Projeto brasileiro está convertendo um Chevette clássico dos anos 70 em um carro elétrico e mostra desafios de colocar tecnologia moderna em carro antigo
Projeto artesanal adapta motor elétrico, baterias de Volvo híbrido e central eletrônica moderna em um Chevette clássico dos anos 1970.
Um Chevette com motor elétrico, baterias de Volvo híbrido, painel digital e central eletrônica com rede CAN. Não é ficção científica nem projeto de montadora: é uma conversão artesanal sendo construída em oficina brasileira, parafuso por parafuso, cabo por cabo, com o desafio de fazer um clássico nacional dos anos 1970 funcionar com tecnologia do século XXI.
Por que converter um Chevette para elétrico é mais difícil do que parece
A ideia de colocar um motor elétrico no lugar do motor a combustão é a parte mais simples do projeto. O verdadeiro desafio está em integrar sistemas eletrônicos modernos a uma estrutura que nunca foi pensada para isso. O Chevette não tem rede CAN, não tem gerenciamento eletrônico e não foi projetado para suportar cabos de alta tensão correndo pela longarina. Cada etapa da conversão exige adaptação, improviso qualificado e decisões tomadas na bancada.
A equipe trabalha com componentes reaproveitados de um carro doador, identificado como Dong Feng, incluindo cabos de alta tensão e conectores já compatíveis com a aplicação. A caixa de alta tensão, que distribuirá energia das baterias para o inversor e demais sistemas, está sendo posicionada no porta-malas com ajustes de corte de lataria e fabricação de suportes em tubo metálico soldado, para garantir fixação rígida sem vibração.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Reset mostrando o processo de conversão de um Chevette para elétrico:
O coração do projeto: motor, baterias e potência esperada
O motor escolhido é da WEG, de uma linha desenvolvida especificamente para eletrificação de veículos. Com corrente de 300 A em um sistema de aproximadamente 400 V, a expectativa é chegar a algo em torno de 120 kW, equivalente a 150 ou 180 cv. Para um Chevette com carroceria leve, isso representa uma transformação radical de desempenho.
As baterias vêm de um Volvo híbrido e somam aproximadamente 20 kWh, com autonomia estimada entre 100 km e 150 km dependendo do uso. Por trabalharem abaixo do esforço original para o qual foram projetadas, a tendência é que não aqueçam nem desbalancem com facilidade. Ainda assim, a instalação de um BMS (sistema de gerenciamento de baterias) é considerada essencial para monitoramento e segurança do conjunto.
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O que a central eletrônica e o painel digital mudam na experiência
Toda a integração eletrônica do Chevette elétrico passará pela central Fiotec, que se comunicará com o inversor WEG e demais módulos por rede CAN. Isso significa que componentes como o conversor DC-DC, o sistema de refrigeração das baterias e futuramente o painel digital poderão ser gerenciados de forma integrada por um único sistema. A parametrização ainda depende de ajustes técnicos com a equipe da empresa.
O painel escolhido é o Ghost Dashboard, um display digital que pode operar tanto por rede CAN quanto por ligação analógica. No Chevette, ele será instalado atrás do painel original com moldura feita em impressão 3D. As informações típicas de carros a combustão, como nível de gasolina e sonda lambda, serão substituídas por dados relevantes ao sistema elétrico, entre eles:

O torque elétrico e o risco real para o câmbio original
Um dos pontos mais críticos do projeto é o impacto do torque do motor elétrico sobre o câmbio original do Chevette. A estimativa é que o motor entregue entre 60 e 70 kgfm de torque, um valor muito acima do que a transmissão foi projetada para suportar. A solução estudada é programar uma curva de entrega de torque pela central eletrônica, liberando a força de forma gradual para preservar os componentes mecânicos.
A diferença entre motor elétrico e motor a combustão agrava o desafio: enquanto no motor convencional o torque cresce com o aumento de rotação antes da embreagem acoplar, no elétrico ele aparece de forma imediata, sem progressão. A equipe avalia manter o câmbio para permitir diferentes relações entre uso urbano e velocidade final, e discute a possibilidade futura de operar em marcha fixa, usando a inversão do sentido do motor elétrico para fazer a ré.
O que esse Chevette representa para a cultura do retrofit elétrico no Brasil
O projeto não é apenas técnico. Ele representa uma cultura crescente de criadores independentes que constroem conhecimento prático sobre eletrificação automotiva no Brasil, compartilhando soluções, erros e descobertas em tempo real. A visita de integrantes do canal Rota da Invenção durante o dia de trabalho ilustra exatamente isso: uma rede informal de entusiastas que discute BMS, inversores, soldagem e rede CAN com a mesma naturalidade com que se fala de carburador e velas.
O Chevette elétrico não tem data para ficar pronto. A própria equipe define o projeto como algo que “não tem fim”, evoluindo por etapas conforme os testes avançam e os componentes chegam. Mas é exatamente essa lentidão intencional que torna o processo valioso: cada decisão tomada na bancada é uma aula prática sobre o que funciona, o que quebra e o que ainda está por ser descoberto no universo do retrofit elétrico artesanal brasileiro.
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