Por 120 dias, 150 pessoas desapareciam sob o Ártico dentro do maior submarino já construído
Dois reatores mantinham o gigante de 175 metros operando longe da superfície em um mundo fechado de aço, água e ar produzido a bordo
Em plena Guerra Fria, a União Soviética construiu uma embarcação tão larga e pesada que parecia desafiar a definição de submarino. O gigante foi criado para desaparecer sob a calota do Ártico durante meses, levando consigo ar, água, alimentos e energia suficientes para manter uma tripulação inteira isolada do mundo exterior.
Por que o submarino Typhoon precisava ser tão gigantesco?
Conhecidos pela designação soviética Projeto 941 Akula, os submarinos da classe Typhoon foram desenvolvidos na década de 1970. A missão exigia grande autonomia e capacidade para operar sob o gelo do Ártico, região onde a cobertura congelada oferecia proteção natural contra a observação de navios e aeronaves.
O resultado foi uma embarcação com aproximadamente 175 metros de comprimento, 23 metros de largura e deslocamento submerso que podia chegar a 48 mil toneladas. Suas proporções superavam as de qualquer outro submarino construído, criando espaço para sistemas redundantes, mantimentos e áreas de convivência incomuns em embarcações militares.
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Como uma tripulação conseguia viver tantos meses sob o gelo?
A permanência prolongada não dependia apenas da energia nuclear. Era necessário controlar o ar, a água, a temperatura e os resíduos dentro de uma estrutura completamente fechada. O submarino precisava funcionar como uma pequena cidade isolada, onde qualquer falha poderia comprometer dezenas de pessoas a centenas de metros abaixo da superfície.
Entre os sistemas necessários para essa autonomia estavam:
- Produção de água potável a partir da água do mar;
- Geração de oxigênio para os compartimentos internos;
- Remoção do dióxido de carbono liberado pela tripulação;
- Armazenamento de alimentos para vários meses;
- Controle permanente de temperatura e umidade;
- Equipamentos redundantes para situações de emergência.
No vídeo “Why The Largest Submarine In The World Wasn’t Big Enough”, o canal Not What You Think explica por que os soviéticos construíram a classe Typhoon em dimensões tão extremas e mostra como sua arquitetura estava ligada às condições do Ártico.
Como o submarino Typhoon permanecia submerso por até 120 dias?
Dois reatores nucleares de água pressurizada forneciam calor para gerar vapor e movimentar as turbinas da embarcação. Como esse sistema não dependia da entrada de oxigênio atmosférico para funcionar, o submarino não precisava subir regularmente para alimentar motores a combustão, como ocorria com modelos convencionais.
A autonomia teórica da propulsão era muito maior do que a duração de uma patrulha. Na prática, o período de submersão era limitado principalmente pelos alimentos, pela resistência da tripulação, pela manutenção dos equipamentos e pelo planejamento da missão. As estimativas mais citadas indicam permanência normal entre 90 e 120 dias.
O que existia dentro do maior submarino militar já construído?
A enorme largura escondia uma arquitetura diferente da adotada em submarinos convencionais. Em vez de um único grande casco resistente à pressão, o projeto possuía dois cascos principais paralelos, além de compartimentos menores. Essa configuração lembrava um catamarã fechado por uma cobertura externa hidrodinâmica.
| Característica | Dimensão aproximada | Importância no projeto |
|---|---|---|
| Comprimento | 175 metros | Acomodar sistemas, tripulação e grandes reservas |
| Largura | Cerca de 23 metros | Receber os cascos resistentes dispostos em paralelo |
| Deslocamento submerso | Até 48 mil toneladas | Transformá-lo no maior submarino já construído |
| Propulsão | Dois reatores nucleares | Fornecer energia sem depender do ar exterior |
| Tripulação | Cerca de 150 pessoas | Operar os sistemas durante patrulhas prolongadas |
| Autonomia de patrulha | De 90 a 120 dias | Permitir meses de operação sem retornar à base |
O espaço adicional permitiu instalar áreas de descanso mais amplas do que as encontradas em muitos submarinos, incluindo sauna, pequena piscina e instalações para exercícios. Não se tratava apenas de luxo: reduzir a tensão física e mental ajudava a tripulação a suportar o confinamento, a ausência de luz natural e os longos períodos sem contato direto com a superfície.
Como o submarino Typhoon operava debaixo da calota polar?
A região superior da torre recebeu reforços para enfrentar camadas de gelo durante a subida. Antes de emergir, a tripulação precisava localizar uma área adequada, avaliar a espessura da cobertura e posicionar cuidadosamente a embarcação. Então, o submarino aumentava sua flutuabilidade e pressionava o gelo por baixo até romper a superfície.
A estrutura externa também precisava tolerar baixas temperaturas e impactos provocados por blocos congelados. A Naval Technology registra que a classe alcançava cerca de 175 metros e podia manter a tripulação a bordo por até 120 dias, combinação que tornou esses submarinos particularmente adequados às patrulhas prolongadas no extremo norte.

Por que um projeto tão gigantesco acabou desaparecendo?
Seis submarinos da classe foram concluídos entre o fim da década de 1970 e os anos 1980. Após o encerramento da União Soviética, os custos de manutenção se tornaram difíceis de sustentar. A dimensão que oferecia espaço e resistência também exigia estaleiros preparados, equipes especializadas e uma estrutura logística extremamente cara.
O último exemplar utilizado, Dmitry Donskoy, permaneceu em atividade principalmente como plataforma de testes até ser retirado de serviço em 2023. Assim, o gigante que podia desaparecer por quatro meses sob o Ártico deixou de navegar, mas conservou um recorde ainda não superado: nenhuma outra classe de submarinos alcançou as mesmas dimensões e o mesmo deslocamento submerso.
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