, ouvir o zumbido acelerando, esperar até o clique seco que indicava que a película tinha voltado ao início. Quem devolvesse sem fazer isso pagava multa, perdia crédito e, em muitos casos, ganhava olhar de reprovação do atendente na próxima visita.
Por que rebobinar a fita virou uma regra tão séria nas locadoras?
Porque o próximo cliente não merecia apertar o play e cair direto nos créditos finais. A fita VHS era um objeto linear. Diferente do DVD, que começa sozinho do ponto zero, o videocassete reproduzia exatamente de onde a película tinha parado. Se o último usuário assistiu até o fim e desligou o aparelho sem rebobinar, a fita ia para a prateleira travada no encerramento do filme.
O resultado era previsível: o cliente seguinte colocava a fita no aparelho, apertava play e via o elenco subindo na tela. Precisava então gastar de 3 a 5 minutos rebobinando antes de começar a sessão. Parece pouco, mas num sábado à noite, com a pipoca esfriando e a família esperando no sofá, aqueles minutos pesavam.
As locadoras transformaram o gesto em regra. Muitas colavam adesivos nas caixas com a frase “Seja gentil, rebobine”. Outras iam além e cobravam multa em dinheiro. O valor variava, mas a mensagem era clara: devolver a fita sem rebobinar era falta de consideração com o próximo, e consideração tinha preço.

Como era o ritual completo de alugar um filme nos anos 90?
Era um programa. Não um clique, não um comando de voz, não uma rolagem de tela. Era um deslocamento físico com começo, meio e fim, mediado por pessoas reais. A videolocadora funcionava como uma biblioteca de entretenimento com suas próprias regras de convivência.
O processo seguia etapas que hoje parecem de outro século:
- Apresentar documento e fazer cadastro na primeira vez. Nome, endereço, telefone fixo. Algumas pediam comprovante de residência.
- Escolher o filme na prateleira. Lançamentos ficavam em destaque, mas custavam mais e tinham prazo de 24 horas. Catálogo antigo podia ficar até o fim de semana.
- Levar as fitas para casa, assistir, rebobinar e devolver dentro do prazo. Atraso gerava multa diária. Fita danificada gerava cobrança pelo valor integral da cópia.
O atendente da locadora era um personagem à parte. Conhecia o gosto de cada cliente, recomendava filmes por afinidade, avisava quando o lançamento esperado chegava e, muitas vezes, reservava uma cópia por debaixo do balcão para os frequentadores mais fiéis. Era o algoritmo humano de recomendação, décadas antes de qualquer plataforma digital tentar fazer o mesmo.
Quantas locadoras existiam no Brasil no auge do VHS?
Quase 18 mil. Segundo pesquisa do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo da UERJ, o Brasil atingiu o pico de 17.938 videolocadoras em 1996. O crescimento foi explosivo: em 1985, eram 1.800 estabelecimentos. Um ano depois, o número saltou para 4.500. Em 1991, já passava de 8 mil.
Para entender a escala: em 1990, o mercado de vídeo doméstico faturou 400 milhões de dólares no país, quase três vezes mais que a bilheteria dos cinemas, que arrecadou 138 milhões. As locadoras não apenas complementavam o cinema. Elas o superavam como forma de acesso a filmes.
O que aconteceu com as locadoras depois que o streaming chegou?
Desapareceram. Dados do IBGE mostram que, em 1999, havia videolocadoras em 63,9% dos municípios brasileiros. Em 2012, esse número já tinha caído para 43,2%. Entre 2007 e 2014, dois terços de todas as locadoras do país fecharam as portas. A Blockbuster, que chegou ao Brasil nos anos 90 e profissionalizou o setor, encerrou suas operações e foi vendida. Redes tradicionais como a 2001 Vídeo, em São Paulo, e a Paradise, no Rio, anunciaram o fim após décadas de funcionamento.
Em 2016, a japonesa Funai Electric, última fabricante mundial de aparelhos de videocassete, produziu sua derradeira unidade. As vendas tinham despencado de 15 milhões de unidades por ano para 750 mil. O VHS morreu oficialmente, e com ele o gesto de rebobinar.

Rebobinar era mesmo só uma obrigação ou tinha algo a mais?
Tinha. Rebobinar era um gesto de encerramento. O filme acabava, os créditos subiam, e o espectador fazia a fita voltar ao começo como quem fecha um livro antes de pôr na estante. Havia um respeito embutido naquele ato mecânico: respeito pelo aparelho, pela fita VHS, pelo próximo que ia assistir e pelo próprio ritual de ver um filme em casa.
Quem tinha cuidado extra comprava um rebobinador portátil, um aparelhinho em forma de carrinho de corrida ou de carro antigo que fazia o serviço fora do videocassete, poupando o motor principal. Colocava-se a fita ali, apertava-se o botão e ela voltava ao início em menos de dois minutos, com um zumbido agudo que virou trilha sonora de fim de noite.
O streaming eliminou a espera, o deslocamento, a multa e o rebobinar. Ganhou-se em conveniência. Perdeu-se o ritual. Hoje, um filme começa e termina sem que ninguém precise sair do sofá, falar com outra pessoa ou cuidar de um objeto físico depois. A experiência ficou mais prática e menos memorável.
Se você ainda guarda uma fita VHS em algum canto da casa, segure-a por um instante. Sinta o peso. Lembre do clique. E sorria, porque você fez parte de uma geração que sabia o valor de rebobinar antes de devolver.
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