Polvo coloca o braço dentro de uma fenda sem conseguir ver o que está ali e ainda consegue distinguir comida usando apenas o contato das ventosas
Experimentos revelam que receptores químicos permitem aos polvos reconhecer sinais de caranguejos e camarões escondidos, mesmo sem utilizar a visão
Escondidos entre rochas e corais, caranguejos e camarões podem escapar dos olhos dos predadores. Para os polvos, porém, isso não significa proteção completa. As ventosas do polvo conseguem reconhecer sinais químicos de possíveis presas apenas pelo contato, permitindo distinguir alimentos de outros materiais mesmo quando o animal não consegue enxergá-los.
Como as ventosas do polvo identificam alimentos escondidos nas rochas?
Um polvo pode localizar uma abertura estreita e introduzir um dos braços sem conseguir observar seu interior. Enquanto explora o espaço, suas ventosas entram em contato com diferentes superfícies e recolhem informações que ajudam a orientar a procura.
Essa capacidade é especialmente importante para animais que caçam no fundo do mar. Embora possuam visão desenvolvida, muitas presas permanecem escondidas em fendas, conchas e pequenos abrigos. Nesses ambientes, reconhecer substâncias químicas diretamente pelo contato oferece uma vantagem importante.
Leia também: As lanternas da floresta: os cogumelos que brilham no escuro com luz verde
O que aconteceu quando os pesquisadores esconderam substâncias de presas?
Em experimentos com Octopus bimaculoides, cientistas apresentaram amostras contendo extratos de caranguejos, camarões, estrelas-do-mar, algas e água marinha. Os materiais foram colocados dentro de uma estrutura artificial opaca, que impedia os animais de observar diretamente os objetos.
Os resultados revelaram diferenças comportamentais. Diante de substâncias provenientes de presas, os polvos mantiveram suas ventosas em contato por mais tempo e realizaram mais movimentos de curvatura dos braços, indicando discriminação química entre os estímulos apresentados.
O desenho experimental permitiu separar diferentes informações sensoriais:
- Extratos de caranguejo representavam possíveis alimentos;
- Amostras de camarão ofereciam outro estímulo alimentar;
- Estrelas-do-mar integravam os materiais de comparação;
- Extratos de algas ajudavam a avaliar respostas não alimentares;
- Água marinha funcionava como referência experimental.
Em um vídeo científico da Nature, pesquisadores demonstram como os braços dos polvos reconhecem substâncias químicas durante a exploração de superfícies e explicam os receptores envolvidos nesse comportamento.
Por que as ventosas do polvo conseguem sentir sabores pelo contato?
As ventosas possuem células sensoriais especializadas capazes de perceber características mecânicas e químicas. Algumas respondem ao contato físico, enquanto outras detectam determinadas moléculas presentes nas superfícies. Esse mecanismo recebe o nome de quimiorrecepção por contato.
A comparação com o paladar humano ajuda a compreender o fenômeno, mas existem diferenças importantes. Os polvos utilizam receptores especializados para reconhecer compostos presentes no ambiente marinho, incluindo moléculas pouco solúveis em água. Dessa forma, tocar uma superfície também pode fornecer informações sobre sua composição química.
Como os cientistas conseguiram isolar o sentido químico nos experimentos?
O estudo original publicado no Journal of Comparative Physiology A, em abril de 2022, foi conduzido por Kendra Buresch, Roger Hanlon e colaboradores do Marine Biological Laboratory, da Northeastern University e da Millersville University, nos Estados Unidos.
Para controlar diferenças de textura, os pesquisadores incorporaram os extratos em agarose, uma substância gelatinosa. Também impediram o acesso visual e reduziram pistas químicas percebidas à distância. Assim, puderam avaliar especificamente como o contato das ventosas influenciava as respostas dos animais diante das amostras.

O que as respostas das ventosas do polvo revelaram sobre suas escolhas?
A duração do contato e os movimentos dos braços serviram como indicadores comportamentais. Quando encontravam extratos associados a alimentos, os polvos apresentavam respostas mais prolongadas do que diante das substâncias utilizadas como comparação.
Isso não demonstra que cada ventosa identifique conscientemente uma presa. Os resultados mostram que sinais químicos locais são suficientes para provocar respostas diferentes, mesmo quando outras informações sensoriais foram controladas pelos pesquisadores.
| Material experimental | Categoria | Papel na pesquisa |
|---|---|---|
| Caranguejo | Presa | Estímulo alimentar |
| Camarão | Presa | Comparação alimentar |
| Estrela-do-mar | Não presa | Comparação química |
| Algas e água marinha | Controles | Referência não alimentar |
O que essa descoberta muda na compreensão do sistema nervoso dos polvos?
Os braços dos polvos possuem extensas redes nervosas periféricas, capazes de processar parte das informações sensoriais localmente. Essa organização ajuda a explicar como vários membros podem explorar regiões diferentes sem depender de instruções detalhadas e contínuas do cérebro.
Entretanto, o estudo não demonstra que cada braço tome decisões completamente independentes. Na natureza, visão, contato físico e sinais químicos provavelmente trabalham em conjunto. Investigações futuras poderão esclarecer como essas informações são integradas e como influenciam a eficiência da captura de presas escondidas.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)