Quatro cavernas numa única cadeia montanhosa guardaram fezes de preguiças gigantes e pólen suficiente para acompanhar 13 mil anos de vegetação
Fezes fossilizadas, pólen e restos de animais revelam como florestas frias deram lugar ao atual deserto nas montanhas do Texas
Nas Guadalupe Mountains, no oeste do Texas, cavernas secas funcionaram como arquivos naturais do fim do Pleistoceno e do Holoceno. Quatro delas preservam fezes de preguiças gigantes, além de pelos, pele, ossos de aves e pequenos mamíferos. Restos vegetais e pólen coletados nesses ambientes permitiram reconstruir aproximadamente 13 mil anos de mudanças na vegetação, revelando uma paisagem muito mais fria e úmida antes do atual deserto de Chihuahua.
Quais cavernas preservaram fezes de preguiças gigantes?
O National Park Service identifica quatro localidades dentro do Guadalupe Mountains National Park: Lower Sloth Cave, Upper Sloth Cave, Dust Cave e Williams Cave. Elas estão entre as dez cavernas conhecidas mundialmente pela agência norte-americana com depósitos de fezes fossilizadas de preguiças terrestres.
Os vestígios pertencem principalmente à preguiça-terrestre-de-Shasta, Nothrotheriops shastensis, espécie extinta que viveu no oeste da América do Norte. O ambiente seco das cavernas favoreceu a dessecação, permitindo conservar materiais orgânicos frágeis que normalmente desapareceriam rapidamente em ambientes úmidos.
Leia também: Uma montanha invisível desvia correntes no fundo do oceano e leva alimento às encostas
O que fezes fossilizadas conseguem revelar sobre o passado?
Fezes preservadas podem conter fragmentos de plantas ingeridas pelos animais, oferecendo uma amostra direta de sua alimentação. Associadas a pólen, folhas, sementes e depósitos produzidos por ratos-do-mato do gênero Neotoma, elas também ajudam a identificar as plantas que cresciam perto das cavernas.
A informação é complementada por datação por radiocarbono. Amostras de fezes de preguiça e restos vegetais das cavernas produziram idades próximas de 13 mil a 11 mil anos, permitindo organizar diferentes comunidades vegetais em uma sequência cronológica.
- Lower Sloth Cave;
- Upper Sloth Cave;
- Dust Cave;
- Williams Cave;
- Restos vegetais e pólen associados.
Este vídeo apresenta a geologia e a paisagem das Guadalupe Mountains.
Que paisagem cercava as preguiças gigantes?
Há aproximadamente 13 mil anos, as partes elevadas das Guadalupe Mountains abrigavam uma vegetação muito diferente da atual. Restos encontrados em cavernas incluem abetos, pinheiros, zimbros e outras plantas relacionadas a ambientes mais frios e úmidos do que o deserto moderno.
Com o término do último período glacial, temperaturas e padrões de precipitação mudaram. Comunidades florestais recuaram, espécies adaptadas a condições secas avançaram e, ao longo de milhares de anos, a região assumiu gradualmente a vegetação xerófita atualmente característica do deserto de Chihuahua.
Como os cientistas reconstruíram 13 mil anos de vegetação?
Os pesquisadores combinaram pólen microscópico com macrofósseis vegetais, como folhas, agulhas de coníferas, sementes e galhos. Como determinadas plantas possuem exigências climáticas conhecidas, mudanças na composição desses conjuntos ajudam a inferir alterações de temperatura e umidade.
As datações por radiocarbono publicadas para amostras das Guadalupe Mountains incluem agulhas de Picea com idades próximas de 13 mil anos. Em conjunto com outros depósitos, os dados sustentam uma sequência que acompanha a passagem de florestas relativamente úmidas para comunidades progressivamente mais áridas.

Que outros fósseis aparecem nas cavernas das Guadalupe Mountains?
Além das preguiças gigantes, as cavernas guardam restos de aves, répteis, pequenos mamíferos e outros vertebrados do Pleistoceno e Holoceno. Em alguns depósitos foram preservadas até penas, pelos e fragmentos de pele, graças às condições excepcionalmente secas.
Esses materiais permitem comparar mudanças na fauna com transformações da vegetação. Quando espécies associadas a determinados ambientes desaparecem e outras passam a dominar, os pesquisadores obtêm linhas independentes de evidência sobre alterações climáticas e ecológicas.
Por que essas cavernas são arquivos climáticos tão valiosos?
Cavernas secas protegem materiais que dificilmente sobreviveriam expostos ao tempo. Sedimentos e restos orgânicos podem permanecer relativamente estáveis durante milênios, enquanto diferentes camadas registram episódios sucessivos de ocupação animal e deposição vegetal.
No Guadalupe Mountains National Park, esse conjunto conecta paleontologia, botânica e climatologia. Em vez de apenas mostrar quais animais existiam, as cavernas documentam como comunidades inteiras responderam à transição entre o último período glacial e o clima árido atual.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)